Relembre
a reportagem "O Empresário Gilmar", publicada na edição 516 de CartaCapital, de 8 de outubro de
2008:
“Quem
quiser ficar rico, não vá ser juiz”
João Batista de Arruda Sampaio,
desembargador e jurista (1902-1987)
Por Leandro Fortes. Colaboraram Filipe Coutinho e Phydia
de Athayde
Desde
que veio à tona a história do suposto grampo de uma conversa com o senador
Demóstenes Torres (DEM-GO), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar
Mendes, galvanizou os anseios de uma parte da sociedade que enxerga nos
ministros de tribunais superiores a chance de controlar o poder negado nas
urnas em eleições recentes. Como “vítima” de uma interceptação
ilegal até agora não comprovada, Mendes acabou alçado à condição de paladino do
Estado de Direito, dos valores republicanos e, por que não, da moralidade
pública.
O episódio exacerbou uma tendência crescente do STF, a de interferir além dos
limites de sua atribuição na vida dos demais poderes. Coube a Mendes chegar ao
extremo, quando chamou “às falas” o presidente da República por conta da mal-ajambrada denúncia do tal grampo. O Congresso, a
Polícia Federal, os juízes de primeira instância, o Ministério Público, ninguém
escapa da fúria fiscalizadora do magistrado que ocupa o principal cargo do
Poder Judiciário no Brasil.
Quem tem a pretensão e o pendor para “varão de Plutarco”, presume-se, segue à
risca na vida particular os padrões morais que prega aos concidadãos. Não
parece ser este o caso de Mendes. A começar pela sua participação no controle
acionário do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Há de cara um
conflito ético, ainda que as regras da magistratura não sejam claras o
suficiente sobre a permissão de juízes possuírem negócios. Criado em 1998, o
IDP organiza palestras, seminários e treinamento de pessoal, além de oferecer
cursos superiores de graduação e pós-graduação. Entre 2000 e 2008, faturou
cerca de 2,4 milhões de reais em contratos com órgãos ligados ao governo
federal, todos firmados sem licitação. No quadro de professores contratados
pelo instituto figuram ministros de Estado e dos tribunais superiores, e
advogados renomados, vários deles defendendo clientes com ações que tramitam no
STF presidido por Mendes.
A Lei Orgânica da Magistratura deixa dúvidas sobre os limites da atuação de
juízes além dos tribunais. O parágrafo 2º do artigo 36 diz ser vedado exercer
cargo de direção ou técnico de sociedade civil, caso do IDP, mas nada diz sobre
possuir ações ou cotas do empreendimento. Magistrados mais antigos sempre interpretaram
que a lei só permite ao juiz dar aulas remuneradas, nada mais. A visão tem
mudado. Estudiosos do Direito como David Teixeira de Azevedo, professor da
Universidade de São Paulo, e Dalmo Dallari, professor aposentado da USP,
afirmam que não há nada na legislação que proíba expressamente a participação
societária em empresas privadas. “É preciso ver, porém, se o juiz se valeu de
sua condição para obter qualquer tipo de benefício.”
O que
se pode dizer do IDP é que gravitam ao seu redor nomes de peso da República. O
corpo docente é formado por 87 professores, entre eles dois ministros do
governo Lula, Nelson Jobim (Defesa) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). Eventualmente dão
palestra no instituto, José Antonio Toffoli,
advogado-geral da União, e Mangabeira Unger, do
Planejamento Estratégico. Unger, por exemplo, esteve
lá na quinta-feira 2, na abertura do 11º Congresso Brasiliense de Direito
Constitucional.
Vários
dos colegas de tribunal também são docentes do instituto: Carlos Alberto Direito,
Carlos Ayres Britto, Carmem Lúcia Rocha, Eros Grau e Marco Aurélio Mello. Há
ainda diversos titulares do Superior Tribunal de Justiça.
O presidente do STF tem dois sócios na escola. Um deles é o procurador regional
da República Paulo Gustavo Gonet Branco, o outro, o
advogado Inocêncio Mártires Coelho, último procurador-geral da República da
ditadura, nomeado pelo general-presidente João Baptista Figueiredo, em junho de
1981. De acordo com a Junta Comercial do DF, cada sócio desembolsou 402 mil
reais, num total de 1,2 milhão de reais, para fundar o
IDP.
O investimento parece ter dado frutos. O IDP mantém, por exemplo, contrato com
o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualmente presidido por Carlos Ayres
Britto, que substituiu na função Marco Aurélio Mello. Já o faturamento em
contratos com a União cresceu após Mendes ter sido nomeado ministro do Supremo.
De 2003 para cá, o valor somou 1,6 milhão de reais, segundo dados disponíveis
no site Contas Abertas (www.contasabertas.com.br). O mês de setembro foi
particularmente pródigo: 350 mil reais em convênios. Todos,
repita-se, firmados sem licitação.
No Portal da Transparência da CGU, mantido pelo governo federal, há dados
interessantes sobre os contratos do instituto. Dentro das guias de pagamento do
portal, aparece um acordo com a Receita Federal até para trabalho aduaneiro. O
Ministério da Defesa – de Jobim – pagou 55 mil reais ao instituto, e a CGU, 15
mil reais.
Têm sido comuns também contratos com a Força Aérea Brasileira. Tanto interesse
da FAB nas consultorias do instituto do ministro Gilmar Mendes tem uma razão de
ser. O diretor-geral do IDP é um experiente coronel da reserva da Aeronáutica,
Luiz Fernandes de Oliveira, segundo ele mesmo, com carta-branca dos sócios para
fazer tudo, “menos fechar o IDP”. Aviador por formação, com cursos de
administração pública na Fundação Getulio Vargas e de Ciências Políticas
Militares, no Exército, o coronel Fernandes é um velho conhecido do brigadeiro Juniti Saito, com quem trabalhou
na FAB. Bem articulado, o diretor-geral fechou bons contratos para o IDP, e não
somente na Aeronáutica.
Os valores recebidos da União pelo IDP, em 2008, devem-se, sobretudo, a três
contratos firmados com o Senado Federal, o STJ e a Receita Federal. Do Senado,
o instituto do ministro Mendes recebeu 125 mil reais, para ministrar um curso
de Direito Constitucional para “consultores e demais
servidores” da Casa. No STJ, o curso é de Direito Tributário, voltado
para servidores lotados em gabinetes de ministros, ao custo de 88,2 mil reais. E,
finalmente, da Receita Federal o IDP recebeu 117,9 mil reais para também
aplicar um curso de Direito Tributário a funcionários do órgão.
Pelo Portal da Transparência é possível saber que a Procuradoria-Geral da
Fazenda Nacional contratou o IDP para gerir o programa de “Recuperação de
Créditos e Defesa da Fazenda Nacional”, por 11 mil reais. O interessante é que,
entre os professores do IDP, há três procuradores da Fazenda Nacional: Arnaldo
Sampaio de Moraes Godoy, José Levi Mello do Amaral Júnior e Rodrigo Pereira de
Mello.
Há
mais. Em
Os
cursos oferecidos pelo IDP também foram contratados pela Procuradoria-Geral do
Distrito Federal (PGDF), que pagou 690 mil reais para oferecer a 92 procuradores do DF pós-graduação em Direito Público,
entre março de 2006 e junho de 2007. Assim como nos outros contratos, a
licitação foi considerada “inexigível”.
No período em que Jobim presidiu o STF, entre 2005 e 2006, o tribunal gastou
quase 50 mil reais em cursos e eventos oferecidos pelo instituto de Mendes,
tudo sem licitação, na modalidade “inexigível”, ou seja, a partir do
pressuposto de não haver outra entidade capaz de prestar serviços semelhantes.
De fato, ao congregar quase uma centena de advogados, ministros, promotores,
juízes, auditores, procuradores e auditores no corpo docente do IDP, Gilmar
Mendes praticamente anulou a possibilidade de surgirem outras instituições
capazes de prestar os mesmos serviços em Brasília.
Em
2006, reportagem do jornal O
Globo denunciou uma das relações estranhas do IDP com o STF. Então
presidente interino do Supremo (a titular, Ellen Gracie
Northfleet, estava de licença médica), a única saída
de Mendes foi transformar em “bolsa de estudos” um empenho de 3,6 mil reais referente a um curso de mestrado em Ações
Constitucionais ministrado pelo IDP a três funcionários do Supremo. Ao se
justificar, o ministro alegou não ter havido irregularidade porque cabia aos
servidores escolher o curso e a escola onde pretendiam fazer as
especializações. Só se esqueceu de dizer que, como o IDP tem o monopólio desses
cursos em Brasília, o instituto não só foi o escolhido como, claro, caiu na
modalidade “inexigível” de licitação.
Ainda
assim, as poucas tentativas de impedir o presidente do STF de usar de
influência para conseguir contratos no governo, até hoje, foram em vão. A
primeira delas ocorreu em abril de 2002, pouco antes de ele ser nomeado ao STF,
quando o Ministério Público Federal instaurou uma ação de improbidade
administrativa justamente por Mendes ter contratado o IDP para dar cursos no
órgão do qual era o principal dirigente, a Advocacia-Geral da União. No STF,
onde o caso foi parar, a ministra Ellen Gracie
(indicada por Jobim, referendada por FHC) decidiu pelo arquivamento da ação. O
Supremo nem sequer analisou um recurso do procurador-geral da República,
Antonio Fernando de Souza, contra a decisão.
A sede do IDP é um amplo prédio de quatro andares, onde, segundo o site do
instituto, há 22 salas de aula “amplas e confortáveis”, uma biblioteca
informatizada (não é verdade), um foyer
para realização de eventos acadêmicos, um auditório com capacidade para 240
espectadores (ainda em construção) e estacionamentos interno e externo (neste
caso, trata-se das ruas ao redor da escola). Na fachada do edifício há uma
placa na qual se lê: “Empreendimento financiado com recursos do Fundo
Constitucional do Centro Oeste – FCO”. Trata-se de dinheiro gerenciado pelo
Banco do Brasil, a partir de um contrato fechado durante um churrasco na laje
do IDP, em 2006, quando o prédio ainda não estava pronto.
Antes,
um pouco de história. O IDP começou a funcionar, em 1998, na casa do ex-procurador-geral Inocêncio Coelho, no Lago Sul, uma área
de casarões em Brasília. As aulas ocorriam em uma só sala, mas, com o aumento
da procura pelos alunos, os três sócios acharam por bem procurar outro lugar.
Em 2004, encontraram um terreno de 2,5 mil metros
quadrados na Quadra 607 da avenida L2 Sul, ao preço de 2,2 milhões de reais.
Para
viabilizar a compra, o grupo recorreu, então, ao Programa de Promoção do
Desenvolvimento Econômico Integrado e Sustentável (Pró-DF II), criado pelo
ex-governador Joaquim Roriz (PMDB). O Pró-DF II tem
como objetivo gerar emprego e renda a partir de benefícios fiscais dados aos
empresários, principalmente os de pequeno porte. Para isso, o governo do Distrito
Federal diminui impostos e dá descontos de até 80% no
valor do terreno a ser utilizado pelo empresário. O subsecretário do programa, Engels Rego, não sabe explicar como o IDP foi enquadrado na
rubrica de “setor produtivo”.
De acordo com o subsecretário, pelos parâmetros atuais, definidos no governo
Arruda, o IDP não teria recebido um terreno na L2 Sul, área central do Plano
Piloto de Brasília, onde praticamente não há mais espaços disponíveis. “A
política da secretaria nessa gestão é incentivar o setor produtivo nas regiões
administrativas, para desafogar o Plano Piloto e desenvolver as outras áreas da
cidade”, afirma.
Autor
de uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin)
contra o Pró-DF II, por não concordar com a política de composição do conselho
deliberativo do programa, o presidente da Federação das Micro e Pequenas
Empresas do Distrito Federal (Fempe-DF),
Sebastião Gabriel de Oliveira, conta jamais ter visto
um micro e pequeno empresário local conseguir terreno no Plano Piloto, como o
do prédio do IDP. “As micro e pequenas empresas nunca tiveram esse privilégio,
a gente não tem cacife para isso”, garante.
Os três
sócios do IDP assinaram o contrato com o Pró-DF II em 1º de setembro de 2004,
quando Mendes já estava no STF. Os donos do instituto conseguiram enquadrar o
negócio nos parâmetros do programa do governo distrital e obtiveram, ao fim do
processo, o maior desconto possível, de 80%. Assim, o terreno, cujo preço
original era de 2,2 milhões de reais, foi financiado, em cinco anos, por 440 mil
reais – o preço de um apartamento de quatro quartos, no mesmo bairro.
A boa
estrela, digamos, do IDP não parou de brilhar por aí. Em fevereiro de 2005,
quando se iniciaram as obras no terreno da L2 Sul, o caixa do instituto,
segundo o diretor-geral Luiz Fernandes, dispunha de 3 milhões de reais. O
dinheiro, diz ele, não era suficiente para levantar o prédio totalmente, razão
pela qual Fernandes teve de correr atrás de um empréstimo, inicialmente, sem
sucesso. Quando o primeiro piso do edifício ficou pronto, organizou-se a
chamada “festa da cumeeira”, com o tal churrasco assado sobre a laje pioneira.
Um dos convidados, conta Luiz Fernandes, era um gerente do Banco do Brasil que,
entre uma picanha e outra, quis saber de Inocêncio Coelho a razão de não haver nenhuma
placa do banco na frente da obra. “Não tem placa porque não tem financiamento
algum”, disse o sócio do IDP. Foi quando o gerente os aconselhou a procurar o
Fundo Constitucional do Centro Oeste (FCO), gerido pelo Banco do Brasil e,
normalmente, destinado a projetos muito diferentes dos propostos pelo
instituto.
No primeiro balanço trimestral de 2008, o FCO liberou mais de 450 milhões de
reais. Pouco mais de 190 milhões (40%) foram destinados a
micro e pequenas empresas. As companhias de médio porte receberam 32%, ou 150
milhões de reais. A prioridade de investimento do fundo é, porém, o meio rural,
que recebeu 278 milhões de reais (60%). O setor de comércio e serviços aparece
apenas em terceiro lugar, com desembolso de 62 milhões de reais, ou 13% do fundo.
Mesmo assim, e sem se encaixar exatamente no perfil, o IDP apresentou-se como
“pequena empresa” do setor de serviços para solicitar o financiamento.
A política do FCO visa, preferencialmente, atividades comprometidas com a
utilização intensiva de matérias-primas e mão-de-obra locais, sobretudo na
produção de alimentos básicos. A análise dos pedidos de empréstimos leva em
conta a preservação do meio ambiente e busca incentivar a criação de novos
pólos de desenvolvimento capazes de reduzir as diferenças econômicas e sociais
entre as regiões.
Ainda
assim, graças ao churrasco da laje, o IDP conseguiu arrancar do fundo, com
prazo de pagamento de dez anos, um financiamento de 3 milhões de reais, com
base na rubrica “instalação, ampliação e modernização de estabelecimentos de
ensino e de prática de esportes”. Como garantia para o empréstimo, diz
Fernandes, os sócios ofereceram patrimônios pessoais. Mendes colocou à
disposição do Banco do Brasil uma fazenda em Mato Grosso. Inocêncio Flores e
Paulo Gonet, as casas onde moram, no Lago Sul de
Brasília. Nenhum dos três atendeu aos pedidos de entrevista de CartaCapital. A assessoria de
imprensa do presidente do STF deu, em particular, uma desculpa que até agora
causa perplexidade. Segundo a assessoria, Mendes não costuma conceder
entrevistas.
A
escola tem 22 funcionários, segundo informação do diretor-geral. Os 87
professores anunciados no site não são contratados formalmente, mas
profissionais requisitados para cursos específicos, pagos pelo sistema de
Recebimento de Pagamento Autônomo (RPA). O corpo docente recebe, em média, 6
mil reais por mês, a depender do status acadêmico ou de poder de cada um.
Antes de ser inaugurado, em setembro de 2007, o prédio do IDP sofreu um embargo
de seis meses da Secretaria de Desenvolvimento e Turismo (SDET) do Distrito
Federal, comandada pelo maior empreiteiro da cidade, o vice-governador Paulo
Octávio.
Os fiscais da secretaria descobriram que a obra tinha avançado três metros além
da altura máxima permitida pelo gabarito de ocupação da capital. Fernandes
garante ter resolvido o assunto burocraticamente, sem interferência política.
Mendes, pelas limitações da Lei Orgânica da Magistratura, não ocupa cargo
executivo no IDP, mas costuma fazer retiradas em
dinheiro. Na última, pegou 20 mil reais. No STF, seu salário é de 24,5 mil
reais por mês. Além disso, de acordo com Fernandes, o IDP tem restituído aos
sócios, em parcelas mensais, 125 mil reais que cada um foi obrigado a
desembolsar, no ano passado, para completar o dinheiro da obra do prédio.
O diretor-geral admite ter suspendido as pretensões de contratos com o STF, em
2006, quando veio a público a ligação de Mendes com o
instituto. Isso não o impediu, porém, de fechar contratos com o STJ, de onde
são oriundos sete professores do IDP. Nem no Senado Federal, onde a influência
do presidente do STF ajudou a consultoria jurídica da Casa a escolher, sem
licitação, o instituto em detrimento das propostas de três universidades, entre
elas a Universidade de Brasília (UnB), onde muitos dos
magistrados contratados pelo IDP também dão aula.
Há
outros conflitos de interesses evidentes. O sistema de busca de processos no
site do STF mostra que 35 professores do IDP, entre advogados, promotores e
procuradores, têm ações em tramitação no Supremo. Ou seja, atuam como parte
interessada em processos no tribunal atualmente dirigido por seu empregador.
O nome de um dos sócios de Mendes no instituto, Inocêncio Coelho, aparece 14
vezes na consulta ao site do tribunal.