Jorge Roberto Pereira
Presidente do Farol da Democracia
Representativa
LIBERTATUM
O noticiário nos traz, desde domingo, um
caso didático de golpe contra a democracia: a crise em Honduras. E, pela
quantidade de fatos exemplares, é irresistível (na verdade, é
"inevitável") analisar o caso num paralelo com o que enfrentamos no
dia-a-dia brasileiro.
O ex-presidente Manuel Zelaya,
eleito pelo Partido Liberal, foi rotulado pela mídia local e internacional como
"de direita”. Das duas, uma: ou o partido não sabe definir o que é direita
nem sabe escolher seus candidatos; ou Zelaya era,
desde o início, um traidor das idéias que pretendia derrubar assim que tivesse
a primeira chance. É no tratamento da informação pela mídia que se configura a
cumplicidade no crime.
Fazendo um paralelo com o Brasil: é triste constatar que nossos partidos
políticos perderam a percepção de seu posicionamento ideológico – e, apesar de
em sua grande maioria defenderem ideais marxistas, insistem em se autodenominar
democráticos. Alguns ainda sofrem críticas dos demais partidos e da mídia por
serem de “direita”. Seguramente, a sociedade sofre por ignorância na hora de
definir seus representantes, e a mídia amestrada é – mais uma vez – cúmplice no
processo de socialização do país por ocultação da verdade.
O caso do ex-presidente Zelaya
já prenunciava o desastre, por conta de sua virada para o chavismo.
Um democrata legítimo não se corrompe, atrelando-se à escória política do
continente. Ao fazer isso, Zelaya deixou cair a máscara e simplesmente assumiu de público suas intenções
primeiras. Tentou utilizar o instrumento mais à mão da “democracia direta”: o
plebiscito. Quis fazer, enfim, o mesmo que fazem todos os presidentes
socialistas da América Latina, Chávez à frente. O
plebiscito, no caso, não passa de uma incitação ao desrespeito às leis e ao
Congresso, na tentativa de alterar o que manda a Constituição, em troca da
adoção de alguma idéia “genial” do propositor.
Paralelo com o Brasil: é desnecessário mencionar o alinhamento e a “amizade”
que ligam o presidente brasileiro ao venezuelano, pois a cumplicidade em torno
de ideais similares já os aproximava desde os primórdios do Foro de São Paulo,
fundado pelo primeiro. Quanto ao plebiscito, volta e meia somos instados a
participar de alguma “manifestação direta da sociedade civil” – gramscismo puro – para “permitir a sociedade se manifestar
contra ou a favor de determinado assunto”, quando essa é a missão dos seus
representantes se a matéria não está prevista na Constituição. Se a sociedade
tolerar iniciativas desta natureza, pouco a pouco estará permitindo a
destruição das bases de sua liberdade e de seus valores.
(Vale lembrar que, aqui, o resultado da
votação pelo desarmamento surpreendeu as esquerdas – que estavam confiantes na
vitória certa. Na verdade, aquilo seria um primeiro teste. Aprovado, outros se
seguiriam: aborto, pedofilia, terceiro mandato e outras questões igualmente
perigosas. Hoje, com medo que venham a ser batidos por votação, estes temas têm
sido introduzidos na Constituição mediante artifícios obtidos por portas
deixadas propositalmente abertas pela Constituição de 1988.)
Voltando a Honduras, é importante ressaltar que o processo se manteve sempre no
curso legal: proposto pelo presidente, o plebiscito foi julgado ilegal pela
Promotoria Pública e pela Defensoria de Direitos Humanos. O Supremo Tribunal
Federal o julgou inconstitucional – como também o Ministério Público e o
Tribunal Superior Eleitoral. O Parlamento, por sinal, votou uma lei impedindo
sua realização. Que grande exemplo de vigilância e atitude em defesa da
democracia!
Triste comparação com o Brasil: aqui, os políticos abdicaram de suas
responsabilidades diante da sociedade e o mandato obtido nas urnas serve para
lhes conceder imunidades em processos por crimes cometidos. Antes ou depois de
serem eleitos. Ou os partidos não sabem o que significa “ser de direita” ou pretendem
não saber, pois o filo-socialismo é o que lhes garante visibilidade, boas
recompensas financeiras, abrigo e benesses do partido hegemônico. A defesa da
democracia foi, simplesmente, mandada às favas!
Mas podemos, sim, perguntar à mídia: onde
está toda a verdade? O povo brasileiro vem sendo informado de que houve um
golpe e o presidente foi cassado. Mas a ordem certa dos fatos é: o presidente
tentou um golpe, o Supremo Tribunal Federal determinou sua prisão e ele
apresentou sua renúncia ao cargo. O Parlamento nomeou o sucessor do presidente
afastado legalmente, que já convocou novas eleições para novembro deste ano.
Então... que "golpe" é este?!
O Comando das Forças Armadas, obediente à
determinação legal do STF e do Parlamento, recusou-se a impor à força a
realização do plebiscito, cujas cédulas e urnas tinham sido impressas e
enviadas por Hugo Chávez – numa inaceitável
intromissão em assuntos internos de um país independente. O próprio Zelaya, numa comitiva de táxis, foi buscar o material que
chegara da Venezuela, para distribuição. Vendo frustrado seu plano de mais uma
conquista fácil, Chávez ofende o General Romeo Vázquez, Chefe do Comando do Estado Maior hondurenho, e
coloca suas tropas de prontidão – enquanto Zelaya
procura ajuda da Polícia na intenção de causar a dissensão no país.
Mesmo assim, como é seu costume nos últimos tempos, a mídia brasileira continua
a se fazer de sonsa: anuncia um golpe de Estado e recrimina os generais,
querendo com isso mobilizar a opinião pública em nome de algo que não houve, e
– o que é pior! – justamente contra a categoria que, neste momento, representa
o exemplo de resistência ordeira e legal contra a tentativa de estupro da
democracia hondurenha. Lá, o Parlamento (diferente de tudo que podemos esperar
do Congresso brasileiro) denunciou o golpe, acusou o golpista, julgou-o culpado
no melhor interesse da sociedade hondurenha e conseguiu a lealdade dos oficiais
na defesa da nação.
Enquanto isso, a mídia vai moldando o
debate de acordo com as suas meias-verdades e mentiras. Resta saber: caso Hugo Chávez providencie a invasão de Honduras para submetê-la à
democracia do projeto latino-americano de Lula-Fidel-Chávez,
vamos ter comemorações da liberdade imposta pelo “libertador” ou lamentações
pelo “imperialismo bolivariano” implantado à força,
numa ameaça à dignidade de todos nós?