Lula, o
"venezuelano"
08.01.2008
Augusto de Franco
Analista político, e
autor, entre outras obras, de "Alfabetização Democrática". Foi membro
do comitê executivo do Conselho da Comunidade Solidária durante o governo FHC
(1995-2002).
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0801200809.htm
São
os bolsões de pobreza que garantem a eleição de populistas. Lula quer acabar
com a pobreza? Não, o que quer é mantê-la
SE NOSSO IDH fosse mais
próximo de 0,9 (em vez de 0,8), Lula jamais governaria
o Brasil. Quem garante seus votos e liderança é a pobreza. É por isso que Lula
não ganha eleição para prefeito de São Bernardo. É por isso que não ganha para
governador de São Paulo nem de qualquer Estado do Sul (talvez com exceção do
Paraná, que só é governado pelo chavista Requião por
concentrar a maior pobreza da região).
São os bolsões de pobreza que garantem a eleição de populistas. Lula quer
acabar com a pobreza? Não, o que quer é mantê-la, transformando as populações
pobres em beneficiárias passivas e permanentes dos programas assistenciais. Ele
gosta, sim, do povo, mas como massa informe de pré-cidadãos Estado-dependentes.
Façam uma análise dos
levantamentos existentes, resultantes da aplicação de vários indicadores de
desenvolvimento. A votação de Lula aumenta nos lugares em que esses indicadores
(inclusive o IDH) diminuem. Isso não pode ser por acaso, pode? Só acontece
porque Lula é um "venezuelano". Em Caracas, nosso presidente viveria
feliz como pinto no lixo.
O PIB da Venezuela vem
crescendo a taxas próximas de 10% nos últimos anos. Apesar disso, a Venezuela
tem muitos pobres. Seu IDH é 0,784 (72º lugar no ranking mundial). Com o
dinheiro do petróleo, Lula poderia fazer um super
"bolsa-esmola" para economista-áulico nenhum botar defeito.
A noção de democracia de
Lula casa perfeitamente com o regime político venezuelano. Lá, não vigora mais
essa besteira de rotatividade (ou alternância) democrática. Autorizado, como Chávez, por uma "lei habilitante" (muito melhor
do que medida provisória), Lula poderia criar, numa penada, não uma, mas meia
dúzia de TVs governamentais. Poderia tirar a Globo do ar e empastelar a revista
"Veja".
E, sobretudo, poderia
continuar no poder indefinidamente, convocando plebiscitos e referendos para
dizer que não está fazendo nada mais do que obedecer à vontade da maioria.
Lula, o
"venezuelano", acha que democracia é o regime da maioria (e não o das
múltiplas minorias). Não sou eu que estou dizendo.
No dia 20/4/2005, Lula
discursou em um congresso de trabalhadores: "É importante saber o que nós
éramos há três anos e o que nós somos agora... O que aconteceu no Brasil... o
que aconteceu no Equador, o que aconteceu na Venezuela, que foi já um pouco mais
para frente (sic), e o que pode acontecer na evolução política de outros países
do continente...".
No dia 29/9/2005, em outro
discurso, este no Palácio do Planalto, disparou: "Eu não sei se a América
Latina teve um presidente com as experiências democráticas colocadas em prática
na Venezuela. Um presidente que ganha as eleições, faz uma Constituição e
propõe um referendo para ele mesmo; faz um referendo e ganha as eleições outra
vez. Ninguém pode acusar aquele país de não ter democracia. Poder-se-ia até
dizer que tem excesso".
No dia 7/6/2007, numa
entrevista a esta Folha, na embaixada do Brasil em Berlim, Lula disse:
"O fato de ele (Chávez) não renovar a concessão
(da RCTV) é tão democrático quanto dar. Não sei por que a diferença entre dois
atos democráticos".
E no dia 14/11/2007, em
outra entrevista, no Itamaraty, ele reafirmou: "Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa. Inventem uma coisa para
criticar. Agora, por falta de democracia na Venezuela, não é".
Seria preciso dizer mais?
Muita atenção, porém: Lula é um "venezuelano" que quer, mas não pode
se comportar como Chávez. Se tentasse "chavecar" por aqui, o problema estaria resolvido.
Nossa sociedade, bem mais complexa, rejeitaria de pronto o tiranete. Lula é o Chávez possível nas condições do Brasil.
Dizendo de outro modo, o
Brasil não é uma ditadura -nem mesmo uma protoditadura
(como a Venezuela)-, mas uma democracia formal parasitada por um regime neopopulista manipulador, em que um grupo privado que
ascendeu ao poder pelo voto, com base na alta popularidade de seu líder, tenta
permanecer no poder sem violar abertamente a legalidade democrática, mas
pervertendo a política e degenerando as instituições para manipular a opinião
pública e as leis a seu favor.
Não ter entendido a natureza
desse governo e o caráter do seu líder foi a desgraça
das nossas oposições.
Até Fernando Henrique, o
mais lúcido dos oposicionistas partidários, alimentou a estranha crença de que
"o conteúdo simbólico da sua liderança (de Lula) é um patrimônio do país
que não deve ser destruído". Pois é. Não destruíram mesmo. Preservaram,
blindando Lula, infelizmente, contra a democracia.