JORNAL CORREIO DO VALE - EDIÇÃO Nº
444–DATA: 25/01/2008
COLUNA
CIDADÃ Nº 02/2008
LOURIVAL
LINO DE SOUSA
Advogado
OAB/PR
nº 8.978
Já disse neste espaço que atualmente o
Exame de Ordem para o ingresso na advocacia, longe de aferir conhecimento, está
mais para a sustentação do mercado livreiro, de cursos e cursinhos e mídias
voltadas para o candidato nos citados exames.
Vamos anotar o que a Subseção da OAB/PR
informou nesta semana:
“EXAME DE ORDEM - Primeira fase do Exame de Ordem foi realizada no
fim de semana. - Mais de 6 mil bacharéis em Direito realizaram no domingo (20)
a primeira fase do 3.° Exame de Ordem de 2007 da OAB
Paraná. Pela primeira vez, a Seccional paranaense aderiu à prova unificada
nacional, que foi aplicada simultaneamente em mais 22 estados brasileiros. No
Paraná, o exame ocorreu nas cidades de Curitiba, Cascavel, Londrina, Maringá,
Pato Branco, Ponta Grossa e Umuarama. Em todo o estado, 123 candidatos não
compareceram à prova. A segunda fase do exame – prova prático-profissional – será
realizada no dia 9 de março. A divulgação da lista de aprovados está prevista
para a próxima semana.”.
Como informado, participaram, no
Paraná, mais de 6 mil candidatos. Cada candidato deixou para os cofres da
OAB/PR o equivalente a R$ 720 mil reais, já que cada candidato desembolsou o
valor de R$ 120,00 cada um. Ainda segunda a informação, o exame foi realizado
em 22 Estados Brasileiros. Vamos considerar que, em média se inscreveram 25.000
bacharéis (São Paulo e Paraná somam mais de 23.000).
Multiplicando-se o valor de R$ 120,00,
também como média, teremos um valor de R$ 3 milhões de reais, isto em apenas um
semestre, o que provavelmente se repetirá nos próximos semestres. Quem, em sã
consciência, deixará de lado um faturamento destes? Com tal faturamento o
mercado livreiro, os cursos, cursinhos e mídias eletrônicas têm um filão
inesgotável.Assim não há interesse em se aprovar ninguém, pois seria o mesmo
que “matar a galinha de ovos de ouro”.
Ainda resta a observar que o Exame de Ordem
está unificado, e a empresa que executa as provas também deve ser a
mesma. Se for, estará estabelecido um monopólio. As
questões constantes no Exame de Ordem não tem a literalidade da Lei, e
em algumas delas não se afere conhecimento mas são verdadeiras “pegadinhas”. Some-se
a isso a quantidade de questões (100) e o número de horas para a realização do
exame (5 horas). Com tais circunstâncias, é claro que muitos
dos candidatos “joguem” com as respostas, buscando socorro na SORTE o que não
é evidentemente a razão de ser do Exame de Ordem.
Acrescente-se a tudo isso, a condição
psicológica do candidato. Ademais, antes do início da realização das questões,
os encarregados da fiscalização fazem um verdadeiro terror com os candidatos.
Proíbem que os candidatos tenham garrafas de água, não podem comer, não podem
uma série de coisas. A pressão psicológica sobe a índices inimagináveis. Não há
desejo de “boas vindas” e “bom exame”, mas um tipo de
“terrorismo” com o intuito de desestabilizar emocionalmente os candidatos.
Estes são relatos de candidatos que passaram pelo último exame de
ordem. Com o resultado desastroso, atribuem a
culpa nas Faculdades e Universidades de Direito. O problema é muito maior que
precisa ser estudado à luz da Justiça, da Economia, da Sociologia e da Psicologia,
até mesmo para se descobrir no âmago dos Exames de Ordem o que efetivamente querem
os seus executores.
Existem algumas perguntas que não são
respondidas pela OAB, por primeiro, como fazer um exame de ordem com questões
que abrangem conhecimentos que somente podem ser respondidos por alguém que já
advoga há pelo menos 5 anos? Por que realizar um exame de ordem como se
fosse um concurso para Juiz, promotor ou delegado da polícia federal? Por que
colocar nas questões situações que em verdade nenhum advogado as responderá se
não houver consulta nos alfarrábios jurídicos? Pretende a OAB garantir reserva
de mercado impedindo a inscrição de novos advogados? Qual o padrão de serviço
que garante a permanência do Advogado no mercado, senão a sua própria lei?
Certamente existem outros caminhos que não seja o da busca pela extinção
do exame de ordem para o ingresso na advocacia. Note-se que o Exame de Ordem
existe apenas para a advocacia, quanto às demais profissões exame de ordem é considerado aberração. Então é preciso humanizar o Exame
de Ordem a fim de que não passe a ser o terror para os candidatos. Também se deve voltar os olhos para O EXAME DE ORDEM PARA AS ESCOLAS
DE DIREITO, quando se fala nisso busca-se logo frases chavões como a que o
aluno deve escolher a melhor escola, ou ainda existe o argumento de que o
mercado tratará de fechar as escolas incompetentes. Já viram
alguma fechada? O Governo Federal tem a grande responsabilidade nas
questões postas. Primeiramente porque autoriza o funcionamento das escolas sem
que as mesmas apresentem as condições necessárias para tal. Depois de
autorizadas, o Ministério Público, o da Educação e outros encarregados de
fiscalizar o setor nunca mais comparecem às escolas. Neste ponto da questão, a
OAB diz que não é de sua responsabilidade fiscalizar escolas. Também é
preciso se discutir se o aluno de escola de direito tem com a instituição uma
relação de consumo ou de ensino? Se for de consumo cabe indenização por
propaganda enganosa, a escola finge que ensina e o aluno finge que aprende. Se
for uma relação de ensino, cabe indenização por dano moral contra o Estado que
permite a existência de escola sem obediência dos parâmetros legais para a sua
existência e eficácia. Enquanto isso, continuam
os Exames de Ordem, na expectativa de solucionar os problemas das escolas de
Direito e garantindo, em conseqüência, um filão de ouro para a OAB e para o
mercado livreiro, cursos, cursinhos e mídia eletrônica. E todos vivem felizes,
menos os candidatos a advogado.