Mariz diz que
advogados estão desrespeitados
http://www.conjur.com.br/2010-mar-12/antonio-mariz-dirigentes-oab-manifestam-estadistas
"A
advocacia está desvalorizada e desrespeitada."
A afirmação é de Antonio
Claudio Mariz de Oliveira, criminalista,
advogado há 40 anos, ex-secretário de Justiça e da Segurança
Pública. Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo,
ele diz estar
desencantado com os rumos da categoria.
O advogado
critica a proliferação das faculdades de Direito e lamenta o uso
da OAB por advogados como trampolim para a carreira e não como meio de “empunhar
bandeiras” em prol da valorização
da profissão. "Você ouve presidentes
e ex-presidentes falando sobre a conjuntura mundial, sobre o Haiti, sobre a Venezuela, sobre o Rio
São Francisco, sobre o MST e o FMI", disse. E acrescentou:
"Se manifestam como se
fossem estadistas”.
Leia a entrevista publicada
no Estadão:
Qual a causa da crise?
Desde a década de 70 houve
proliferação indiscriminada
de faculdades de Direito. As escolas se transformaram em instrumento do lucro fácil através
da banalização do ensino que se tornou
um mal, um fator decisivo
de descrença, desvalorização,
desrespeito da advocacia. O bacharel em direito passou
a ser substituído pelo tecnocrata. Entramos na era do ter
substituindo o ser. Não se valoriza mais o ser alguém, o ser culto, o ser honrado, o ser solidário. O advogado criminal é confundido
com seu cliente. Então, seu papel é de duvidosa legitimidade.
O que
mudou?
A advocacia está
vivendo da glória e dos advogados do passado, embora tenhamos excelentes profissionais em atividade. Há hoje uma busca por causas
que rendam facilmente ou rapidamente.
Advogados, preocupados com
o seu êxito pessoal, estão descurando um pouco do coletivo.
Como avalia o trabalho da OAB?
Há uma dificuldade
enorme em assumir papel de porta-voz dos interesses da advocacia. Parece que os
dirigentes da Ordem, de um modo geral, se sentem meio que mandatários
da Nação e passam até a discutir,
a opinar a respeito de assuntos os mais
variados, deixando de lado as questões mais singelas que
para nós têm importância fundamental. Você ouve presidentes
e ex-presidentes falando sobre a conjuntura mundial, sobre o Haiti, a
Venezuela, o Rio São Francisco, o MST e o FMI. Todos
se manifestam como
se fossem estadistas. Mas eles
não são estadistas,
eles são presidentes da Ordem. Quero que se preocupem
com a revalorização da advocacia.
Qual a solução?
Defendo uma cadeira de ética e prerrogativas nas faculdades. A indefinição e o desrespeito que marcam a composição das listas do quinto constitucional reservado à advocacia nos tribunais
é um indicador dessa desmoralização. As listas
são elaboradas por critérios exclusivamente
políticos, deixando de lado as qualidades pessoais. O amigo do rei tem uma tendência
maior a ser aquinhoado com seu nome na
lista. Há uma gama
enorme de estudantes e recém-formados que não têm ideia
do nosso papel. Não sabem o que é exercer
a missão sagrada de
defender alguém, de carregar
nos ombros a responsabilidade pelo patrimônio que é a liberdade.
A OAB virou um instrumento político?
Não vejo mais a Ordem empunhando
bandeiras. Eu não vejo reação, isso me angustia. Não quero culpar A
ou B, o recado não é dirigido a ninguém. Mas eu
acho, e isso eu não perdoo,
que aqueles que pretendem, e não são poucos,
ingressar nos órgãos de classe para dar vazão
a interesses e desejos outros, diversos daqueles ligados à advocacia, acho que esses devem
receber o nosso repúdio. A OAB não
é trampolim, instrumento de
promoção pessoal. Ela precisa ser vista e tida como
instrumento em prol da advocacia,
da cidadania e da sociedade. Não para proveitos próprios.