Revista
Jus Vigilantibus, Sexta-feira, 12 de junho de 2009
A
tragédia do voo 477 da Air France continua a repercutir de forma incessante. Dia e
noite as TVs se revezam no afã de apresentar o que até agora é inexplicável.
Não existem explicações para a causa da queda do avião, uma espécie de Titanic voador mais que perfeito. Não há ainda
identificação dos corpos achados. Não foi localizada a caixa preta e é difícil
que o seja. Apenas permanece o horror das vidas ceifadas na celeridade de
poucos minutos. Soam advertências de como carreiras promissoras, promessas de
felicidade, sonhos são sepultados inexoravelmente no túmulo imenso e frio do
oceano. A tragédia coletiva relembra de como somos frágeis e impotentes diante
da morte.
O terrível acidente, entretanto, é mais do que luto e dor. Serve ao propósito
de acobertar fatos inconvenientes para o governo, distrai atenções, alimenta
conversas. Não se fala mais da gripe suína. Desapareceram como por encanto dos
noticiários as enchentes do nordeste com suas vítimas anônimas. Não se toca na
tragédia pessoal dos que morrem cruelmente sem atendimento em corredores de
hospitais inadequados. Omite-se o aumento da violência urbana, a ser
incrementada especialmente no Rio Grande do Sul porque juízes decretaram que
bandido nenhum vai preso porque faltam prisões. Ninguém sabe como anda o caso Cesare Battisti, o terrorista e assassino italiano que o
Brasil teima em proteger.
Assuntos, escândalos, espantos aparecem, somem e se perdem rapidamente na
memória coletiva, que de resto retém muito pouco do que é noticiado. Desse
modo, é de duvidar que ainda se pergunte: Existe mesmo um membro da alta
hierarquia do Al-Qaeda vivendo em São Paulo? É
verdade que a China tomou nosso comércio com a Argentina, apesar dos negócios
da China que Lula da Silva foi fazer com pompas e honras naquelas terras
distantes onde autoridades estão se lixando para direitos humanos? Aquele
deputado castelão sofreu alguma punição ou foi mais
um a se safar entre mensaleiros, sanguessugas,
falcatruas num Congresso onde Renan Calheiros é
exemplo a ser seguido, e o senador Sarney não sabe se recebe auxílio moradia
sem disto necessitar? E sobre a CPI da Petrobrás, que inspira terror pânico aos
companheiros presidenciais, vai ser de novo adiada por manobras governamentais?
Vai acabar em nada como todas as outras? Para trás, sem abrir, vão ficando as
caixas pretas da política nacional.
Além do terrível acidente do Airbus da Air France prevalece no momento
outro assunto que entretém a massa: a Copa de 2014. Já se nota que serão cinco
longos anos de massacrante e tediosa propaganda. Pão
e circo funcionavam na Roma Antiga. No Brasil Futebol e cerveja bastam para a
felicidade geral. Diga-se de passagem, que parecemos um país de bêbados, pois
em quase todos os acidentes de trânsito se diz que o chofer estava bêbado, como
no caso do deputado estadual paranaense, Fernando Ribas Carli
Filho que, bêbado, matou dois rapazes e, certamente, ficará impune.
Contrastando com a overdose sobre o acidente aéreo a indiferença do presidente
da República. Bem diferente na França onde o presidente Sarkozy,
pessoalmente, prestou solidariedade às famílias das vítimas. Lula da Silva
estava viajando para variar quando ocorreu a tragédia, mas mesmo em sua volta
preferiu enviar seu dedicado chanceler Celso Amorim para prestar condolências
em missa celebrada em memória dos que se foram. Tampouco Marco Aurélio Garcia,
o mentor de nossa desastrada política externa, se pronunciou. Ainda bem, pois
poderia fazer gestos obscenos.
Destacou-se no sinistro episódio o ministro da Defesa, Nelson Jobim, nosso
“general da banda” que, fissurado por fardas as
enverga sem a menor cerimônia. Idiólatra por
natureza, falastrão por excelência, o ministro deixou correr a imaginação e
pontificou para o mundo sacudindo uma vareta professoral. Diferente de suas
inspeções em navios, quando deu aulas sobre o que não entende, a fala teve repercussão
em outros países, mas não como desejava o ministro, pois foi tachado de “bavard”. Mais um vexame para nosso bestialógico
internacional já bem recheado com os discursos presidenciais.
Na TV, entre helicópteros trazendo restos das vítimas, eis que surge o ministro
da Fazenda, Guido Mantega. Em mais um malabarismo
verbal ele saudou a queda do PIB no primeiro trimestre, dizendo que foi menor
do que esperava. Aproveitou e renovou a promessa de que no próximo trimestre
tudo será melhor. O ministro que afirmou que o Brasil cresceria 5% em 2009, não
se peja em cair constantemente em contradição. Afinal, quem vai se lembrar do
que ele disse? Vale a palavra do presidente: é marolinha e ponto final.
Com Dilma ou Lula em terceiro mandato o PT pretende
continuar no poder. Seus marqueteiros sabem que fatos
são apenas versões, que mitos podem ser construídos com pinceladas de grossas
mentiras. O PT se superou na arte da manipulação e compreendeu que opinião
pública não existe. Portanto, para que respeito às vítimas do voo 447 e aos seus familiares? Basta mostrar o vaivém
sinistro dos helicópteros e os futuros e virtuais estádios da Copa 2014.