OABFOBIA

Cícero Tavares de Melo(cicerotavaresdemelo@hotmail.com)

 

Uma amiga de uma amiga que terminou o Curso de Direito há dois anos está prestes a ser internada no hospital psiquiátrico Ulysses Pernambucano. E ela mesma está convencida disso.

 

É que, depois de mais de sete tentativas infrutíferas de passar no Exame da Ordem, ela chegou à conclusão de não passar por ser hipossuficiente mental, não tendo capacidade proficiente de exercer a profissão de advocacia, apesar de ser bem educada, tratar com humanidade as pessoas e ter o dom professoral do convencimento democrático. Ser responsável em todos os seus atos e não ter preconceitos algum de raça, cor, sexo, religião, ideologia.

 

Para ela, a liberdade consiste na liberdade de ver o outro ser feliz independentemente de como seja feliz e de que maneira é feliz.

 

No período em que cursava o curso de direito era aluna exemplar, nunca perdendo uma única aula, por mais que a considerasse chata. Suas notas máximas são a prova cabal de sua capacidade intelectual e jurisdicional antes da conclusão do curso e de enfrentar o exame da ordem pela vez primeira.

 

Durante o período do curso chegou a participar de dois concursos para estagiários do órgão responsável pela representação judicial do Estado de Pernambuco e de suas autarquias, obtendo êxitos em ambos. Fazendo um estágio probante, capaz, e lhe dando todas as possibilidades de já ser apta a advogar. Era elogiada por todos os professores que lhe ensinassem, pela dedicação aos trabalhos, às provas e às peças processuais tecnicamente bem elaboradas.

 

Por alguma razão que a própria razão desconhece, quando ela chegou ao décimo período, ouviu falar que o Exame da OAB iria ser unificado, o que se levava a crer que as provas se tornariam mais difíceis, mais perversas, mais elitistas e mais mercantilistas.

 

A partir dessa constatação a jovem, linda e guerreira, batalhadora e lutadora, passou a ter um surto de OABFOBIA, uma nova doença desconhecida da Ciência Moderna, que começa a atacar os milhares de bacharéis em direito de todo o Brasil que se formam, se veem com o Diploma de Conclusão do Curso nas mãos, mas chegam a conclusão de que aquele papel timbrado com o logotipo do Ministério da Educação e Cultura e da Instituição de Ensino onde se formou não serve para nada, não passa de tão somente um pedaço de papel pendurado no sonho de um desejo que se fez ilusão e pesadelo, sem a autorização da carteira da Ordem para advogar.

 

A quem atribuir a culpa?

 

Assim como todos de sua turma, essa bacharela em direito, antes de concluir o curso, fez planos de carreira, traçou uma curva retilínea de sucesso. Juntou-se a três amigos de boas relações interclasse e começaram a delinear planos para montar um escritório de advocacia, onde o objetivo fundamental não fosse só a advocacia, mas sim tudo que se relacionasse ao bem-estar do ser-cliente, a razão de ser de qualquer escritório.

 

Para isso, começaram a assistir a filmes que lhes norteassem e capacitassem a ser gestores, profissionais esperançosos, carismáticos e inspiradores, onde as situações inusitadas para a flexibilização, superação e resiliência fossem uma das estratégias da área de recursos humanos, treinamento e consciência individual.

 

Filmes feito “A ponte do Rio Kwai”, “Em boa companhia”, “Patch Adams, o amor é contagioso”, “A procura da felicidade”, “De porta em porta”, “A negociação”, “Erin brockovich, uma mulher de talento”, “Ao mestre com carinho”, “A corrente do bem”, dentre outros que lhes demonstrassem que, mesmo diante de ambientes hostis, desfavoráveis, desconexos e incontroversos, a melhor solução para encará-los, tentar vencê-los e mudar-lhes os rumos para melhor, era fazer o melhor trabalho de equipe possível.

 

Mas tudo isso está se desmoronando, feito os andares das colunas suntuosas do World Trade Center, com todos os sonhos despedaçando e sendo jogados na tumba do velho sábio faraó, depois de mais de sete tentativas da jovem de passar no Exame da Ordem, e não conseguir o intento. Para a jovem bacharela, o Exame da Ordem tornou-se um sonho penoso com sensação de opressão, irradiação perturbadora, um verdadeiro poltergeist.

 

É justo que o Exame da Ordem continue existindo nesse mesmo formato, com essas provas perversas e desumanas, eliminando a cada certame mais de 90% dos candidatos que desejam apenas ser advogados, trabalharem honestamente, ascenderem na vida profissional e terem um meio legítimo de trabalhar para sustentar a si e aos seus familiares?

 

É justo que o Exame da Ordem continue a frustrar milhares de bacharéis com capacidades técnicas excepcionais, argumentos hermenêuticos convincentes e aptos a exercerem a profissão de Advogados, mas que são impedidos porque depois de formados têm de enfrentar um monstro impiedoso e sem coração?

 

Que a OAB repense mais seu exame, tenha consciência de que existem centenas de bacharéis capacitados a serem advogados, mas que na hora do exame se veem impedidos por uma doença que foge ao seu controle emocional: O FATOR PSICOLÓGICO.

 

Por que não repensar um exame mais justo, levando em consideração todo um histórico de proficiência do candidato?

 

Enquanto uma decisão sensata não vem, a jovem bacharela resolveu tomar uma atitude radical: vai se internar no Hospital Psiquiátrico da Tamarineira, juntar-se a um grupo da nação eleita de Deus e participar das sessões espirituais do descarrego, porque chegou à triste conclusão de que o que lhe está acontecendo e a todos os seus colegas do Brasil não é uma maldição da OAB e sim do Inimigo que tentou seduzir Jesus Cristo no Deserto. Aleluia!