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m d i s c u s s ã o
Publicado no Diário Económico
(PORTUGAL) a 20 de Setembro de 2007, por Mário Baptista
Exames
de admissão às profissões podem retirar poder às Ordens
Queremos
ordem nas Ordens?
http://www.oa.pt/Conteudos/Artigos/detalhe_artigo.aspx?idc=31623&idsc=31624&ida=59224
A actividade legislativa por impulso do Governo tem apanhado o país de
perna cruzada em várias ocasiões. O Código de Processo Penal é o caso mais
recente, mas há outros. Por exemplo, o novo projecto-lei que a Assembleia da
República vai discutir sobre as Ordens profissionais. Diz o projecto – já
aprovado por unanimidade – que estas organizações devem perder a prerrogativa
de realizar exames de acesso às respectivas profissões. Isso mesmo: o fim do
exame à Ordem dos Advogados ou à Ordem dos Engenheiros, só para citar duas
entre as mais relevantes. Faz sentido? Depois do choque inicial – quebrar uma
tradição provoca sempre uma descarga de adrenalina –, é possível vislumbrar
alguns benefícios. Com o fim dos exames de acesso há, por um lado, uma maior
responsabilização das universidades (têm de formar profissionais mais
completos) e, por outro, levantam-se barreiras que hoje dificultam o acesso ao
mercado de trabalho. Resumindo: a medida favorece a concorrência. Os riscos, no
entanto, são evidentes: perante a fraca qualidade do ensino universitário,
deixa de haver um filtro que assegura alguma qualidade.
PS e PSD acabam com
exames de acesso às Ordens
O projecto-lei permite
ao Governo impugnar as normas e os regulamentos de funcionamento das Ordens
profissionais.
As ordens profissionais vão deixar de
poder realizar exames de acesso à profissão, tendo de aceitar como inscritos
todos os licenciados. A medida consta do projecto do PS que já foi aprovado no
plenário da Assembleia da República, e que vai ser agora analisado em detalhe
na comissão parlamentar do Trabalho.
O documento, assinado pelo líder
parlamentar do PS, Alberto Martins, e em que participou o constitucionalista
Vital Moreira, é muito claro: "Em caso algum haverá 'numerus clausus' no
acesso à profissão, nem exame de entrada na profissão, nem acreditação, pelas
associações profissionais, de cursos oficialmente reconhecidos".
Acaba assim, a prática de algumas ordens,
como a dos Advogados, de realizarem exames para o acesso à profissão. Qualquer
estudante que acabe um curso cuja profissão seja regulada, passa a ter acesso
directo à ordem e à profissão. A discordância com esta medida é tão forte que,
sabe o Diário Económico, o Conselho Nacional das Profissões – o organismo que
reúne mais de uma dezena de ordens – vai hoje ter uma reunião, de onde sairá um
documento que vai ser entregue aos deputados, exigindo várias alterações a esta
lei aprovada por todas as bancadas. A primeira questão que terá de ser
resolvida pelos deputados tem que ver com o universo a que se aplicarão as
novas regras: Só às futuras ordens, ou às actuais? O PSD é taxativo: "Não
faz sentido haver ordens com regras diferentes, quando o objectivo da lei é
uniformizar o funcionamento", explica ao Diário Económico o deputado Hugo
Velosa, que aproveita para garantir que esta será a primeira proposta de
alteração que o PSD vai apresentar na comissão. O PS – que inscreveu na lei que
a proposta não se aplica às actuais ordens – admite mudar de posição, mas
aguarda pelo debate para definir as alterações que fará ao diploma. O
constitucionalista Vital Moreira disse ao Diário Económico, de forma taxativa,
que a nova lei deve ser aplicada a todas as profissões.
As próprias ordens têm a mesma opinião:
"Nós queremos uma lei-quadro aplicável a todos, mas com alterações",
explicou ao Diário Económico o bastonário dos Engenheiros, que é também o
presidente da Associação das Ordens Profissionais. Outro dos aspectos que
preocupa muito as ordens é o artigo que diz que o Governo passará a ter uma
"tutela" sobre as normas de funcionamento e os regulamentos de cada
associação. "As ordens têm de defender a independência do poder
político", salienta o bastonário dos Engenheiros.
Novas Ordens
A nova lei-quadro das ordens obriga ao
fim dos exames de admissão à profissão e proíbe a existência de um limite de
entradas de jovens licenciados no mercado de trabalho.
As ordens passam a ser reguladas pelas
leis que regem os institutos públicos, em tudo o que não está previsto na lei –
quadro agora em debate.
É criado um órgão de supervisão que
exerce poderes de controlo com competências no âmbito disciplinar.
As sanções de expulsão só podem acontecer
mediante a prática de actos no exercício da profissão, e não por incumprimentos
"de natureza pecuniária".
Cria-se um provedor dos utentes com o
poder de desencadear procedimentos disciplinares.
PS admite alterar lei no debate no Parlamento
"Há interesse em uniformizar, mas
não é dramático haver regimes diferentes" para as várias ordens
profissionais, considera o porta-voz do PS, Vitalino Canas, que é também o
subscritor do projecto que foi aprovado no Parlamento, e que está agora para
discussão na comissão parlamentar do Trabalho, admite alterar a lei, mas não se
compromete com nada de específico: "O debate não chegou ainda a esse
ponto". De resto, Vitalino remete mais esclarecimentos para o trabalho que
vai ser feito em comissão, explicando que já não é o deputado responsável pelo
acompanhamento dos trabalhos nesta comissão. Mais assertivo, o deputado do PSD
que tem este dossier não tem dúvidas de que "não faz sentido haver regimes
diferentes para as Ordens profissionais. Ao Diário Económico, Hugo Velosa
explica que a aplicação das regras a todas as ordens é uma das propostas de
alteração que vai ser apresentada quando começar o debate. O diploma que está
por agendar na comissão do Trabalho promete gerar polémica, não só pelas
audições das várias ordens, mas também pelas próprias divisões dentro do PS. De
acordo com as informações recolhidas pelo Diário Económico, há deputados do PS
que consideram que o regime tem de ser aplicado a todas as ordens, e há ainda
outros que defendem que qualquer alteração nos estatutos ou regras de
funcionamento as ordens tem de "aproximar da nova lei".
As Opiniões das Ordens
sobre as alterações
"Há dúvidas sobre alguns
estabelecimentos de ensino" - Rogério Alves, bastonário dos Advogados
26 mil membros
Inscritos na Ordem pagam cerca de 37,5
euros.
"As ordens têm de regular o acesso à
profissão, até porque há dúvidas sobre a qualidade de alguns estabelecimentos
de ensino", diz o bastonário dos Advogados, que considera que "a
auto-regulação nasce do Estado, não das intenções de qualquer Governo. Rogério
Alves é o bastonário da mais antiga ordem do país.
Fundada em 1926, o Ordem dos Advogados
conta com 26 mil membros sujeitos a uma quota mensal que oscila entre os 37,50
euros e 18,75 euros (advogados com menos de três anos de profissão), mas com
custos bem maiores para a realização do exame de acesso à profissão. A ordem é
detentora de inúmeras obras pintadas por pintores de referência como José
Malhoa.