Em nove países europeus, advogado é
dispensável
http://www.conjur.com.br/2011-jan-05/reu-nao-precisa-de-advogado-em-9-paises-europeus
A ideia
de que a Justiça só é justa se o acusado for defendido por um advogado não vale
em nove países europeus. Na Inglaterra, Áustria, Finlândia, Espanha, Suécia,
Albânia, Bulgária, Romênia e na Bósnia e Herzegovina não é obrigatório que o
réu seja representado nos tribunais por um advogado devidamente qualificado.
Nos nove países, os defensores são dispensáveis em qualquer das áreas do
Direito.
É o que
mostra um levantamento divulgado pelo Conselho da Europa sobre todos os países
europeus, exceto Alemanha e o pequeno Liechtenstein, que não conseguiram
entregar as informações ao Conselho antes do fechamento do relatório. O
diagnóstico foi feito com base em dados de 2008, mas dá um panorama geral da
advocacia nos países da Europa.
Países
que dispensam advogado em todas as áreas do Direito, inclusive criminal: Albânia,
Áustria, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Espanha, Finlândia, Inglaterra,
Romênia e Suécia
De
acordo com o estudo, esses nove países representam uma minoria no continente. A
exigência de um advogado para representar o cidadão na corte prevalece tanto em
matéria criminal como cível. Na Hungria, o defensor pode ser dispensado para
acusados de crimes menos ofensivos.
Em
matéria cível, há mais espaço para o cidadão bater nas portas do Judiciário
sozinho. É o que acontece em 28 Estados, onde o advogado pode ser dispensado.
Entre estes, há casos em que o profissional é exigido em algum momento do
trâmite do processo, como na República Tcheca, onde o advogado é necessário num
processo que chega à Suprema Corte.
O
estudo divulgado pelo Conselho da Europa procura mostrar também como é a
cobrança de honorários pelos advogados em cada país. Na maioria dos Estados
europeus, os advogados estão livres para negociar com o cliente a remuneração.
Em oito, no entanto, há limites que devem ser obedecidos. São eles: Dinamarca,
Grécia, Itália, Montenegro, San Marino, Eslovênia, Suíça e Irlanda do Norte.
Nessa parte, o diagnóstico divulgado é manco. Não especifica quais são esses
limites e como eles são fixados. Na Itália, por exemplo, o Ministério da
Justiça, a cada dois anos, fixa o mínimo e máximo que pode ser cobrado pelos
advogados.
Deslanche da advocacia
Na
Europa, em 2008, havia quase 900 mil advogados espalhados pelos países, o que
dá mais de 100 advogados para cada grupo de 100 mil cidadãos europeus. Em
média, os países europeus têm menos de 90 advogados por grupo de 100 moradores.
Na prática, a realidade de cada país é bastante diferente da do outro.
Na
Escócia, por exemplo, o número de advogados por grupo de 100 mil habitantes não
chega a seis. Isso se explica pela quantidade de defensores legais, que não têm
o título de advogado, mas são igualmente habilitados para defender o cidadão na
Justiça. Já na Grécia, há mais de 350 advogados para cada 100 mil habitantes.
|
Estado |
Advogados por 100 mil habitantes |
Advogados para cada juiz |
|
Escócia |
5,4 |
1,5 |
|
França |
75,8 |
8,3 |
|
Portugal |
260,2 |
14,5 |
|
Espanha |
266,5 |
25 |
|
Itália |
332,1 |
32,4 |
|
Grécia |
350,6 |
10,5 |
Comparativamente
ao número de juízes, os Estados europeus possuem, normalmente, algo como quatro
advogados por juiz. Nesse número, não estão incluídos os chamados
representantes legais que, fora a Escócia, têm participação tão significativa
quanto aos dos advogados na Inglaterra, Irlanda, Irlanda do Norte, Noruega,
Chipre e Montenegro.
Em
Portugal, conhecido pela sua alta litigiosidade, há 260 advogados para cada 100
mil habitantes e mais de 14 para cada juiz. Na Itália, os números são mais
altos: para cada juiz italiano, há mais de 30 advogados profissionais. É o país
com mais disparidade entre o número de advogados e o de magistrados.
No Brasil
No
Brasil a Constituição, em seu artigo 133, diz que o advogado é essencial para a
administração da Justiça. A presença do advogado só é dispensada em julgamentos
dos juizados especiais. A OAB é contra a resssalva e pugna por tornar a intervenção
do advogado obrigatória nos juizados originalmente conhecidos como de
"pequenas causas" e criados justamente para simplificar o acesso
do cidadão à Justiça.
Os
números da advocacia brasileira também não têm paralelo com os da Europa. A OAB
tem 713 mil advogados inscritos em seu quadro. O que dá a media de 375
advogados para 100 mil habitantes, uma relação superior à de qualquer país
europeu e que se aproxima apenas à da Grêcia (350) e da Itália (332) . Como
atuam 16.200 juizes nos três ramos da Justiça brasileira (estadual, federal e
trabalhista), tem-se ainda que para cada juiz correspondem 44 advogados por
magistrado, bem superior aos 32 da Italia, a campeã europeia nesse quesito.