Olmert e os cérebros anatomicamente preciosos...

Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues

25.01.2008

 

 

Algumas anedotas podem ser encaradas como sagazes observações do que se passa no mundo exterior e nas dobras mais recônditas do cérebro humano. Não é à-toa — força de expressão, claro — que o córtex é cheio de dobras, como que providenciando pequenos esconderijos anatômicos para intenções não reveladas. Às vezes ao próprio cidadão. Freud vivia disso. Era um caçador de “feras’ invisíveis de todos os tamanhos, disfarçadas com variadas fantasias. Quase todas eticamente elegantes mas escondendo sua natureza egoísta, gananciosa ou mesmo feroz. Se exagerou em alguns pontos — milhões sustentam, sinceramente, que quando garotinhos, jamais cobiçaram a própria mãe — teve o mérito de relembrar algo já bem conhecido antes dele: “Olho no que está por detrás das palavras!”

 

A política, mais que qualquer outra profissão — até mesmo o comércio —, oferece exemplos diários da duplicidade entre o que se diz e o que se pensa. Isso porque o político é, em certa medida — independentemente de sua retidão de caráter — uma quase “vítima” de sua própria condição. Se for “excessivamente” sincero — em termos absolutos, não existe, como na gravidez, uma “meia sinceridade” —, perde eleitores. Perde mais do que ganha. E, perdendo sucessivas eleições, por “doentia” sinceridade, tem que abandonar a política. Seu chefe de partido, realista — com ou sem aspas — dá-lhe o ultimato: “Ou você concorda em mentir um pouco, pensando no partido, digo... — engasga —, no país — no país! —, ou escolhemos outro”! Se persistir com sua “obsessão” torna-se uma figura patética, inofensiva, discursando em cima de caixotes, berrando verdades que ninguém ouve porque um “loser”, por definição, só pode estar dizendo asneira, mesmo com aparência de verdade. O perdedor torna-se vocação frustrada, meio louco, embora possivelmente certíssimo no que diz. Não esquecer que o povo quer um líder “à sua altura”, isto é, não milhares de quilômetros acima de sua altura. Neste caso ele se tornaria um “alien”, bicho estranho a merecer desconfiança. E voto subentende confiança.

 

“Objetivamente”, terra-a-terra, os donos do partido estão certos. Há, porém, que, idealmente, aspirar, cada vez mais, por um percentual, o mais baixo possível, de inverdades na composição do bolo — parte verdade, parte mentira — julgado indispensável para vencer uma eleição. Quem mentir menos merece o voto do eleitor. Que pelo menos o candidato minta por omissão. E parem, por favor!, jornalistas investigativos sádicos! — calma, é uma brincadeira —, de examinar microscopicamente  o passado de todo candidato, porque a atmosfera política é, por sua natureza, essencialmente insalubre. Impossível atravessar o pântano e dele sair sem sanguessugas, mordidas de cobras, picadas de aranha e mosquito, a exigir tranqüilizantes monetários porque do contrário os mosquitos o comeriam vivo. Isso sem falar nas traiçoeiras mandíbulas dos grandes crocodilos. Limitem-se a investigar apenas os atos de desonestidade, o desvio de dinheiro público. Falhas menores, pessoais, profissionais, conjugais, etc., descontem como inerentes à fraqueza humana, estimulada pela atmosfera viciada. Como agradar gregos e troianos, eleitores de todos os interesses e níveis morais, sem alterar a verdade, por ação ou omissão? Desconversar — uma forma delicada de mentir —, é mais vantajoso, politicamente, do que dizer verdades desagradáveis. O eleitor também não é santo, embora exija isso de quem lhe pede o voto.

 

Voltando ao tema das anedotas, uma delas — no fundo impiedosa —, me inspirou a ligação dos cérebros (físicos) com a política. Dois calejados marginais americanos se reencontram em um boteco, depois de longa separação. Conversa vai, conversa vem, um deles pergunta: “Como vai seu irmão Edgard?” — “Vai mal, está no corredor da morte. Matou três guardas... Devia ter matado mais...” — “Que pena! E o Jonathan, o durão!” — “Morreu ano passado. Vingança do irmão de um concorrente que fora estrangulado pelo Jonathan”. — “Quanto azar! E a Lucy, aquela bonita ladra de lojas?” — “Morreu de pneumonia depois de esconder, dentro do sutiã, sob a capa, dois frangos congelados. A fila no caixa demorou e ela pegou pneumonia” — “É o destino... E o caçula, o “Little John”, “o gênio da tapeação?” — “O caçula está agora em uma grande universidade americana” — “Mas que salto! O que ele estuda lá?” — “Ele não estuda, propriamente. Ele é estudado. Seu cérebro está mergulhado em um grande vaso de formol. Os cientistas querem, dizem eles, “entender a origem biológica da mentira compulsiva”. Coisa nenhuma! Estão é de olho nas verbas de pesquisas!”

 

Sem querer igualar o conteúdo exagerado e sádico da anedota com aquilo que se passa na mente de alguns políticos modernos, alguns deles mereceriam que seus cérebros também fossem conservados e guardados, no formol ou no gelo, para estudo. Quem sabe futuros neurologistas poderão localizar alterações ao nível dos neurônios capazes de explicar as asneiras monstruosas que, a partir de certo momento, passaram a minar o órgão pensante de homens públicos de cultura e nível de informação acima do comum.

 

Vejam, por exemplo, o que ocorreu com Robert Mugabe, presidente do Zimbábue. É considerado um homem sagaz, ainda hoje. Esperteza não lhe falta. Foi herói na luta de independência de seu país, antes denominado Rodésia. Segundo a Wikipédia, “possui diplomas de inglês, História e Educação nas mais prestigiadas universidades africanas e obteve a licenciatura de economia (por correspondência, hum...) na universidade de Londres”. No entanto, de alguns anos para cá passou a errar continuamente, não só em termos políticos como morais. Expulsou os brancos de suas terras, sem qualquer indenização e, na disputa política, usa e abusa da mais clara coação física. Quem discorda apanha ou morre. Está com 83 anos, aparentemente lúcido, enérgico, e provavelmente só deixará o poder por morte natural, dentro de um caixão. Outros governos africanos continuam apoiando-o, sem explicar racionalmente porque o fazem. Dizem que foi porque ele lutou pela independência em 1980. Já era tempo deles esquecerem isso, não? Zimbábue, de colonização inglesa, foi, antes da degringolada de Mugabe, um modelo para a África. Hoje, mais de sessenta por cento da população vegeta no desemprego e na subnutrição, com o HIV comendo boa parte da mocidade. A inflação ultrapassa as nuvens.  Seu governo é considerado um dos mais corruptos do mundo. Como se explica isso em um homem enérgico e, pelo menos aparentemente, inteligente? Cientistas do cérebro deveriam estar esfregando as mãos, esperando que a própria natureza dê um fim ao cataclismo biológico unipessoal que caiu sobre um país africano que tinha tudo para dar certo. Salvo engano, W. Churchill chegou a dizer que a então Rodésia era a jóia da coroa inglesa.

 

Um outro político que não tem desculpa para o que faz hoje é Ehud Olmert, o discutido — “campeão defensor” ou “carrasco”? — premiê israelense. Consta que formou-se em Psicologia, Filosofia e Direito. Advogou com sucesso em Israel e ocupou cargos de relevo. Foi Ministro das Finanças, da Indústria, Comércio e Trabalho, da Saúde, Administrador das Terras de Israel e Prefeito de Jerusalém.  Cultura e experiência, portanto, não lhe faltam. No entanto, pensando, provavelmente — a menos que se trate de um distúrbio cerebral — em “fazer o bem máximo” aos israelenses, passou a caprichar no “mal máximo”, o esmagamento da população palestina que, atualmente, vê-se obrigada a dinamitar os muros que a separam do Egito. Desesperados, sem abastecimento, sem combustível, sem luz, quase sem água, os palestinos procuram, no Egito, um alívio para seu tormento. Os jornais mostram fotos de centenas de mulheres palestinas desesperadas fugindo dos jatos d’água.

 

Tudo isso sob as barbas atônitas e revoltadas da comunidade internacional, que nada realmente importante pode fazer para regularizar, de vez, a situação. Qualquer medida internacional mais severa para conter os abusos do ilustrado mas desequilibrado premiê é boicotada pelo governo Bush — outro cérebro merecedor de um pote especial de formol —, apoiador mesmerizado de Olmert.

 

Bush não sabe que está sendo tapeado pelo premiê —, nesse item, bem astuto. Bush pretende “pacificar” a região até o fim de seu mandato, este ano, criando dois Estados que viveriam juntos, com fronteiras bem delimitadas. Bush quer deixar, pelo menos, essa boa lembrança de sua passagem pelo governo mais poderoso do mundo. Presume que vai conseguir a paz definitiva na região. Mas presume errado porque Olmert sabe que o peso político de Bush, hoje, é sombra do que era pouco antes da invasão do Iraque. Apoiado nessa constatação, “empurrará com a barriga” — disfarçadamente, abusando na insistência de detalhes —, até o fim de 2008, as negociações com os representantes palestinos. Enquanto faz esse joguinho de “concordo mas não concordo” — vai preparando seu ingresso na Otan porque pretende continuar na impunidade e não sabe se continuará com o mesmo apoio americano, incondicional, cego, se o Partido Democrático vencer a eleição presidencial.

 

Olmert espera e confia — chega-se a admitir isso — que alguns broncos cérebros inimigos, também meio enlouquecidos — os exaltados do Hamas, que ficam arremessando foguetes, mísseis e morteiros — continuem nessa asneira que não serve pra nada, nem mesmo — melhor assim... — para ferir. A quase totalidade explode em áreas desabitadas.

 

Esses desmiolados palestinos — potes de formol também aguardam seus cérebros inflamados— que continuam arremessando foguetes no deserto só servem para fornecer pretextos a Olmert: “Só retaliamos porque preciso defender o povo judeu!” Desculpa esfarrapada porque ele mesmo sabe que é impossível à Autoridade Palestina estar presente em todos os cantos, de modo a impedir atos de desespero e ódio de uns poucos que não se conformam com o progressivo massacre imposto a seu povo.

 

Se houver um pouco de juízo na direção da Otan — o próximo guarda-costa de Olmert — esta deveria condicionar o ingresso de Israel a uma modificação radical na sua política de direitos humanos com relação aos palestinos, progressivamente expulsos de suas terras, pela astúcia ou pela força. Os palestinos estão sendo progressivamente vítimas de um “Holocausto Light”, e os tolos terroristas “fogueteiros” do Hamas fornecem, sem querer, um pretexto para que haja uma “diáspora” de novo conteúdo: agora não mais de judeus, mas de palestinos.

 

Olmert disse, na mídia, que “tem medo do desaparecimento de Israel”. Por isso — depreende-se — capricha no esmagamento, fazendo com que os palestinos fujam para o Egito em busca de artigos essenciais. Não sei se esse alegado medo é sincero ou um pretexto para ficar na História como o “grande herói expansionista” da futura grande potência econômica e territorial. Se, eventualmente, esta é sua recôndita ambição, o tiro poderá sair pela culatra. Tomar terras alheias pela força, ali permanecendo por várias gerações — como ocorria no passado —, dava certo porque, com o suceder das gerações, a violência inicial ia sendo esquecida. Havia uma progressiva acomodação. Hoje já não é assim. E o ódio do injustiçado expulso não é bom conselheiro.

 

É provável que gerações futuras de israelitas lamentem até mesmo o nascimento de Olmert, um homem inteligente, bom chefe de família, bom marido, culto, patriota, etc, mas vítima de uma espécie de trava cerebral no encarar a mais importante missão de sua vida: tornar segura, tranqüila e bem-vinda — isso não é impossível — a presença de Israel na região. Inteligência, organização, dinheiro e senso de justiça não faltam ao povo judeu. Só que a Justiça não pode ser aplicada apenas aos seus, mas também aos vizinhos mais fracos, embora revoltados e mesmo “fogueteiros”, como foi dito acima. Cessado o ódio, cessarão os foguetes.

 

Se Olmert mudar de atitude seu cérebro, em vez de ficar na ala dos potes dos “tenebrosos”, poderá ficar na ala oposta, reverenciada, onde está, hoje, o cérebro de Einstein, esse orgulho da raça humana e judia, não só pelo intelecto como também pelo coração. Se persistir na política atual, de tiranização, sua única utilidade de ter vivido será a de apressar uma reforma da ONU permitindo a ela decidir as grandes pendências — como é o caso da questão palestina — e depois exigir o seu efetivo cumprimento. Sem privilegiar a força dos países mais fortes, que impedem o cumprimento das sentenças da Corte Internacional de Justiça, como ocorre hoje.