Gilmar Mendes censura programa da TV Câmara
http://www.rsurgente.net/2009/03/gilmar-mendes-censura-programa-da-tv.html
O jornalista Leandro
Fortes, da revista Carta Capital, enviou uma carta aberta aos
jornalistas brasileiros denunciando a prática de censura por parte do
presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. Segue a íntegra da
carta:
No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV
Câmara, para participar do programa intitulado Comitê de
Imprensa, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do
Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo.
O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do
fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do
delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha.
Eu, assim como Jailton, já havia participado outras
vezes do Comitê de Imprensa, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais
diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale
dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na
cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual,
inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.
Nesta carta, contudo, falo somente por mim.
Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta
liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalistas,
discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha,
à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes
Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo
o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador
Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de
contaminação da Satiagraha por conta da participação
de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo
processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista Carta
Capital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de
Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem
licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do
Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do
governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.
Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de
programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na
internet, na página eletrônica da TV Câmara.
Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço
público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia,
realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites
da blogosfera. Qual foi minha surpresa ao ser
informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março,
exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que
o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada
nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos
brasileiros.
Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do
programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos
Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo
da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O
pedido de Mendes foi prontamente atendido. Sem levar em conta o ridículo da
situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de
visto e baixado por milhares de internautas), esse
episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura
e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes.
Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e,
por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos
próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um
jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST,
Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer
esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro
Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar
sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às
liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário?
Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?
Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país,
tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem
da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato
de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave
quanto, de acesso a informação pública, por parte dos
cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os
veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a
exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável
levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da
Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada
por jornalistas.
Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar
e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político
brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.
Foram enviadas cópias desta carta para Sérgio Murillo
de Andrade, presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj); Maurício Azedo, presidente da Associação Brasileira
de Imprensa (ABI); e Romário Schettino, presidente do
Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF)