OAB-SP
lança Campanha pela Ética na Política
http://www2.oabsp.org.br/asp/jornal/materias.asp?edicao=77&pagina=1840&tds=7&sub=0&sub2=0&pgNovo=67
No dia 14 de junho, a Seccional Paulista
deflagra movimento para esclarecer eleitorado sobre a campanha eleitoral, a
importância do voto e alertar sobre as artimanhas usadas para atrair os
eleitores
Washington Calegari
A política certamente é um campo fértil para os
estudiosos e observadores da ética. Talvez por ser uma área em que as
fronteiras entre o individual e o coletivo se revelam mais tênues, sob a ação
de terrenos que se invadem e conflitos que inevitavelmente irrompem. Por isso,
também, um campo minado e repleto de armadilhas.
Em ano de eleição, especialmente, as armadilhas
visam capturar o eleitor com discursos que vestem a roupa da ética, mesmo que
seus autores não incorporem as virtudes que apregoam e que dizem possuir. Daí a
premência de uma atenção redobrada ao que é dito e ao que é mostrado, embalado
numa estética de propaganda, e a comparação necessária com aquilo que de fato
acontece na gestão da coisa pública.
A importância do tema, especialmente neste ano
de pleitos municipais, motiva a Campanha contra a Corrupção e pela Ética na
Política que a OAB-SP lança no dia 14 de junho. A cerimônia de lançamento, para
a qual foram convidadas diversas entidades representativas da sociedade civil,
políticos, religiosos e várias personalidades, acontecerá
na sede da OAB-SP – Praça da Sé, 385 – a partir das 10h.
O público às avessas
A subordinação de funções públicas a interesses
pessoais é quase unanimemente apontada por consultores políticos
como característica da política brasileira. Quanto maior a confusão
entre o público e o privado, mais fértil é o terreno da corrupção. E mais o
processo decisório se submete à lógica de que os cargos políticos são posse de
seus mandatários, e não, como supõe a semântica
democrática, mecanismos de representação do coletivo nos poderes constituídos.
Sob tal perspectiva, a defesa da ética, para
que não derrape nas curvas da demagogia, precisa alimentar-se de uma relação
primordial, expressa no princípio ético aristotélico de que a política é
considerada parte do que se denomina ética, e não o contrário. A ética é, de
acordo com essa relação, um conjunto que engloba a política e um pressuposto
desta.
A prática, contudo, muitas vezes comprova que
esse princípio se converte em mera ferramenta do discurso político, mas não em
pilar das ações. Principalmente em sociedades marcadas pelo mandonismo, o
caciquismo, o patrimonialismo e demais "ismos" que, como a própria
terminação sugere, são doenças do tecido democrático.
Antes, durante, depois
Há vários fatores que causam estranheza ao
processo democrático no que se refere à ética na política, pontua Rubens
Approbato Machado, ex-presidente da OAB-SP e do Conselho Federal e membro nato
da entidade. No período eleitoral, por exemplo, a propaganda enganosa que
transmite ao eleitor uma imagem falsa do candidato,
transformado em produto pela propaganda. "Por isso é que a Ordem
tem defendido a busca de programas e debates em que o candidato se apresente
tal e qual ele é", argumenta Approbato.
Outro aspecto comprometedor é a manipulação da
máquina administrativa para a conquista de votos. Segundo Approbato, a Ordem em
conjunto com a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), tem batalhado
para permitir que, mesmo depois da eleição, o candidato que tenha praticado
infrações no período eleitoral possa ter seu diploma cassado.
Depois de eleito, o governante precisa
apresentar uma política austera, ética, comprometida com a cidadania e o Estado
Democrático de Direito: "Isso só se faz por meio de uma contínua
participação do cidadão, de denunciar, indignar-se, de modo que o Congresso
possa ouvir esse eco da cidadania e não permita que a prática de determinados
indivíduos denigra a política".
A política sem ética adota necessariamente a
máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios, ou seja, tudo pode ser
concebido e realizado para salvaguardar o Príncipe e ampliar seu poder sobre os
súditos. O diagnóstico é do deputado Michel Temer,
presidente nacional do PMDB, que acrescenta: "Na órbita desse princípio, o
que conta são os resultados. Os meios serão sempre julgados honrosos e
louvados. E mesmo que o Príncipe não tenha qualidades, é indispensável parecer
tê-las. A isso se pode chamar uma política aética e amoral".
Para Approbato, quando interesses pessoais,
familiares ou corporativos sobrepujam o coletivo, o sentido democrático do
Estado é destruído: "O exercício pleno da cidadania só é possível no
Estado plenamente ético".
Considerações filosóficas
O fundamento da ética clássica, delineado por
Aristóteles em seu Ética a Nicômaco, passa
ao largo de condutas voltadas à obtenção de vantagens individuais em nome do poder.
Ao contrário, o fundamento da ética aristotélica reside no equilíbrio entre os
interesses individuais e os coletivos, princípio esse que fundamenta o reconhecimento
dos direitos civis manifestado pela Declaração Universal dos Direitos do Homem,
de 1948.
Segundo o pensador grego, a excelência moral do
indivíduo vem do hábito de fazer o bem, que se constitui, por sua vez, na
conquista desse equilíbrio. Toda ação individual, para que seja ética, deve,
assim, levar em conta o meio coletivo em que se efetiva.
Na política do regime democrático, mais do que
em qualquer outro, essa relação se torna crucial. Tais valores não são
intrínsecos ao ditador, mas são indispensáveis ao ideário do democrata: o
coletivo outorga poderes a indivíduos a fim de que estes o representem, sem que
se valham de privilégios porventura concedidos ou
manipulados em proveito próprio.
Apesar disso, historicamente, a ética firmou-se
como ferramenta a serviço dos detentores do poder. O expoente-mor desse tipo de
manipulação é o princípio de que os fins justificam os meios, anunciado por
Maquiavel, o príncipe da ciência política.
Tal utilitarismo encontrou eco em pensadores
como Clausewitz, para quem "a guerra é mera continuação, por outros meios,
da política", e o Cardeal Mazarino, que, após suceder Richelieu no serviço
do rei Luís XIII de França, foi nomeado primeiro-ministro e preparou Luís XIV
para o trono francês. Sua experiência política orientou o livro Breviário
dos Políticos, em que aponta a simulação e a dissimulação como atitudes
indispensáveis aos governantes a fim de atingir o poder absoluto, que se ergue
como meta central de um pensamento amoral e inescrupuloso.
Efeitos na sociedade
O deputado Michel Temer, presidente nacional do
PMDB, ressalta que as conseqüências da postura aética se projetam para muito
além da saúde dos cofres públicos: "A falta de ética desconstrói as bases
de confiança social. Amplia os espaços do individualismo e do egocentrismo, e
proporciona as condições para a perpetuação das mazelas da política, entre as
quais o mandonismo, o grupismo e o familismo amoral".
Para o presidente do Tribunal Regional
Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), desembargador Álvaro Lazzarini, tais mazelas
causam grande prejuízo à auto-estima do cidadão. "O bom exemplo tem que
vir daqueles que foram eleitos para conduzir a Pátria.
Se o político não tem ética, isso não só causa descrédito na política, mas
também abala a auto-estima do eleitor", avalia.
O presidente do Tribunal de Ética da OAB-SP,
Braz Martins Neto, concorda: "A falta de ética provoca a descrença do
eleitor em relação ao seu mandatário e à própria classe política. Exemplo disso
é essa desesperança que nós vemos hoje no Brasil".
Quando a lógica da corrupção, e da conseqüente
descrença nos que dirigem os destinos do país se instaura, surge um ciclo
vicioso de perpetuação de desigualdades, observa o rabino Henry Sobel,
presidente da Congregação Israelita Paulista.
"Além de desviar recursos preciosos que
deveriam ser destinados à educação, à saúde, à reforma agrária, à previdência
social, a corrupção faz com que os cidadãos relutem em pagar seus impostos,
sabendo que sua contribuição tem enorme probabilidade de ser embolsada por algum
político ou funcionário público desonesto", declara Sobel.
Sua opinião é partilhada por Temer, segundo o
qual "a ausência de ética transforma a sociedade em grupamentos de
desiguais, um quintal rendido à ilegalidade".
Álvaro Lazzarini lembra de casos como o que
ficou conhecido como "a máfia dos anões do orçamento", em que
parlamentares cobravam propinas para assegurar a aprovação de emendas,
descoberta há 11 anos, e o da quebra de sigilo do painel do Senado Federal na
votação da cassação do ex-senador Luiz Estêvão, há três anos, como exemplos
dignos de uma política sem escrúpulos.
O desembargador diz que, em período eleitoral,
a falta de ética se manifesta nas propagandas irregulares, antecipadas, que
sujam a cidade, os monumentos e agridem o meio-ambiente: "O que pensar de
um político que adota esse tipo de postura?".
Para Braz Martins Neto, a política brasileira
está desacreditada porque os cenários pintados nas campanhas eleitorais são
diversos da realidade verificada durante o mandato.
Ele exemplifica esse descompasso com o salário
mínimo, que teve reajuste a partir de 1o de maio. "Tem gente que acha
pouco, mas eu considero R$
Diante dessa realidade, o presidente do
Tribunal de Ética da OAB-SP considera utópico o quadro em que um candidato
incorpore a postura correta de acenar apenas com promessas que ele possa
realizar, e que, uma vez eleito, se confirmem: "Na prática, não é isso o que
ocorre. Para mim, ético é aquele político que faz de suas promessas de campanha
uma luta pelo objetivo a alcançar, ao contrário daquele que as apresenta como
uma certeza de que o objetivo será alcançado", completa Braz.
A política com ética, sustenta Temer, deve
integrar "a essência do Estado Democrático: a defesa da igualdade social,
das liberdades e direitos individuais e sociais. E embora tal visão possa
parecer utópica num mundo cada vez mais contrastado pelas desigualdades, a
política com ética e dignidade deve ser o compromisso dos homens
públicos".
Cidadão fiscalizador
Um episódio ocorrido há três anos na cidade de
Ribeirão Bonito, interior paulista, converteu-se num exemplo de fiscalização do
poder público pelos próprios cidadãos. Tudo começou quando cinco ex-moradores
da cidade, que hoje tem 11 mil habitantes, diante de indícios de improbidade
administrativa do prefeito local, organizaram-se e resolveram tirar a limpo
suas suspeitas.
Criaram a organização não-governamental (ONG)
Amigos Associados de Ribeirão Bonito (Amarribo), que tem entre seus fundadores
o empresário Antoninho Marmo Trevisan.
O trabalho da ONG envolveu toda a cidade e
também o Ministério Público. Todos juntos começaram a investigar. Visitaram as
escolas municipais e constataram que a qualidade das refeições servidas às
crianças estava muito aquém do esperado, tendo em vista a verba destinada à
compra da merenda escolar, o que sugeria desvio de recursos. Passaram a
analisar praticamente todos os contratos firmados pelo prefeito. As suspeitas
confirmaram-se, e a iniciativa da Amarribo culminou com a cassação do prefeito
e de um vereador.
A experiência de Ribeirão Bonito rendeu também
uma cartilha, já distribuída em 4.600 cidades brasileiras, para orientar os
cidadãos na fiscalização dos poderes locais e na luta para debelar a corrupção.
A cartilha já produziu resultados. Em Juazeiro
do Norte, no Ceará, um grupo de estudantes e líderes da comunidade conseguiu
provar o desvio de recursos pelo presidente da Câmara de Vereadores, José João
Alves de Almeida, que hoje, além de responder a processo por improbidade
administrativa, também é alvo de um inquérito da Polícia Federal. Além de
desviar recursos, o vereador costumava ‘emprestar’ dinheiro público – devolvia
ao erário municipal o valor ‘emprestado’, mas embolsava o relativo aos juros,
segundo noticiou a revista Veja.
A cartilha da Amarribo informa, entre outras
coisas, que a aprovação de amigos e parentes em concursos públicos e a
ostentação de riqueza por autoridades municipais podem ser sinais de que algo
anda errado na administração da prefeitura. Buscar provas confiáveis, como
notas fiscais que atestem possível desvio de verbas,
recorrer ao Ministério Público, procurar a imprensa quando da comprovação de um
indício de corrupção e até mesmo requerer a abertura de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito são passos importantes para o sucesso da empreitada.
A Amarribo diversificou sua atuação com outras
ações importantes para a cidade, como a criação de uma rádio comunitária e a
luta pela criação de um centro cultural. Calcula-se que, inspiradas nessa
associação, outras 30 organizações semelhantes surgiram no país.