Jornal da Bahia, 23.09.1979
Quando Winston Churchill,
ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns,
foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do
seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas.
O velho pôs a mão no ombro de Churchill e
disse, em tom paternal:
“Meu jovem, você cometeu um grande erro”.Foi muito brilhante neste seu primeiro
discurso na Casa. Isso é imperdoável!
Devia ter começado um pouco mais na sombra.Devia
ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter
conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento
assusta “.
Ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio
pôde dar ao pupilo que se iniciava numa carreira difícil.
Isso, na Inglaterra. Imaginem aqui, no Brasil.
Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa:
“Há tantos
burros mandando
em homens de
inteligência
que, às vezes,
fico pensando
que a burrice é
uma Ciência”.
A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é
medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência.
Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais
obstinados na conquista de posições.
Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos
displicentes que não revelam o apetite do poder.
Mas, é preciso considerar que esses medíocres
ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas
posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos
não conseguem passar.
Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as
panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos
lúcidos.
Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do "Elogio da
Loucura", de Erasmo de Roterdan, somos forçados
a admitir que uma pessoa precisa fingir de burra se quiser vencer na vida.
É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social.
Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas boicota,
automaticamente, a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de
convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres
se fecham como ostras, à simples aparição de um talentoso jovem que os possa
ameaçar.
Eles conhecem bem suas limitações, sabem como lhes custa
desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas...
Enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais
lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender.
É um paradoxo angustiante!
Infelizmente, temos de viver segundo essas regras absurdas que
transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.
Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues... "Finge-te
de idiota, e terás o céu e a terra".
O problema é que os inteligentes gostam de brilhar!
Que Deus os proteja, então, dos medíocres!...