Filtro de mérito
Exame da OAB faz a seleção que escolas não fazem
por Lilian Matsuura
No debate que se travou a respeito da qualidade do
ensino do Direito no país, o presidente da Comissão de Estágio e Exame de Ordem
da OAB-SP, Braz Martins Neto, é um defensor intransigente de dois tabus:
da universidade pública e do Exame de Ordem. Para ele, a escola pública, como a
Universidade de São Paulo, é garantia de formação de bons bacharéis e o Exame
de Ordem a garantia do acesso à carreira de bons
advogados.
Formado pela Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo e aprovado na primeira tentativa no Exame
de Ordem, Braz Martins é um inimigo declarado das escolas populares de Direito,
que ele rotula como “mercantilistas”.
O responsável por avaliar a
qualidade dos futuros advogados de são Paulo entende que este tipo de escola em
escala industrial não prepara e não avalia seus alunos. Segundo o advogado,
muitas delas se preocupam muito mais em saber de onde virá a renda para pagar a
mensalidade do que se, de fato, seus alunos estão aptos a cursar uma faculdade ou se estão
aprendendo alguma coisa nas salas de aula.
Uma formação frouxa não é
compatível com uma escola superior, acredita o advogado. Por isso, quem não
teve um ensino fundamental adequado já se tornou vítima do terrível processo de
seleção natural e está impossibilitado de aceder à Universidade. As escolas
privadas que oferecem mais vagas do que conseguem preencher, em seu ponto de
vista, estão prestando um desserviço para a população. O resultado dessa
combinação não é de sucesso: de cada três bacharéis, só um consegue ser
advogado. “Esse quadro me assusta”, lamenta.
Questionado sobre a solução para
milhares de pessoas que receberam péssima educação nas escolas públicas de
ensino médio e fundamental e que pretendem estudar em
uma universidade, Braz afirma que é preciso atacar o problema na causa. “Por
que não podemos ter a qualidade da São Francisco nas escolas de educação
básica?”
O presidente da Comissão de
Estágio e Exame de Ordem se diz um apaixonado pelo que faz. “A profissão sempre
sorriu pra mim”, alegra-se. Já no segundo semestre da faculdade começou a
estagiar na construtora Camargo Corrêa. Passou também pela Listas Telefônicas
Brasileiras.
Dois anos depois de formado,
abriu o próprio escritório, onde se especializou no atendimento na área
empresarial. O escritório é familiar. Nele trabalham duas filhas, dois
sobrinhos e mais uma advogada, a única que não faz parte da família de Braz. Na
OAB-SP, antes de chegar à Comissão de Exame de Ordem, foi juiz e presidente do
Tribunal de Ética por três anos.
Os jornalistas Gabriela Invernizzi, Márcio Chaer e
Maurício Cardoso também participaram da entrevista.
Leia a entrevista
ConJur —
Para que serve o exame da Ordem?
Braz Martins — Serve para conferir a capacidade do bacharel em se
tornar profissional. É na segunda fase que podemos verificar realmente a
capacidade do candidato. São cinco questões dissertativas e uma peça. O ideal
seria se pudéssemos fazer uma terceira fase, com prova oral. Mas é impossível. Cerca
de 5 mil seriam aprovados para essa fase.
ConJur — Não
seria bom haver uma avaliação em termos morais e éticos?
Braz Martins Neto— Não buscamos isso. É diferente do concurso para juiz.
ConJur —
Essa questão sempre tem uma grande dose de subjetivismo. O exame da
magistratura reprova 98% na parte técnica e aprova 100% no aspecto vocacional.
Está longe de ser o ideal. O senhor concorda?
Braz Martins Neto — A avaliação vocacional é importante para se ter
segurança na judicatura. Se o juiz se mostrar inidôneo...
ConJur — ...
ele continua...
Braz Martins Neto — ... a lei orgânica da
magistratura não permite que continue. O Judiciário tem tirado de seus quadros
os juízes que apresentam desvios. Eu participei de duas bancas de avaliação dos
juízes. É um trabalho sério e preciso.
ConJur —
Quando nasceu o Exame de Ordem?
Braz Martins Neto — Em 1970, com uma resolução do Conselho Federal. O
Estatuto dos Advogados (Lei 8.906/94) consolidou o Exame de Ordem. Até então,
cabia ao Conselho Federal da OAB estabelecer as regras de regência da
profissão.
ConJur —
Muitos defendem a inconstitucionalidade do Exame de Ordem. Nenhuma outra
profissão no país exige uma avaliação depois da faculdade para que se possa
exercer o ofício.
Braz Martins Neto — Não é inconstitucional. O artigo 5º da Constituição
Federal, quando trata dos direitos e garantias individuais, no inciso XIII, diz que é livre o exercício de qualquer profissão,
observadas as condições de capacidade que a lei estabelece. A legislação diz
que para ser advogado é preciso ser bacharel em Direito e obter aprovação no
Exame de Ordem. A OAB não pretende dificultar o acesso à profissão. Quer
avaliar a capacidade de exercê-la e o preparo do bacharel.
ConJur — A
prova é muito difícil?
Braz Martins Neto — Não. É um Exame como sempre foi. Desde a década de
70, as melhores faculdades mantiveram os mesmo índices de aprovação. A
Universidade de São Paulo aprova de 70% a 80% de seus alunos. Três ou quatro
faculdades privadas também estão nesse nível. O problema é o mercantilismo no
ensino jurídico. Em 1970, tínhamos no máximo 30 faculdades. Hoje, temos quase
300, só
ConJur — Em
média, qual é o índice de aprovação no Exame de Ordem da OAB-SP?
Braz Martins Neto — Cerca de 80 mil bacharéis se inscrevem por ano para a
prova. Entre 12 e 13 mil são aprovados. O resultado é cruel: de cada três
bacharéis, só um consegue ser advogado.
ConJur — O
Exame de Ordem não seria uma forma enrustida de reserva de mercado.
Braz Martins Neto — Não há que se falar em reserva de mercado, porque as
boas faculdades mantêm o mesmo índice de aprovação há trinta anos. Além do que,
temos um universo de quase 270 mil advogados inscritos na OAB-SP. Cerca de 220
mil vivos e 170 mil na ativa. Esse é um dado que responde à acusação de reserva
de mercado. A oferta é muito grande. O destaque vai para os mais talentosos, vocacionados e que apresentem boa conduta. Outro dia
descobrimos um bacharel que já fez a prova 17 vezes.
ConJur —
Como é que o senhor analisa esse candidato?
Braz Martins Neto — É um obstinado. Devemos aplaudir esse tipo de
conduta. Ele está procurando mostrar para si mesmo que é capaz de ser advogado.
ConJur — Não
é o sintoma de um desvio?
Braz Martins Neto — Claro.
ConJur —
Então, as pessoas despreparadas não têm direito de cursar uma faculdade?
Braz Martins Neto — Têm. Mas é preciso mais preparo. As escolas públicas
de ensino fundamental e médio avaliam os alunos com base na freqüência. Será
que em nome do direito ao acesso a um curso superior devemos aceitar aqueles
que escrevem progressão com c cedilha, defesa com z e pacífico com dois ss? Temos escolas sem biblioteca, com corpo docente sem
mestres nem doutores. Esse quadro me assusta. Daí, a Ordem dos Advogados do
Brasil passa a ser a vilã.
ConJur — Há
um culpado por essa situação?
Braz Martins Neto — Falta atitude do governo federal no controle da
qualidade das escolas. Há ainda a ganância que move as instituições de ensino,
em que o dado mais importante da ficha cadastral do aluno é o que indica se ele
tem ou não recursos para pagar pelo curso. Temos escolas que oferecem 100 vagas
e só conseguem preenchem 70. Não há seleção. A matrícula é um ato
administrativo. Contam-se nos dedos as faculdades que, de fato, fazem uma
seleção dos candidatos. Na faculdade de Direito da USP há um excesso: 19,83
candidatos por vaga, no último vestibular. O ideal seria três ou quatro por
vaga.
ConJur —
Hoje quem mais aprova em números absolutos é justamente uma escola dessas que o
senhor classificaria como mercantilista: a Unip. Como
o senhor vê o futuro da advocacia?
Braz Martins Neto — Não cito nomes de escolas. Mas não me preocupo com os
profissionais que saíram dessas escolas e foram aprovados no Exame de Ordem.
Talento e vocação são características inerentes. As outras características
necessárias para exercer a advocacia se desenvolvem com estudo e dedicação. Não
podemos taxar o advogado pelas suas origens. Mas temos que reconhecer que a
dificuldade em exercer a profissão se concentra nos bacharéis que saíram dessas
escolas.
ConJur — O
Brasil fez uma opção pelo capitalismo, que pressupõe o funcionamento ativo do
segmento privado em todas as áreas. Hoje, o ensino público está em crise e
decadente. Enquanto isso o setor privado já responde por 75% das vagas do
ensino superior. As escolas, mercantilistas ou não, ganham dinheiro e podem
contratar os melhores professores. Inclusive aqueles que estão na escola
pública.
Braz Martins Neto — Em relação ao ensino básico e fundamental a afirmação
é correta. No ensino superior a situação é diferente. A escola de Medicina da
USP é incomparável em matéria de equipamento. Nas privadas, não há laboratórios
como aqueles. A Fundação Getúlio Vargas é uma exceção. É uma das melhores
escolas de pós-graduação, mestrado e doutorado em economia e administração. No
Direito, a primeira turma se forma no ano que vem.
ConJur — A
FGV sinaliza um novo modelo de escola de Direito?
Braz Martins — Sim. Os professores são de qualidade. A GVLaw está formando o futuro
advogado da área empresarial e do Direito Internacional. Tudo leva a crer que
está preparando um corpo de profissionais de qualidade. Não só pela forma como
as aulas são ministradas, mas também pela avaliação feita durante o curso.
ConJur — Com
período integral e cinqüenta alunos por turma é mais fácil formar bons alunos.
Será que podemos colocar todos os jovens do Brasil que querem fazer Direito em
uma escola como essa?
Braz Martins Neto — O acesso ao ensino superior e a uma profissão a todos
os cidadãos é válido. O que não podemos é escancarar e deixar que todos façam
faculdade, principalmente de Direito. Não basta inscrever-se no curso e tomar
um cafezinho ao invés de ir à aula. É preciso dedicação. Muitos chegam ao final
sem nenhuma formação jurídica. Certamente, este fenômeno está sendo produzido
nessas faculdades mercantilistas.
ConJur — O
Exame de Ordem resolve esse problema?
Braz Martins Neto — Se não tivesse a prova, todos os bacharéis teriam
muitos poderes, sem preparo para usá-los. O efeito da ação do advogado pode
gerar perda patrimonial e transtornos para o cliente. Não se trata de
sobrepujar a importância de profissões: todas têm responsabilidades e defeitos.
Mas não é uma coisa boa abrir as portas da profissão no atual contexto.
ConJur — O
mercado não é capaz de regular a lei da oferta e da procura?
Braz Martins Neto — Não. No Tribunal de Ética correm 18 mil processos
disciplinares. Um terço deve resultar em censura, suspensão ou até exclusão. Se
abrirmos as portas para todos que querem ter acesso à profissão, haveria uma
explosão de queixas. Isso não representa reserva de mercado, mas avaliação da
capacidade do profissional para atuar.
ConJur — O
senhor não vê mérito no fato dessas escolas populares darem oportunidade a quem
nunca teria, porque as escolas tradicionais são poucas e não oferecem vagas
suficientes?
Braz Martins — O demérito delas é não dar ao cidadão a oportunidade
de verificar se os estudantes estão aptos para exercer a profissão. O problema
é que não verificam se a pessoa tem condições de fazer um curso superior.
ConJur — O
vestibular só existe para selecionar porque não há vagas para todos. Não serve
para avaliar o aluno. A avaliação deveria ser feita no ensino médio, mas nossa
escola pública é muito ruim. O ideal não seria que houvesse vagas para todos,
sem precisar de vestibular?
Braz Martins Neto — Não podemos trabalhar com o efeito. Temos que
preparar melhor esse pessoal. Se a formação no ensino básico e fundamental
fosse adequada não teríamos problemas na graduação.
ConJur — No
momento, existem muitas pessoas sem formação adequada. O que se faz? Proíbe-se
que tenham acesso a um curso superior?
Braz Martins Neto — Não vejo solução social na abertura de 45, 50 mil
vagas. Sabe que a OAB-SP tem o terceiro maior colégio de advogados do mundo? Só
ficamos atrás dos Estados Unidos e da Índia. A França está empatada conosco.
Não acho que em nome da possibilidade do acesso do cidadão comum ao ensino
superior devemos abrir tantas vagas. A desigualdade deve ser combatida com
programas sociais, alimento, educação e saúde, não com mais advogados no
mercado.
ConJur — O
que faz tantas pessoas procurarem a faculdade de Direito?
Braz Martins Neto — A advocacia é vista como uma profissão bem-sucedida.
O bacharel pode se tornar policial, juiz, promotor, procurador, advogado. Na
advocacia, há centenas de profissionais bem-sucedidos. Entre os profissionais
liberais, o advogado é o que mais contribui com o Imposto de Renda.
ConJur —
Isso significa que a advocacia está ganhando bem?
Braz Martins Neto — A advocacia ganha bem, mas há desigualdades. No
interior de São Paulo, há advogados que trabalham três anos em uma causa para
receber R$ 98 de honorários. Muitos ganham R$ 600 por mês e usam a estrutura da
OAB e a sala de advogado no Fórum porque não têm condições de ter o próprio
escritório. Não ignoramos essa realidade. Para crescer na advocacia é preciso
ter três ingredientes: vocação, talento e boa conduta.
ConJur —
Entre os últimos sete ministros que chegaram ao STF, quatro vieram de escola
privada. No Superior Tribunal de Justiça e no Tribunal Superior do Trabalho
também há esse fenômeno. O atual presidente da OAB é egresso de faculdade privada.
O senhor não vê um avanço da escola privada?
Braz Martins Neto — Eu tive um estagiário que veio de uma escola sem
nenhuma expressão e hoje é um advogado de qualidade. Depende muito do esforço
pessoal. Há escolas com corpo docente bom, a maioria tem biblioteca. Inclusive,
os seus prédios refletem isso. O problema é exceder na oferta de vagas. Não
estou falando em fechar as portas para quem está mal preparado. Temos que
aparelhar o ensino básico e fundamental. Por que não podemos ter a qualidade da
São Francisco nas escolas de educação básica?
ConJur — O
senhor não acha que é melhor termos um bacharel taxista do que um taxista
analfabeto?
Braz Martins Neto — Uma coisa é você ter acesso ao ensino superior e
outra é você ter o acesso à profissão dele decorrente. Se não teve uma boa
formação de base, tem que se preparar para superar os obstáculos. Para os
bacharéis formados nas escolas mercantilistas, o Exame de Ordem é a primeira
seleção. E a grande seleção será o exercício da profissão.
ConJur —
Quatro projetos de lei tramitam na Câmara dos Deputados para acabar com o Exame
de Ordem. O que a OAB tem feito?
Braz Martins Neto — Esse é um assunto para o Conselho Federal. Na minha opinião, não é a solução para o problema. O
Congresso Nacional deveria legislar sobre a qualidade do ensino. O fim do Exame
de Ordem vai acelerar a desqualificação do ensino. Além disso, a frustração
seria muito maior do que aquela de quem enfrenta a prova e não é aprovado.
Muitos deles continuariam sem poder atuar como advogado.
ConJur —
Para avaliar a qualidade dos cursos, o Ministério da Educação cruzou os
resultados do Exame de Ordem com o do Enade (Exame
Nacional de Desempenho dos Estudantes). O senhor concorda com esse critério de
avaliação?
Braz Martins Neto — Entendo que são dois critérios distintos. O Enade não é um retrato fiel, porque não é obrigatório. A
faculdade manda os melhores alunos para fazer a prova. É uma avaliação
absolutamente equivocada.
ConJur — E
como seria uma forma boa de avaliar?
Braz Martins Neto — Teria que ter um programa de avaliação. Esse não é um
problema só da nossa profissão. O Conselho de Medicina também tem se
manifestado sobre a baixa qualidade dos cursos. Os médicos também sofrem com o
exagerado número de profissionais no mercado. A verdade é que o ensino deveria
ser tratado como um investimento do Estado e não como atividade lucrativa.
ConJur — Mas
o Estado não tem condições de pagar.
Braz Martins Neto — Investimento não quer dizer subsidiar. O Estado pode
melhorar o controle, acompanhar a qualidade do ensino no país. O problema tem
que ser tratado desde a causa, e não só nos efeitos.
ConJur —
Como é elaborada a prova do Exame de Ordem?
Braz Martins Neto — As questões são formuladas por professores que também
são advogados, vinte dias antes do Exame. Elas são revistas por mim e entregues
à Vunesp, que aplica a prova.
ConJur —
Como são escolhidos esses professores?
Braz Martins Neto — Temos um grupo de professores voluntários. Duas
equipes são responsáveis por cada Exame de Ordem. No exame prático também. A
correção da primeira fase é eletrônica e da segunda fase é por uma banca
composta de três examinadores. As provas não são identificadas e cada
examinador não conhece a nota do outro. Só na fase recursal as provas são
identificadas. E aí, três outros examinadores se reúnem para acolher ou não o
recurso. As pessoas atacam muito a qualidade das questões, mas esses são
aqueles que querem alimentar a idéia de que o Exame é desqualificado. São
acusações levianas.
ConJur —
Vinte estados já aderiram ao Exame de Ordem unificado. São Paulo não pretende
aderir?
Braz Martins Neto — Não, por conta da logística. São Paulo tem quase a
metade do volume de candidatos do país inteiro. Além do que, aplicamos o exame
em 28 locais. Há muitas diferenças de conteúdo também. Enquanto que nos estados
mais longínquos há muitas questões rurais, aqui tem mais questões empresariais.
Então, para aferir realmente a capacidade dos advogados, é preciso tratar das
matérias de Direito que são mais freqüentes. Isso não deve ser uniformizado no
Brasil inteiro.
ConJur — Por
que a OAB não divulga o resultado por escola do Exame de Ordem?
Braz Martins Neto — A missão da OAB é avaliar se o bacharel em Direito
está apto ou não para exercer a profissão, através do Exame de Ordem. Cabe ao
governo federal, através do Ministério da Educação, divulgar relatórios sobre a
qualidade do ensino. Esse não é um trabalho da OAB, mas podemos fornecer o
resultado por faculdade.
Revista Consultor Jurídico, 18 de novembro de
2007