Oportunidade para
autodidatas
Francisco César Pinheiro Rodrigues
03.01.2008
Uma sugestão aos legisladores mais
inovadores — e corajosos...
Conversando com algumas pessoas,
preponderantemente jovens de limitados recursos financeiros, culturalmente
ambiciosas — refiro-me à cultura transmitida por livros, revistas
especializadas e internet — é fácil constatar a frustração pela impossibilidade
— estritamente burocrática — de, após dedicado estudo por conta própria, não
poderem comparecer a uma banca examinadora de uma Faculdade, que nunca
freqüentou, pagar as taxas necessárias e comprovar — sem sombra de dúvida,
suborno ou “pistolão” —, que é detentora de todos os conhecimentos necessários
ao exercício de uma profissão, ou pelo menos ter o direito de usar um
determinado título.
Impedidas, por motivos financeiros, ou
outros, de freqüentar uma Faculdade durante quatro, cinco ou seis anos, tais
pessoas se perguntam, entre revoltadas e desanimadas, por que não podem provar
seus conhecimentos frente a uma severa comissão de examinadores, selecionados
pelo poder público. Se comprovado o conhecimento receberiam um diploma com o
mesmo valor daquele concedido aos alunos, mais bafejados pela sorte financeira
quando do nascimento e que puderam freqüentar uma Faculdade, pública ou
particular. Elas se perguntam se a assimilação do conhecimento depende
inexoravelmente do contato dos fundilhos da calça com uma carteira de sala de
aulas.
História, Sociologia, Economia, Filosofia,
Literatura, Matemática, Direito, Relações Internacionais, Psicologia, Línguas e
inúmeros outros ramos do conhecimento dispensam a utilização de instrumentos
mecânicos e laboratórios que poderiam justificar a exigência de freqüentar uma
universidade. Mesmo as escolas que exigem contato direto, físico, com o objeto
de estudo, como a Medicina, a Química, a Física, a Engenharia, etc., têm,
suponho, uma grande preponderância de horas empregadas em ouvir dissertações de
professores, algo que pode ser substituído pela leitura de livros, apostilas ou
— se assim preferir o interessado —, por exposições orais gravadas em
videocassetes, CDs e DVDs. Nos casos em que não basta o conhecimento teórico,
absorvido em textos, o candidato já aprovado na teoria poderia freqüentar,
durante alguns meses — algo bem mais factível —, as aulas estritamente
práticas. Com esse complemento de “prática” — também sujeito a um posterior
exame específico para aprovação — não haveria como negar, honestamente, que o
candidato estaria em igualdade de conhecimentos com aquele que freqüentou de um
curso superior por vários anos.
Alguém poderia argumentar que se o
ambicioso cultural, de poucas posses, está realmente interessado em uma
formação superior pode perfeitamente prestar vestibular em universidade
pública, que dispensa o pagamento de mensalidades. A falta de recursos
pecuniários não seria, portanto, obstáculo para a formação superior.
Ocorre que muitos jovens — e também os
“maduros” e “velhotes” —, precisam trabalhar. Contribuem, ou arcam sozinhos,
com o ônus de sustentar eles mesmo e/ou parentes, cônjuges ou companheiras. Não
podem se dar ao luxo de passar as manhãs, ou noites, ou o dia inteiro,
freqüentando escolas. Longos cursos noturnos, para quem trabalha o dia todo,
exigem uma determinação e sacrifício pessoal — e da família — invulgares.
Muitos desistem pelo caminho, conseqüência não da dificuldade das matérias mas
do cansaço, do tempo excessivo perdido no trânsito, queixas da família ou,
principalmente, dificuldades financeiras, pois a maioria desses cursos são
particulares.
Pudesse o interessado — autorizado pela
legislação — estudar sozinho, segundo um ritmo próprio e escolher, juntamente
com a Faculdade, a data de seu exame, outro seria o estímulo para persistir no
estudo, como autodidata muito acima do patamar de simples “curioso”. Como
conseqüência da sistemática hoje vigorante, boa parte do talento nacional fica
desperdiçado. Não há estímulo para aprender coisas mais sérias e difíceis. O
jovem, o maduro ou mesmo idoso se perguntam: “Por que vou me aprofundar em tal
conhecimento se não tenho dinheiro, tempo ou paciência para freqüentar uma
Faculdade? Será uma perda de tempo tanta dedicação. Não posso me conceder esse
luxo. O meu saber servirá apenas como hobbby” . Houvesse a perspectiva de, pelo esforço
individual, romper a barreira que sufoca a ambição cultural meritória, muitos
encarariam a possibilidade animadora de um passo além, contando apenas com seu
próprio valor.
A presente sugestão tem especial
pertinência em um país como o Brasil, em que há incontáveis feriados e
“feriadões”, com “emendas” suprimindo o trabalho nas sextas-feiras ou nas
segundas, quando há feriado nas quintas ou terças-feiras. Isso, sem falar em
certas greves que se estendem por meses. E não nos esqueçamos dos longos
períodos de ociosidade forçada pelo desemprego, em que o ambicioso cultural —
cultural mas de senso prático — nem pode se inscrever num curso regular porque
talvez tenha que interrompê-lo em razão do surgimento de uma vaga. Há quem
fique desempregado por semestres, sem culpa própria, período em que convém não
efetuar gastos educacionais sem uma certeza de retorno. Se, em vez de o
desempregado ficar “na fossa”, como se diz, ele pudesse estudar alguma coisa
que melhor o qualificaria profissionalmente, sua depressão ficaria bem
aliviada. A ociosidade teria deixado de ser mera perda de tempo.
Quando ainda freqüentava a Faculdade de
Direito, nos anos cinqüenta, fui informado — não sei se corretamente — que na
Alemanha havia a possibilidade, aqui inexistente, do cidadão estudar sozinho
determinados assuntos e, sentindo-se seguro, pedir para ser examinado. Pagava
uma taxa e enfrentava os examinadores. Não sendo aprovado, continuava estudando
e quando se considerasse em condições inscrevia-se para novo exame, obedecido,
claro, o calendário da universidade. Não sei se a informação era correta e se
isso ocorria apenas provisoriamente, vez que a II Guerra Mundial havia
desorganizado demais os cursos superiores da Alemanha.
Não vejo porque não se permitir essa
”abertura” no Brasil. Seria a democracia cultural em toda sua plenitude. Se,
por exemplo, o entusiasta de História der, frente à banca examinadora, um
verdadeiro “show” de conhecimentos históricos, por que negar a ele o título de
historiador, com direito a lecionar e transformar seu conhecimento em
profissão? Em algumas da Faculdades
acima mencionadas pode, talvez — por imperfeito conhecimento do signatário
deste artigo — ser equivocada a presente proposta, tendo em vista a estreita
vinculação da teoria com a prática, com o manejo físico
Uma objeção — de arguto e franco professor
de Direito, já falecido — muitos anos atrás, argumentava que no Brasil as
coisas eram usualmente tão “desmoralizadas”, ou “avacalhadas” — se não me
engano foi esse o termo que usou —, que o nível do ensino — que já não era bom
—, iria decair ainda mais, se dispensada a freqüência ao curso. No Brasil,
segundo ele, tal liberalidade não daria bom resultado. “Aprovações”, ou
“diplomas” seriam vendidos como biscoitos. Acrescentava que com a freqüência
obrigatória pelo menos havia um contato pessoal entre alunos e professores,
alguma “osmose” acadêmica. Um contágio “pelo ar”, como que um vírus
cultural. “Contágio” que não existe
quando o interessado estuda sozinho. A objeção deve, hoje, ser encarada com
alguma reserva porque alguns professores dispensam os alunos mais
desinteressados e indisciplinados após assinada a lista de presença. Isso
porque tais alunos são mais úteis fora do que dentro das salas de aula. Querem
só o diploma.
Quanto à “desmoralização” desses exames,
pode-se argumentar que a legislação teria meios de neutralizar essa alegada —
será verdade? — má-fama brasileira. A lei estabeleceria que as bancas teriam,
forçosamente, que incluir entre os examinadores, uma preponderância de
professores especialmente indicados pelas melhores universidades. E teria que
ter também representantes daquela profissão relacionada com o exame de
habilitação. Somente o governo federal poderia compor as bancas examinadoras.
Não é possível que no Brasil de hoje não se
encontrem algumas centenas de pessoas — professores e profissionais —
resistentes ao suborno, ao nepotismo e ao interesse de classe para compor tais
bancas. Se alguém disser que a corrupção é inescapável, uma espécie de maldição
genética nacional — o que absolutamente não é exato — que se decrete, então, a
falência do país e sejam abolidos todos os exames, até mesmo os vestibulares e
concursos públicos de maior prestígio. A mera “osmose cultural” da convivência
universitária não se equipara ao estudo sério, motivado, do cidadão que
pretende conquistar o seu lugar ao sol, mesmo não dispondo de tempo ou recurso
para freqüentar um curso superior.
A “abertura” aqui proposta serviria também
para os casos de profissionais já bem realizados, sem problemas financeiros,
com idade algo avançada e que não se sentiriam bem em uma classe de jovens
buliçosos Seriam peixes fora d’água. Um desses “vovôs”, funcionário público
aposentado, estudante de Direito, certa vez ouviu a espirituosa mas pesada
indagação de um professor de pouca sensibilidade: “O senhor pretende advogar no
céu?”
Não se quer, aqui, desestimular o estudo
regular nas Faculdades do país. É evidente que a orientação dos mestres poupa
muita perda de tempo. O Autodidatismo tem suas limitações. Aliás, aprovada uma
lei autorizando esse “exame direto”, sem obrigatória freqüência às aulas, o
candidato poderia manter contados mensais — ou na freqüência mais pertinente —
com “orientadores”, no sentido de ler tais ou quais livros, pesquisar isso ou
aquilo, etc.
O normal e recomendável é que a vasta
maioria dos interessados em uma formação superior freqüente os cursos e se
submetam a exames periódicos, conforme prática usual. A sugestão contida neste
texto é para pessoas em condições especiais — definidas por elas mesmas,
frise-se, não pelo governo — e que prefiram o “atalho” especialmente árduo de
estudar sozinhas, algo que exige muita determinação, disciplina e bons hábitos
de leitura. Tais pessoas existem, embora em número bem restrito.
Algumas pessoas “sabem” ler, estudar;
outras, não. Construir, o governo, muitas bibliotecas públicas sem, ao mesmo
tempo, ensinar a juventude a ler melhor, é jogar parte do dinheiro fora. Pouca
adianta dar o “alimento’ sem fornecer a “dentadura” a quem dela necessita. Estatísticas provam que o Brasil, nesse item,
não se destaca. Boa parte dos alfabetizados não consegue entender, com
precisão, o que lê. Em conseqüência, escreve mal. É impossível ser bom redator
sem ser bom leitor. A “mecânica” da leitura, porém, às vezes precisa ser
adequada a cada pessoa. Daí a necessidade de o MEC se interessar pelo assunto e
estudar como solucionar o problema da deficiente assimilação dos textos
naquelas pessoas, de qualquer idade, que querem saber, pela via impressa, mas
têm alguma dificuldade para estudar.
Não se trata, propriamente, de grau de
inteligência. É mais uma questão neurológica, contornável com métodos práticos.
Está na hora de o governo pensar em instituir algo como “clínicas de leitura”,
que orientem os interessados, seja estudante ou autodidata. A Finlândia, pouco
tempo atrás, foi classificada em primeiro lugar em termos de entendimento de
textos. O Brasil estava em péssima colocação, e assim continua. Mas isso não significa
que o finlandês médio é mais inteligente que o brasileiro. Talvez as
características da língua finlandesa obriguem uma leitura mais atenta que o
português. Conheci pessoas bem inteligentes que nunca conseguiram ler um livro
até o fim. É um assunto, infelizmente, pouco pesquisado.
Finalmente, cabe tranqüilizar a valorosa —
e injustiçada — classe dos professores universitários dizendo que não precisa
se preocupar, substancialmente, com uma eventual — e altamente improvável —
adoção da abertura aqui sugerida. Isso porque as Universidades não se
esvaziariam. Somente uma reduzidíssima minoria de aspirantes à cultura teria a
tenacidade e a capacidade — melhor dizendo: “habilidade” — para, sozinhos,
extrair de sisudos livros didáticos os conhecimentos capazes de impressionar
tais bancas. Bancas de certo modo predispostas a “dar uma lição no “arrogante”
que se atreve a nos dispensar”.
Creio, porém, que se a banca se convencesse
do real valor do candidato, a prevenção se converteria imediatamente
Fica aqui a idéia. O que fazer com ela foge
da minha alçada.
O leitor, algo espantado com essa proposta
“esquisita” pode estar se perguntando?