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QUE SOU ????
Crônica sobre um bacharel em Direito impedido criminosamente de trabalhar.
Reynaldo Arantes
Bacharel em Direito pela Unoeste de Presidente Prudente/SP e
Presidente Estadual do MNBD em São Paulo e Presidente Nacional em Exercício.
Email para contato: mnbd.sp@uol.com.br
É doce recordar a voz da minha mãe me acordando para mais um dia... O carinho e
o incentivo revigoravam a mente após um sono reparador em uma cama “elástica”
de ferro, com colchão de capim, duro, que soltava um pó danado, mas que
embalava meu sono profundo de todas as noites.
Levantava e mesmo ainda aproveitando os últimos estágios do sono, lavava o
rosto, escovava os dentes, molhava os cachos de cabelos rebeldes e já sorridente,
chegava a mesa da cozinha, onde um xícara de café fumegante e um pedaço de broa
caseira me esperavam. Não havia leite sempre, manteiga era artigo de luxo, mas
a broa era feita por minha mãe com aquele carinho peculiar às mães e era o
suficiente para energizar meu corpo ainda miúdo e infantil...
Tinha então sete anos e iniciava minha jornada em busca de uma formação que me
tornasse um cidadão útil à minha pátria, à minha família. “O Brasil somos nós
que o fazemos” era a frase ouvida das professoras nos primeiros dias de aula.
Sei que foi com sacrifício que minha mãe comprou a cartilha “Caminho Feliz”, um
lápis nº 2, um apontador simples, uma borracha Mercúrio – com o símbolo de um
cara com um chapéu de asas, mais tarde vim saber ser um Deus Grego – uma régua
de 15 cm e uma caneta Bic azul. O material ia em uma sacola feita pela minha
mãe, de tecido de calça jeans velha, que eu orgulhosamente colocava nos ombros.
As aulas começavam depois do hasteamento da Bandeira Nacional na quadra da
Escola simples, com paredes de tijolões de cimento, cadeiras com apoio para
escrever e quadro verde, que não sabia porque se chamavam “Negros”. Aprendi as
primeiras letras ouvindo as vozes incisivas de professoras que faziam do ensino
uma missão divina e que eram segundas mães para todos, sempre preocupadas com o
colega que chegava descalço, pois em sua família faltava até dinheiro para as
havaianas. A estes, a porção de polenta mole com molho de carne moída era
sempre maior nos recreios.
Recreio era sinônimo de alegria, com jogos de queimada e futebol, ambos movidos
a bolas de meia. Gastávamos a pouca energia da merenda simples em pouco menos
de meia hora de atividades felizes e as vezes, dormíamos na cadeira após,
cansados da brincadeira e pelo trabalho do estômago em digerir a merenda.
Alguns poucos acrescentavam frutas, salgadinhos e uma garrafinha de grapette –
refrigerante de framboesa – na merenda. A maioria só ficava vendo e torcendo
para um dia seu pai ter condições de fazer o mesmo.
Assim, fiz os primeiros 4 anos do primário e aos 11 anos – faço aniversário em
novembro... – quando cheguei a 5ª série, comecei minha vida de trabalhador. Fui
contratado para escovar os sapatos que o “remendão” amigo da família
consertava. Assim, ao voltar da escola, almoçava arroz, feijão e legumes
cosidos, algumas vezes ovo frito e raramente um bife translúcido – de um lado
se via o outro – incrementado com cebolas e seguia para o trabalho que até hoje
não sei se era remunerado ou não, pois nunca recebi nada pelo que fazia, mas
fazia meu trabalho com gosto. Afinal, era meu primeiro emprego, me sentia útil,
produzindo algo...
Na nova fase, ginasial, a novidade eram os vários professores: química,
matemática, português, história, geografia, Educação Moral e Cívica, todos com
ar de sabedoria e que eram modelos de estudo por nós. O recreio já era mais
seleto, pois não nos misturávamos com as “crianças” do primário... O jogo agora
era só futebol, com bolas de capotão sempre com tiras de couro esvoaçando de um
lado para outro. Os empregos se multiplicavam: ajudante em farmácias, mercados,
sempre limpando o chão, arrumando prateleiras, levando entregas, fazendo
trabalhos sem valor, mas o importante é que já havia pagamento e as moedas que
ficavam para mim, eram economizadas arduamente em um porquinho de plástico, com
uma abertura em cima que dificultava a retirada e nos incentivava a deixa-lo
mais pesado. Todas as noites, se sonhava com o que fazer com o dinheiro
economizado, enquanto se sopesava o porquinho e se ouvia o tilintar das
moedas...
Terminei a 8ª série e me recordo bem dos professores durante todo o ano falando
da importância de se estudar, de seguir os estudos, de fazer o colegial e se
preparar bem para uma vida profissional. Os exemplos eram dados com nomes de
colegas que ficavam para trás, que pararam de estudar desde o primário pelos
mais variados motivos: queriam mais tempo para jogar bola, precisavam trabalhar
o dia todo para ajudar os pais, se achavam burros e ao repetirem, saiam da
escola e o pior, aqueles que queriam estudar, mas os pais achavam importante só
aprender ler e escrever e assim que eles demonstravam saber o básico, eram
retirados da escola e colocados para trabalhar.
Já com meus 14 anos, me sentindo um homem – até meu bigode já aparecia um pouco
e eu o realçava com lápis sem dizer isto para ninguém, é claro – já trabalhava
o dia todo e estudava a noite. Meus trabalhos se alternavam, mas sempre eram
puxados, cansativos e sempre eu chegava na escola lutando para não dormir. A
hora do recreio já não tinha mais o glamour de antes, pois cansado, só queria
relaxar um pouco e observar os poucos que não trabalhavam e tinham disposição
para jogar volley, basquete ou futebol de salão na quadra de cimento liso.
As noites de frio ou de chuva eram as piores, pois apesar de ter conquistado
minha bicicleta, fruto de porquinhos cheios de moedas e muitas trocas entre
colegas, o trajeto do serviço para a escola e da escola para casa à noite
sempre alongava os quarteirões e tinha de me concentrar e pensar na sopa
quentinha que me esperava, no olhar doce da minha mãe, no olhar severo mas
incentivador do meu pai e na cama, que continuava a mesma, com seu colchão de
capim seco me esperando para mais uma noite de sono.
O colegial trouxe para minha realidade os trabalhos escolares que tomavam meu
tempo nos finais de semana e me faziam optar entre um jogo de futebol no
campinho de terra próximo com os amigos e a necessidade de fazer os trabalhos,
obter notas e passar sem repetir ou ficar de recuperação. Ao contrário de
muitos amigos, preferi os estudos e segui em frente, enquanto a cada semana, a
sala apresentava mais uma cadeira vazia...
Terminei finalmente o colegial, comecei a sonhar com profissões diversas, não
sabia ainda que caminho seguir e tive uma parada nos estudos já que em minha
cidadezinha do interior não havia faculdade e nem curso profissionalizante. Foi
um hiato gostoso depois de 11 anos de estudos por poder chegar em casa no
inicio da noite e poder assistir o Jornal Nacional, ler livros sem a obrigação
de estudar para fazer resumos e ao mesmo tempo, um período de incertezas quanto
ao caminho a se seguir mais para a frente. Um ano de folga e já chegou minha
vez de se alistar, cumprir minha obrigação para com a minha Pátria e lá fui eu
servir como atirador no Tiro de Guerra da minha cidade. Era uma honra vestir a
farda, calçar um coturno bem engraxado, limpar a fivela do cinto de pano com
bombril para ele ficar brilhante.
Quem gostava de estudar e já estava ou tinha terminado o colegial era chamado
pelo Sargento – a maior autoridade militar que conhecíamos – para fazer o curso
de Monitor, passar por provas escritas difíceis e se aprovado entre os
melhores, comandar seu próprio pelotão de 9 homens. Fui o primeiro colocado em
uma disputa acirrada com o segundo lugar, disputando nota a nota nas
disciplinas apresentadas. Minha recompensa foi uma braçadeira de Monitor, que
chamava a atenção das meninas nas festas e nas ruas da cidade.
As atividades físicas, as horas de estudo, as marchas nos finais de semana, as
noites e os dias para tirar “Guarda” no quartel, a camaradagem, as brincadeiras
adultas entre os colegas, um aprendizado para a vida... O serviço militar foi
uma lição de respeito às leis e a hierarquia social...
Mas o serviço militar em Tiro de Guerra, não interferia no trabalho de cada um.
Assim, levantava às 5h com a cidade dormindo, me dirigia pelo escuro das ruas
mal iluminadas de casa até o “TG”, fazia minhas atividades e as 8h estava
rapidamente trocando a farda por roupas civis e me dirigindo para meu trabalho
como qualquer cidadão.
Obtive minha reservista como cabo de 2ª classe – distinção como Monitor – e
tirei meu título de eleitor, que junto com o CIC (cartão de identificação do
Contribuinte) – ainda não era CPF – o RG e a Carteira de trabalho que já tinha
há alguns anos, me tornava um cidadão apto a exercer minha cidadania.
Fui em busca de meus sonhos... Mudei da minha cidadezinha para um centro maior,
onde havia faculdade e onde poderia ter uma profissão, um nível superior, virar
doutor... Para me manter, os trabalhos eram estafantes, mas encontrando
trabalho eu tinha como buscar minhas metas e chegar a uma faculdade. Fiz
vestibular, consegui uma vaga e me inspirando em Rui Barbosa entrei para fazer
o curso de Direito.
Foram anos sofridos, sacrificados, onde o corpo reclamava dos limites
extrapolados com o trabalho diário e os estudos noturnos. Os bancos dos ônibus
entre o trabalho e a faculdade eram duros, desconfortáveis e gelados, mas toda
noite o cobrador me acordava quando chegava meu ponto e eu podia dormir nos
minutos do trajeto, apesar do desconforto, pois meu corpo queria o descanso que
eu não dava...
A maior dificuldade não era a mensalidade, a passagem de ônibus, a fome que me
atiçava os sentidos por falta de dinheiro para me alimentar fora de casa, a
dureza era o valor dos livros necessários para se estudar, sempre inacessíveis
aos meus parcos recursos. Já escolado pela vida, vivia em “sebos” a caça de
livros descartados, de edições anteriores com itens obsoletos, mas que tinha
uma grande parte atual e que estava ao meu alcance financeiro. As partes
revogadas, eu cuidadosamente cobria com as modificações escritas à mão em
pedaços de papel.
A ida aos sebos e os preços acessíveis ao meu bolso, me faziam investir em
outros livros de Direito não citados em sala de aula, mas que me davam prazer
em ler e em aprender um pouco mais. Como eu, a maioria dos colegas do curso
fazia Direito por vocação, contava-se nos dedos de uma mão os que estavam
fazendo o curso por imposição dos pais ou que não tinham a aptidão pela
matéria.
Buscar complementos, exercitar oratória, postura e expressão corporal, ler
frases em Latim que nunca decorei, mas que anotava diligentemente para montar
meu dicionário de expressões latinas, participar de palestras, interagir em
debates sobre temas jurídicos, aplicar o que estávamos aprendendo nos fatos
noticiados do dia a dia, tudo era importante. Eu estava me preparando para ser
um advogado... Para defender pessoas, para aplicar a Constituição e fazer
respeitar a Democracia e o Estado Democrático de Direito. Quem faz Direito quer
melhorar o Mundo, quer lutar contra as injustiças e fazer valer as leis.
Já no inicio da faculdade me casei mais por conveniência que por paixão
avassaladora. Precisava de alguém para cuidar das minhas coisas em parceria e
dividir as despesas de uma casa. Estudávamos juntos, trabalhávamos juntos e
construíamos uma vida juntos. Ela acabou o colegial e nossos recursos não davam
para manter dois na faculdade. Ela ficou em casa a noite e me incentivava a
continuar os estudos... Quando eu chegava, ela estava dormindo. Ia nas pontas
dos pés até a cozinha matar a fome e deitava devagar, pois o dia dela era
trabalhoso também.
Veio meu filho e se não fosse a mãe ele não saberia o que era família, pois eu
saia com ele dormindo e voltava com ele dormindo. Nos finais de semana me
debruçava sobre livros enquanto ele engatinhava, ele crescia e eu não via. Eu
era pai biológico, mas ele só sabia que eu existia porque ocupava uma parte da
cama à noite e ele me via sentado na frente de livros durante os finais de
semana.
A cada ano que passa, mais difícil fica para fisicamente agüentar fazer a
faculdade. As aulas ficam mais longas, as férias mais pequenas, as matérias
mais complexas e a vista mais fraca, adotei os óculos por necessidade e meu
único prazer era ter cada vez mais argumentos para me embasar nos debates
jurídicos. O estudo e os dias avançam, estava chegando minha formatura...
Não tive dinheiro para as festas de formatura, apenas o básico para alugar a
beca e fazer o juramento. Minha mulher está radiante, apostou em um vencedor,
meu filho já corre pelas galerias e entre os bancos junto com outras crianças.
Vejo a cena e digo a mim mesmo que ele terá mais que uma havaiana para ir a
escola em breve. Me sacrifiquei, mas agora chegou minha hora de ser
recompensado. Alguns colegas de trabalho vieram me prestigiar, virei doutor, já
ajudei vários colegas de trabalho com orientações de como agir, a família me
liga para me consultar sobre Direitos e já me sinto com a base necessária para
iniciar o aprendizado prático e me tornar um profissional completo.
Pego meu Diploma, olho para ele e resolvo que ele merece uma moldura especial,
pois foram 16 anos de estudo, de luta, de sacrifício, de noites mal dormidas,
de corpo cansado, de sonecas em bancos de ônibus, de economias rigorosas, de
ausência familiar, de dormir sobre livros, de finais de semana e férias
estudando, de dedicação hercúlea para conquistar aquele pedaço de papel com
várias assinaturas e que, através do qual, o Estado Brasileiro me conferia o
direito de trabalhar. A moldura dourada de madeira simples foi o máximo que
consegui, mas para mim era um troféu maravilhoso. Eu achava que tinha saído do
inferno e que estava às portas do paraíso...
Faltava ainda um degrau, fazer o Exame de Ordem para finalmente sair de meu
emprego normal e sem atrativos, para me tornar um profissional liberal, ser meu
próprio patrão depois de anos subserviente e dedicado aos outros. Fiz minha
inscrição confiante, afinal, sempre fui um dos melhores alunos da classe e da
própria faculdade, dominava as matérias, tinha complementado as aulas com os
livros dos sebos e cuidava da minha bagagem cultural como poucos, sempre lendo
revistas jurídicas, artigos de juristas sobre diversos assuntos, enfim, era fazer
o Exame de Ordem e iniciar minha carreira, onde teria ainda muito o que
aprender, aprender a prática, me especializar, acompanhar a jurisprudência dos
Tribunais, aprender com o dia a dia nos escritórios de advocacia, encontrar
trabalho e sabedoria em um profissional veterano que me usaria como advogado
júnior, mas que me transmitiria seu conhecimento e sua experiência
profissional.
Chegou o dia do exame, chego cedo, desdenho intimamente o pessoal de cursinhos
preparatórios que panfletam a entrada do local de prova, assino a ficha na
entrada da sala com confiança, me sento na carteira disposto, certo que farei
uma prova excelente, a prova chega e eu a abro... Minha confiança começa a
ruir...
Encontro uma pergunta que exige conhecimento de jurisprudência do Tribunal de
Ética da OAB, que raio de pergunta é esta se jurisprudência não é matéria
curricular das faculdades e sim conhecimentos que eu ainda vou obter quando for
trabalhar??? Pulo a pergunta e a próxima tem 2 respostas certas... Que
sacanagem, qual das duas certas tem uma vírgula, um ponto que a torna falsa????
Pulo novamente e ela é sobre Direito Autoral e eu sei que esta é uma matéria
optativa, mas minha faculdade não optou por esta matéria e eu nada sei sobre
ela... Pulo novamente e a nova pergunta é uma “salada” de Ramos do Direito sem
nexo, misturando Direito Civil com Direito alfandegário, com destaque para
Direito Previdenciário, bases de Direito Trabalhista, Código de Defesa do
Consumidor, Estatuto do Idoso, enfim, uma mistura sem nexo, ou como diria minha
avó, “sem pé e nem cabeça”...
Encontro enfim, perguntas de Direito Processual Civil e outras que fazem parte
do meu conhecimento, mas elas são minorias, não vou atingir nem os 50%
necessários para passar de fase... As 5 horas de exame são um suplício que
ainda me era desconhecido. Saio exausto, preocupado, me achando um
incompetente, tenho a certeza de que não fui bem e não consigo sorrir por
vários dias... Minha mulher nota minha mudança, explico para ela que não sei se
passei, pois digo a ela as dificuldades que encontrei. Chega o dia da
divulgação da lista, fico no computador atualizando a cada minuto a espera da
lista... Quando ela entra na tela, busco ansiosamente meu nome .... Ter um nome
começado com a letra R me faz pensar na minha mãe quando escolheu meu nome...
Não podia ser um nome começado com A ??? Com B??? Encontro finalmente meu nome,
busco com sofreguidão minha nota e vejo que alcancei apenas os 50%
necessários... Apesar de todo o meu histórico escolar ser de destaque, fui apenas
mediano, mas consegui passar...
Chega a data da 2ª fase e até por precaução vou preparado. Os livros para
consulta pesam na mochila às minhas costas, mas estou levando TODOS os livros
possíveis de serem utilizados, nada e ninguém vai me impedir de demonstrar meu
conhecimento, meu valor, meu preparo. Novamente uma sala silenciosa, a
diferença é estampada nos rostos de cada um, afinal, somos menos de 10% dos
colegas fazendo a tal 2ª fase.
As perguntas finalmente são fáceis para quem estudou além dos limites como eu.
A peça requerida está dentro do que eu estudei e saio do exame satisfeito...
Feliz em ter sido um bom e dedicado aluno, de ter trocado os finais de semana
no shopping com amigos por horas de estudo extra. Agora é só aguardar minha
aprovação e seguir meus estudos já no exercício profissional. Já separo na
agenda o telefone de um advogado disposto a me contratar e imagino meu inicio
de trabalho, os ternos, as camisas sociais, as salas com ar condicionado, os
processos se empilhando ao meu lado e sobre minha mesa.
Preciso mudar meu guarda-roupas, preciso de ternos simples, mas variados. Meus
colegas estão felizes com minha vitória. É hora de pedir demissão, usar o
dinheiro da rescisão para me preparar para minha nova carreira profissional. O
acerto é correto, meu patrão não me enganaria sabendo ser eu um profissional
competente no Direito. Levo minha mulher e filho ao shopping para jantar,
afinal, uma nova vida começa. Minha mulher enfim está sorridente, seu marido é
doutor...
No dia da divulgação do resultado da 2ª fase, nem tive a preocupação de estar
de madrugada na frente do computador, fui abrir a Internet só depois do almoço,
apenas pela curiosidade de ver a nota obtida... Vasculho a lista de aprovados e
não encontro meu nome !!! Retorno, procuro lentamente de novo e nada !!!
Caramba, tem erro aqui !!! Cadê meu nome ???
Na manhã do dia seguinte, cheguei antes da abertura da OAB, esperava ser o
único, mas já tinha uma aglomeração na frente do local. Todos, como eu,
reclamavam da correção, alegavam erro e queriam corrigir suas notas, pois
tinham feito a prova com a mesma qualidade da minha...
Abriram-se as portas e funcionários de cenho franzido, faziam questão de não
escutar o que falávamos e de forma mecânica distribuíam formulários de recurso.
Tive acesso a minha prova e constatei que mesmo certas, minhas respostas e
minha peça tinham correções esdrúxulas... Parecia que os examinadores não
falavam o mesmo português nem entre eles !!! Um examinador me deu 8 na peça que
outro me deu zero !!! Ilógico !!! Irracional!!! Inusitado!!! Despropositado!!!
O Que era aquilo ???? Fiz o meu recurso em minutos, embasei muito bem minha
defesa, apontei os erros dos examinadores e novamente me senti confiante. Era
apenas um erro e ele seria corrigido. Quando cheguei em casa, minha mulher
ainda tinha os olhos vermelhos de chorar, mas nada me disse e meu bom humor e
confiança fizeram bem a ela.
Após dias de expectativa, o resultado do recurso saiu... Para minha surpresa,
má surpresa, meu recurso tinha sido INDEFERIDO, mas cadê a fundamentação ???
Onde está o embasamento para o indeferimento ??? Me senti um verme pisado pela
bota de montaria de um gigante... Esmagado... Respirei fundo e voltei à OAB,
perguntei pelo responsável pelo exame e uma funcionária de forma displicente
apontou para um corredor. Ao dobrar a esquina para o tal corredor, encontrei de
novo uma multidão aguardando. O ar era fúnebre, as faces carrancudas, o clima
era pesado, mas interessante, era exatamente como eu me sentia, parecia que eu
trouxera mais material para aumentar o ambiente tétrico que reinava....
Depois de um “chá de banco” de horas, chegou minha vez. Um homem de aspecto
cansado, com ar de poucos amigos e em mangas de camisa me perguntou sem
rodeios: Qual é teu caso??? Expliquei que minha prova estava correta, os erros
dos examinadores, a falta de fundamentação do indeferimento e a resposta foi
curta e grossa: Não temos como explicar a cada um de vocês onde foram
incompetentes, onde erraram e o que tinham de fazer, tenha paciência e espere o
próximo exame, mais 4 meses e tem outro .
Tentei argumentar que não podia esperar, que estava desempregado e que
precisava da carteira para poder trabalhar e sustentar minha família. A
resposta foi lacônica e seca: Aqui não é assistência social, não tenho nada com
isto, se acha que está errado, busque a Justiça...
Sai da sala pronto para realmente buscar a Justiça, aplicar o que havia
aprendido nos bancos acadêmicos, saí do local com um Mandado de Segurança
pronto na cabeça, com todos os fundamentos conferidos, com tudo certo para
defender meu Direito... Parei no primeiro orelhão e liguei para o advogado que
estava disposto a me contratar. Expliquei para ele minha situação e pedi para
ele assinar a ação. Minha primeira desilusão: A resposta foi de que eu teria de
esperar a aprovação e a carteira para ser contratado – se a vaga permanecesse,
já que haviam outros em vista – e que ele não iria assinar uma ação contra a
Ordem dos Advogados, pois senão, ele ficaria “queimado” com seus amigos e
poderia ser retaliado pela própria Ordem.
Voltei para casa e se os olhos da minha mulher estavam vermelhos, os meus
ficaram pouco depois. Meu humor ficou irascível e correspondi com uma carranca
o sorriso de boas vindas do meu filho, que nada entendeu... Comecei a procurar
advogados amigos, colegas que tinham passado no exame e todos me responderam
negativamente: Assinar uma ação contra a OAB??? Não, se precisasse de dinheiro
eles até emprestariam, mas ir contra a OAB nem pensar... Passei a procurar
advogados pela lista telefônica e a peregrinar pelos escritórios. Nada, ninguém
iria assinar uma ação contra a OAB, o medo de retaliação era grande e eu via na
face dos advogados a frase: Porque não estudou melhor para passar ???
Acabou o dinheiro da rescisão e minha mulher levou meu filho para a casa da
minha sogra. Minha casa que antes era meu refúgio, virou minha prisão. Prestei
novo exame e não passei nem da primeira fase... O dinheiro tinha acabado e
voltei para minha cidadezinha e para a casa dos meus pais... Eles que
acompanhavam minha luta, me receberam resignados, sem abraços de boas vindas.
Era uma fracassado que voltava ao lar paterno.
Um amigo de infância, penalizado com minha situação, me ofereceu emprego de
chapeiro no trailer de lanches que possuía. Sem dinheiro e sem ter o que fazer
aceitei. Reunia poucos centavos para pagar nova taxa de inscrição no exame de
ordem e fiz mais um exame. Novamente não passei da 1ª fase... Meus pais me
criticaram, briguei com eles e fui morar em uma edícula no fundo da casa do meu
irmão. Me alimentava no trailer e levava um lanche escondido para me alimentar
durante o dia. Pensava em fazer o tal cursinho, mas não tinha mais dinheiro
para pagar as mensalidades, caras e inacessíveis. Não tomava mais banho
diariamente, não fazia a barba com regularidade, usava a mesma roupa vários
dias, não fazia amizades e não contatava os amigos. Estava com depressão
profunda.
Meu amigo, o dono do trailer, com comiseração, me ordenou que fosse a um
psicólogo antes que ele tivesse que me despedir, pois eu estava um trapo
humano, aliás, só um trapo, de humano nada havia mais em mim. As sessões com o
psicólogo nada modificaram em minha vida e em minha depressão e o psicólogo me
encaminhou para um psiquiatra. As sessões com ele não resolveram nada, mas os
remédios agiram e eu voltei a me banhar, vestir e me cuidar um pouco pelo
menos.
Um dia de folga de um atendente, levei um lanche até a mesa de um grupo e a
conversa deles me interessou: A inconstitucionalidade do exame de ordem e a
sacanagem da OAB em usar um exame ilegal para barrar o acesso à carreira e
fazer uma reserva ilegal de mercado. Puxa vida !!! Eu nunca havia me atentado
para isto !!! Sabia que tinha uma lei que previa o exame, mas nunca procurei
saber se ela era constitucional ou não !!! Justo eu que sempre fui estudioso e
combativo não havia procurado estudar a questão que me afligia !!!
Nada disse, mesmo sabendo que o grupo era cliente do trailer. Fiquei quieto,
voltei a casa dos meus pais que há muito tempo não via e pedi para pegar meus
livros que estavam guardados na casa. Mesmo sob olhar estranho de meus pais,
fiquei algumas horas estudando e vi que o grupo tinha razão. O exame era
inconstitucional. O art. 5º, XIII combinado com o Art. 205 da Constituição
provavam isto. Qualificação eu tive na faculdade, nada mais podia vetar meu
trabalho !!!
Um novo homem aguardou a vinda do grupo ao trailer. Algumas noites apenas e vi
um rosto conhecido. Abandonei meu posto e fui conversar com ele. Ele era
bacharel em Direito como eu e me disse que fazia parte de um movimento de
bacharéis que lutava pelo fim do exame de ordem. Tirou da pasta um papel e o li
avidamente. Era isto, o exame não era inconstitucional só materialmente no
quesito “Qualificação”, também infringia o Principio da Isonomia do art. 5º
caput, era inconstitucional formalmente, já que havia sido regulado pelo
Conselho da OAB e não pelo Presidente da República como determinava o Art 84,
inciso IV da Constituição e já havia sido revogado tacitamente pela Lei
9.394/96... E eu que não sabia e não busquei me informar sobre isto...
Abracei o colega, pois a leitura do que havia lido era o remédio para a alma
que eu precisava. A primeira pergunta minha foi porque eles não colocavam
aquilo na imprensa, a resposta foi: A OAB domina a mídia há anos, ainda não
temos espaço para levar isto aos colegas. E porque não levam isto aos
Tribunais, perguntei: E qual advogado vai assinar uma ação contra o exame de
ordem, a menina dos olhos da OAB, foi a resposta que me fez lembrar de minha
própria peregrinação...
E o que posso fazer para mudar isto ??? Minha pergunta fez o colega sorrir.
Una-se a nós, me disse, se juramos trabalhar por um Brasil melhor, pela
Democracia e pelo Estado Democrático de Direito quando nos formamos, temos que
lutar pelos nossos direitos pois somos vítimas da reserva de mercado que a OAB
impõe com este exame ilegal, imoral...
Assim, eu me filiei ao MNBD. Aceitei que, assim como fui um lutador para não
parar no primário, fazer o ginasial com sacrifício, terminar o colegial brigando
contra meu sono de trabalhador e terminar a faculdade esgotado, eu teria sim
capacidade de lutar mais um pouco pelo meu Direito. O fruto almejado estava no
último galho da arvore e eu teria de subir mais para pagá-lo, mas eu tinha os
instrumentos para chegar lá.
Entrei em uma luta dura, com muito chão para ser percorrido, mas sou um novo
homem. Hoje sei que não sou incompetente, não sou ignorante jurídico, que minha
faculdade não era “de esquina” como a OAB fala na imprensa. Hoje eu sei que a
OAB faz reserva de mercado, a custa da vida de milhões como eu, que conseguiram
terminar a Faculdade em um País em que isto é para uma minoria e que somos
ilegalmente impedidos de trabalhar. Hoje sei que a OAB através de seus líderes
criminosamente mata a vida, os sonhos e as metas de milhões de bacharéis em
Direito e que o meu passado é igual ao da maioria deles. Hoje eu sei que terei
de lutar se quiser ser um profissional de fato, pois já sou de direito. Hoje eu
sei que terei de buscar nos tribunais, nos parlamentos, nas ruas, meu Direito
negado.
Mas eu vou à luta, pois sou um bacharel em Direito, advogado por qualificação e
lutador por tradição. Eu vou à luta junto com meus colegas, pois a união nos
dará forças para defender o Brasil, a Constituição, a Democracia e
principalmente, o direito de milhões de colegas que ainda não tiveram a
oportunidade de saber que este exame é inconstitucional, formal e
materialmente, que já está revogado, que suas faculdades são normais, que sua
formação foi de boa qualidade e que não são nem incompetentes e nem ignorantes
jurídicos e que não devem ir para os divãs e sim para os parlamentos
municipais, estaduais e federais pressionar seus representantes a mudar a
legislação de forma nacional e aos tribunais em busca de Justiça. Mostrar que
temos o Direito e que lutaremos até a extinção desta anomalia que sobrevive
neste País ainda longe de ser verdadeiramente Democrata.
Em breve serei um advogado. Estarei a disposição das camadas mais pobres que
hoje passam ao largo dos escritórios por falta de ter dinheiro para pagar
honorários cobrados até pelo “bom dia” da secretária. Em breve, advogados serão
profissionais acessíveis a todos, todos poderão lutar por seus direitos de
consumidor, de trabalhador e de cidadão sem preocupação com os honorários a
pagar. Em breve, serei mais um trabalhador brasileiro, sem status, sem grandes
patrimônios, mas com condições de por o pão na mesa e manter minha família com
o meu trabalho. Em breve, este País vai mudar, os tribunais receberão lides
mais simples, mas que são importantes na vida de cada cidadão que quer ver seu
Direito assegurado. Em breve, um batalhão de novos profissionais vai iniciar
sua luta em prol da Democracia, do respeito à Constituição e ao Estado
Democrático de Direito, pois trarão em sua bagagem de vida, a lembrança de
terem sido vítimas de um sistema criminoso e isto os impulsionará a defender
outros desvalidos...
A narrativa em forma de crônica acima não é o retrato da minha vida e sim, a
soma das minhas vivências com relatos de colegas dos mais diversos pontos do
Brasil nestes meus mais de 2 anos de luta contra este exame ilegal, imoral e
hipócrita da OAB. Relatos ainda mais pungentes, mais sofridos e que retratam a
realidade de milhões de bacharéis impedidos de trabalhar, formados por
universidades boas para formarem jornalistas, engenheiros, administradores,
médicos, mas não bacharéis em Direito segundo a OAB. Pessoas como nós, que
perdem emprego, família e a própria alma por se sentirem incompetentes e
acreditarem – assim como seus familiares e amigos – no discurso mentiroso que a
OAB vem impingindo há anos na mídia a custa de seu lobby econômico, político e
estrutural.
Isto vai mudar. Esta mudando. Hoje já há colegas com OAB para assinar ações, já
há políticos – senadores, deputados federais e estaduais, vereadores – apoiando
nossa luta, já estamos organizados no Brasil e cada Estado organiza o MNBD nas
cidades. A Mídia está abrindo aos poucos suas portas. O MNBD – Movimento
Nacional de Bacharéis em Direito irá crescer a cada dia e ganhar forças,
primeiro para acabar com este exame ilegal e depois para colocar no cenário
nacional jovens calejados pela luta por seu Direito e que estarão prontos para
defender o Estado Democrático neste Pais.