Limitar
acesso à profissão de advogado
JOSÉ MIGUEL JÚDICE
DIÁRIO DE NOTÍCIAS
10.12.2007
O Dr. Marinho e Pinto ganhou
a eleição para Bastonário sobretudo por ter anunciado
que iria limitar o acesso à Profissão com base em outro critério que não a adequada
formação universitária, a comprovada competência tecnicoprofissional
e a imersão nos critérios deontológicos da profissão.
Conseguiu com isso reunir os descontentes e os que não vêm horizontes
profissionais para a profissão que escolheram. Muitos dos seus votantes
mobilizaram-se com base num princípio egoísta: eu estou dentro e a minha
situação melhora se não entrarem mais concorrentes.
Estamos todos os advogados de acordo quanto
ao diagnóstico sobre a situação da profissão. A pedido do Bastonário Pires de Lima fiz, em 1999, um relatório
sobre "Saídas Profissionais para Juristas" que definia um conjunto de
soluções para ultrapassar ou diminuir o problema. Candidatei-me com um programa
que tinha nisso uma das prioridades e concretizámos
para isso no mandato que exerci um conjunto de reformas, muitas delas
legislativas, que deveriam ser prosseguidas no mandato seguinte.
Estas reformas iriam melhorar substancialmente a situação, é a minha opinião.
Realmente, se tivessem sido aproveitadas as potencialidades abertas pelo novo
Estatuto, pela nova Lei das Sociedades de Advogados, pela nova Lei da Protecção Jurídica; se tivesse sido desenvolvido o programa
das especialidades, se tivesse sido regulamentada a formação contínua
obrigatória, se a Ordem tivesse continuado a encarar a Declaração de Bolonha
como uma prioridade; se o Conselho Geral da Ordem tivesse alterado
tempestivamente o Estatuto e negociasse com o Governo saídas profissionais
alternativas para licenciados em Direito ao mesmo tempo que
passasse a exigir um mestrado para acesso à nossa profissão; se programas activos de apoio ao associativismo de jovens Advogados
ligado ao apoio judiciário e à defesa oficiosa tivessem sido criados, se com a
regulamentação da nova Lei dos Actos próprios e
exclusivos dos Advogados se criassem novos instrumentos de luta contra a
procuradoria ilícita, se isto tivesse sido feito, não tenho dúvidas de que as
coisas teriam melhorado muito.
O Dr. Marinho e Pinto - embora continue a dizer depois
de eleito que não sabe quantificar - acha que devem entrar na profissão apenas
os que sejam necessários e não todos os que tenham mérito. Essa é a solução que
propõe para o problema. Quer criar um numerus clausus,
ainda que prefira não usar a terminologia. Esta é uma solução ilegal, injusta,
contraproducente, perigosa e inexequível.
1. É uma
solução ilegal. O Estatuto não o permite e o regime que regula o Direito da
Concorrência não o aceita. Se fosse implementada, criaria um caos jurídico e
drenaria todos os recursos escassos da Ordem para se defender nas instâncias
nacionais e comunitárias contra acções de anulação e
contra pesadas multas determinadas pela Comissão Europeia
e pela Autoridade da Concorrência.
2. É uma
solução injusta. Não é razoável que um Cidadão habilitado para exercer a
profissão de Advogado, comparativamente mais qualificado do que muitos que já
são Advogados, que tenha vocação para a Profissão, cuja família investiu com
dificuldades na sua formação, veja impedido o seu
desejo apenas porque a Ordem vai definir para cada ano um número máximo de
lugares disponíveis.
3. É uma
solução injusta. A menos que os critérios sejam ideológicos ou que o princípio
da igualdade não seja respeitado, o "numerus clausus" vai favorecer os mais privilegiados dos
estudantes, os que frequentaram as melhores escolas e
os que podem ir obter graus ao estrangeiro o que lhes permitirá a prática da
profissão em Portugal mesmo contra a vontade do Dr. Marinho e Pinto.
4. É uma
solução injusta. Vai destruir aquilo que com toda a razão o Dr. Marinho
defende: a advocacia não precisa só de alunos excelentes, de advogados muito
brilhantes e supostamente de elite. A selecção dos
escassos lugares disponíveis, que só pode ser legalmente feita pelo mérito, irá
ser muito mais classista do que alguma vez foi em Portugal o acesso à
profissão.
5. É uma
solução contraproducente. O excesso de Advogados em Portugal para as
necessidades - tal como as coisas estão - é tão elevado que duraria
décadas a atingir o ponto de equilíbrio, mesmo que durante muitos anos não
fosse autorizada a entrada de nenhum candidato à advocacia. O desgaste que esta
medida trará, a hostilidade contra ela das famílias, dos estudantes e das
universidades, a perda de goodwill que acarreta, irá inviabilizar
os esforços que se fizessem noutras formas de atacar o problema.
6. É uma
solução perigosa. A afirmação da vontade de criação de numerus clausus
irá provocar com toda a probabilidade três efeitos que são altamente nefastos
para a profissão e sobretudo para os mais desfavorecidos dos Advogados, que o
Dr. Marinho pretende proteger: o Estado com isso sentir-se-á naturalmente
autorizado a criar para o sistema de protecção
jurídica um corpo de Defensores Públicos (que sem a reforma do sistema do apoio
judiciário, que foi bloqueada neste mandato, prestarão aliás melhor serviço aos
Cidadãos), liberalizará para não advogados a prática de actos
hoje exclusivos de Advogados e poderá pensar em tornar não obrigatória a
inscrição na Ordem dos Advogados para o exercício da profissão, a qual passaria
a ser regulada (como em muitos países) por entidades a ela estranhas.
7. É uma
solução inexequível. O Dr. Marinho e Pinto ainda não tomou posse e já hostilizou o Governo, a Assembleia
da República (e nelas cerca de 20% dos seus membros que são Advogados), parte
significativa da profissão (as sociedade de advogados que acusou
indiscriminadamente de corrupção entre outros mimos) e as Magistraturas. Não é
assim que conseguirá os apoios sem os quais as suas reformas
"revolucionárias" nunca passarão.
Mas é claro que, apesar do que disse atrás, pode conseguir levar a água ao seu
moinho. E foi por isso que afirmei, e repito, que se o deixarem dará cabo da
profissão. Não estou zangado com a Ordem, como levianamente afirmou o Bastonário cessante. Fui ofendido pela Ordem através dos
seus legítimos dirigentes nacionais, mas isso é irrelevante para aqui. Amo a
minha profissão e os cidadãos que representamos, a quem dediquei toda a minha
vida e o melhor de que fui sendo capaz.
Por isso não me calo e continuarei a lutar com todos os meios ao meu dispor
para que o Bastonário eleito não consiga concretizar
aquilo que 38% dos advogados portugueses que votaram nas eleições lhe disseram
para fazer. Nisso ele não pode ter nem sequer o benefício da dúvida.