Fraude na OAB-GO
Wanessa Rodrigues e Márcio Leijoto
Revista Opinião Jurídica:
http://www.opiniaojuridica.com.br/portal/4/edicao1_opiniao_juridica.pdf
A Polícia Federal conclui nas próximas semanas
investigação sobre esquema de venda de aprovação no Exame de Ordem da seccional
de Goiás da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-GO). A informação é do
responsável pela operação, batizada de “Passando a Limpo”, o delegado Ires João
de Souza. A fraude veio à tona no dia 12 de maio deste ano, com a prisão de
dois diretores e dois funcionários da OAB-GO, além de seis pessoas acusadas de
aliciamento de candidatos. No mesmo mês, 36 advogados tiveram suspensa pela
Justiça Federal a carteira exigida pela OAB para o exercício profissional sob a
alegação de terem passado na seleção de forma irregular. Outros 300
profissionais – que fizeram o Exame nos dois últimos anos – também estão sob
suspeita. Até o presidente da OAB-GO, Miguel Cançado, foi citado nas
investigações, por supostamente ter beneficiado os bacharéis em Direito que não
conseguiram se inscrever para o exame dentro do prazo. Cançado teria pedido a
inclusão do nome deles na lista dos candidatos. “São muitos casos e precisamos
analisar um por um para que não haja erros. Isso demanda muitos exames
periciais, busca por provas, mas estamos na fase final”, comentou Ires.
A fraude colocou em xeque a credibilidade do Exame
de Ordem - instrumento visto por muitos como essencial para aferir a capacidade
de atuação dos futuros advogados. O esquema – que pode ter movimentado mais de
R$ 3 milhões - também arranhou, na época, a imagem da OAB-GO.
Quase seis meses se passaram e, por enquanto, a
“punição” veio apenas aos 700 bacharéis que tiveram de fazer novamente a
primeira fase do exame de Ordem 2007/1, cancelada à mercê do escândalo.
Há quem tenha feito a prova e passado, como o
advogado Luiz Fernando Marcondes Silva Júnior, 29. Mas a maioria não teve a
mesma sorte. Esse é o caso da bacharel Cárita Marilhants Castro, 24, que
desistiu temporariamente da advocacia para se dedicar aos estudos e ser
aprovada em algum concurso público. “Estou um pouco desiludida com a profissão.
Vou me preocupar com meu futuro agora”, comentou Cárita.
O que mudou é que a prova ficou mais difícil. A
responsabilidade pela elaboração e realização da seleção foi transferida para a
Universidade de Brasília (UnB), medida anunciada antes mesmo das prisões, mas
que seria adotada em agosto na segunda
seleção de 2007 (por ano são realizados três exames).
Com a operação da PF, houve uma antecipação. Agora
o Exame das OABs de Goiás é feito em
conjunto com o de outros Estados.
Em relação aos presos, todos foram soltos dias
depois e aguardam, em liberdade, a conclusão do inquérito. Os integrantes da
Comissão de Estágio e Exame de Ordem, Eládio Augusto Amorim Mesquita
(presidente) e Pedro Paulo Guerra de Medeiros (vice), ambos detidos na operação
policial, foram
afastados de seus cargos, assim como as
funcionárias Maria do Rosário Silva de Oliveira e Osmira Soares de Azevedo,
também suspeitas. O tesoureiro da OAB, João Bezerra Cavalcante, chegou a ser
preso e liberado, mas sua situação é mais cômoda, pois relatório do Conselho
Federal da OAB o inocentou.
Pelo menos 12 dos 36 advogados que tiveram a
carteira cassada conseguiram o documento de volta, graças a um mandado de
segurança criminal concedido pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região
(TRF-1). A Justiça considerou abusiva a atitude do juiz federal que concedeu o mandado
de apreensão dos documentos, já que não houve direito a ampla defesa e nem um
processo administrativo anterior à
cassação.
Não há dúvidas de que a fraude existiu. Tanto a PF
como a própria OAB afirmam isso. Na varredura feita em casas de acusados e
candidatos, a polícia encontrou cópias de provas que seriam aplicadas no dia
seguinte às prisões e uma lista com a relação de beneficiados. Um dos acusados
chegou a
Resultado de inquérito da PF
sai nas próximas semanas
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admitir, na época, que teria pago R$ 25 mil pelas
provas.
O problema é apontar os culpados. O delegado
responsável pelo caso diz que os laudos das perícias feitas nos documentos e
nos computadores aprendidos nas casas de candidatos e acusados em Goiânia e
Caldas Novas, em maio, estão quase conclusos e que podem dar as provas que
faltam para incriminar os acusados. Os laudos também vão apontar quais os
advogados que foram beneficiados pelo esquema.
Houve também quebra de sigilo telefônico e bancário
dos suspeitos. O delegado não adianta se alguns dos presos podem ser
inocentados, como já o fez relatório do Conselho Federal da OAB no caso de João
Bezerra. “As provas estão nos laudos.
Temos alguns indícios, mas precisamos de provas. Do
que foi dito na época das prisões, nada mudou por enquanto.”
Os bacharéis que pagaram para passar no exame podem
ser indiciados por crime de corrupção ativa. Já os funcionários da OAB e os
acusados de aliciamento de candidatos devem responder por crimes de corrupção
passiva, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, falsificação e destruição
de documento público e inserção de dados falsos em sistema de informação.]
A reportagem procurou Pedro Paulo e Eládio. Ambos
não quiseram se pronunciar. O primeiro chegou a repetir o que dissera na época
das prisões, que chegou a apresentar à Polícia Federal denúncia de suspeita de
fraudes mas que nada fora provado.
Quando o escândalo estourou, alguns dos advogados
que tiveram a carteira cassada alegaram que seus nomes foram envolvidos porque
foram procurados pelos aliciadores, mas negam que tenham aceitado participar da
fraude. O presidente da OAB-GO admitiu
Para obter de forma ilegal a carteira
de advogado, os candidatos
usaram várias formas para se
esquivar da falta de conhecimento.
O que diz a PF:
Uma das modalidades é a substituição do cartão
de respostas por um servidor que aplicava a prova.
O candidato também podia optar por responder
apenas metade da prova. O restante, no caso da
primeira fase, de múltipla escolha, seria
preenchido
por servidores da comissão de exame da OAB.
Se a fraude fosse na segunda fase, onde a prova
era discursiva, o candidato aparecia no dia
seguinte para “passar a limpo” a prova. Daí o nome
da operação.
Na última opção, o candidato poderia receber
antecipadamente a resposta das questões subjetivas.
300 candidatos podem ter passado de forma fraudulenta
no exame em duas seleções aplicadas em 2006.
Era cobrado em média R$ 10 mil por aprovação. R$ 6
mil seriam divididos entre os servidores acusados de fraude; o restante ficava
com os cabeças do grupo.
A fraude pode ter rendido mais de R$ 3 milhões. As
investigações começaram em maio de 2006, sendo que três meses depois surgiram
os primeiros indícios de participação dos servidores da OAB-GO.
Como funcionou
a fraude:
Delegado está aguardando laudos para concluir
inquérito.
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PROVA AGORA É ANTI-FRAUDE,
GARANTE OAB
A descoberta do esquema de
favorecimentos mediante propina para
passar no Exame da Ordem em Goiás fez
com que a seccional goiana da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB-GO) antecipasse
a mudança do modelo das provas e
cancelasse a primeira fase da primeira
seleção realizada neste ano. Asegunda fase
seria no dia seguinte à prisão dos suspeitos,
no dia 13 de maio. Pior para quem teve de
fazer o exame novamente. Nem todos
repetiram as boas notas, já que o novo
modelo – elaborado pelo Centro de Seleção e
Promoção de Eventos da Universidade de
Brasília (Cespe/UnB) – é considerado bem
mais difícil que o anterior.
O advogado Luiz Fernando Marcondes
Silva Júnior, era um dos 700 bacharéis que
passaram na primeira fase cancelada. Ele a
fez novamente e passou. Depois fez a prova
da segunda fase em julho e voltou a tirar uma
boa nota, ficando entre os pouco mais de
10% dos candidatos que conseguiram a
carteira de advogado. O índice está bem
abaixo do registrado nos anteriores, que
girava em torno de 30%. Na segunda seleção
realizada neste ano, cujo resultado foi
divulgado no dia 19 de outubro, o índice de
aprovação subiu para em torno de 20% (os
números finais ainda dependem do resultado
de possíveis recursos).
O advogado acredita que os únicos
prejudicados, por enquanto, foram osbacharéis que
não passaram na reaplicação da primeira fase do exame. “Tive de estudar tudo de
novo, e em menos tempo. Além disso, o conteúdo era mais puxado.” A mesma
opinião tem a bacharel em Direito Cárita Marilhants Castro. Ela e Luiz Fernando
integram um grupo de 280 bacharéis que entraram na Justiça para não fazer a
primeira prova pela segunda vez. “Menos de 10 pessoas conseguiram na Justiça o
direito de não fazer a primeira fase novamente. Todos tiveram pouco tempo para
se adaptar a um novo modelo. Sem contar que fomos jogados na vala comum dos que
pagaram para passar.”
Desiludida, Cárita diz que vai dar um tempo para o
Direito. Ela tem estudado para passar em concursos públicos que exijam nível
superior. “Não tenho pretensão de advogar. Um curso preparatório para o Exame
gira em torno de R$ 1 mil. O Exame agora ficou muito mais elaborado, mais
difícil, exige muito mais do candidato. Isso é muito bom, mas estou ainda grilada
com o que aconteceu.”
Sobre as punições, tanto Cárita como Luiz Fernando
dizem que não há como afirmar que elas ocorrerão. “Acho que no fim das contas
ninguém vai ser punido. É uma vergonha. Deveria acontecer alguma coisa, mas
ninguém até agora demonstrou intenção de responsabilizar os culpados”, disse o
advogado. “A impunidade no Brasil é muito grande. O caso já foi abafado. Ainda
existe um burburinho, mas não acredito que vá haver punição”, lamenta a
bacharel.
O atual presidente da Comissão de Estágio e Exame
da Ordem, o professor de Direto da Universidade Católica de Goiás (UCG) e
ex-secretário estadual de Segurança Pública, Jônatas Silva, disse que a
realização das duas últimas seleções – cujos resultados foram divulgados em
agosto e outubro deste ano – são uma prova de que não há margem para fraudes.
“Não houve nenhuma queixa neste sentido. Nem boatos.
Há todo um sistema de segurança desde a confecção
até a aplicação, que torna praticamente impossível furá-lo.” Jônatas esteve
reunido com diretores de 36 faculdades de Direito de Goiânia em meados de
outubro e diz que os comentários sobre o novo exame são todos positivos.
“Mandamos as provas para as faculdades analisarem e os
prova ficou muito
mais difícil, cai
A
mais doutrina e as
questões têm conteúdos
misturados. Hoje, se você
não sabe, fica difícil
responder. Antes havia
muito problema na hora de
corrigir as provas da
segunda fase (discursiva),
agora não tem mais. Acho
que depois que os exames
foram unificados, ficou
mais difícil burlar e a
carteira voltou a ter mais
credibilidade. Todo lugar
pode ter fraude, mas agora
ficou mais difícil.”
Luiz Fernando
“
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“IMAGEM DA OAB NÃO ESTÁ ARRANHADA”
O presidente da seccional de Goiás da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB-GO), Miguel Cançado, diz que após cinco meses de
deflagrada a Operação Passando a Limpo, a imagem da entidade não ficou
“arranhada”. “AOAB nunca se omitiu de nada, sempre que recebeu as denúncias as entregou
à Polícia Fedaral para que esta tomasse as providências, e atualmente o novo
exame da Ordem é muito mais seguro.” Desde 2004, teriam sido pelo menos seis
pedidos formais de investigação à Polícia Federal. Cançado acrescenta que do
caso foram tiradas lições. “Mostra que precisamos sempre aprimorar nosso
sistema de aplicação. Não podemos nos acomodar. Houve o problema e nós agimos,
o sistema foi aprimorado.”
Cançado explica que o Conselho da OAB-GO abriu
ainda em maio processos disciplinares contra o presidente da comissão, advogado
Eládio Augusto Amorim Mesquita, o vice-presidente, Pedro Paulo Guerra Medeiros,
e o tesoureiro da entidade, João Bezerra Cavalcante. Mas esses processos só
devem ser concluídos após o fim das investigações da Polícia Federal.
“Precisamos saber o resultado da operação antes de tomar alguma medida. Os
processos estão sendo conduzidos de forma administrativa”, disse. Ele enfatizou
a preocupação em ver apuradas todas as denúncias de fraude no exame. “Até agora
nada foi provado contra ninguém.”
O relatório elaborado pela comissão especial do
Conselho Federal da OAB para apurar as denúncias da PF ainda não foi analisado
pelos conselheiros da OAB-GO. O texto – que ficou pronto em julho - inocentou
um dos suspeitos presos pela polícia, mas não chegou a responsabilizar ninguém
pela fraude. Nem mesmo teria apontado suspeitas. A comissão afirmou que haveria
apenas “referências superficiais” contra o ex-tesoureiro da OAB João Bezerra
Cavalcante sem que houvesse algum indício que o colocasse como suspeito. O
grupo, coordenado pelo vice-presidente da OAB Federal, Vladimir Rossi Lourenço,
entretanto, evitou identificar
a condição dos outros envolvidos, se suspeitos ou não.