Dinheiro
externo financiou
campanhas na OAB
O Liberal, 25.01.2004
A Ordem dos
Advogados do Brasil, uma das mais relevantes instituições do País, elege hoje a
nova diretoria de seu Conselho Federal para o triênio 2004/2006. Mas o nome do
novo presidente já é conhecido: o paranaense Roberto Antonio Busato. Atual vice-presidente da OAB, líder da única chapa
inscrita ao pleito, a “Unidade Ética”, ele foi indicado pelas principais
lideranças nacionais da OAB, após seis mandatos na diretoria da autarquia. O
consenso é conseqüência dos fortes embates ocorridos na eleição à presidência
das seccionais da OAB, nos Estados, inclusive no Pará. A posse será em 1º de
fevereiro. Busato é primo legítimo de Arnaldo Faivro Busato Filho, o advogado
da polêmica Valentina de Andrade, absolvida no mês passado, no Tribunal do
Júri, em Belém, da acusação de mentora dos crimes de
emasculação e morte de meninos em Altamira, ocorridos entre 1989 e 1993. Aos 49
anos, ele é um dos mais jovens advogados a ocupar o cargo. Em entrevista à
repórter Enize Vidigal, ele adianta que vai propor
alterações no processo eleitoral da ordem, investigar quem financiou as
campanhas e por qual motivo. O advogado reprova a avalanche de cursos
particulares de Direito em todo o País. A maioria dos cursos, acha o advogado,
é marcada pela má qualidade, motivo dos grotescos índices de reprovação no
Exame de Ordem (prova da OAB, cuja aprovação é imprescindível para o bacharel
atuar na profissão), com média nacional de 80%. Busato
também defende o controle externo do Judiciário e comenta a crise do setor a
violência envolvendo os advogados.
O
senhor foi o único candidato inscrito para a presidência do Conselho Federal da
OAB, o que destoa do cenário nacional, já que nos Estados a disputa foi
acirrada. Por quê?
Isso é
fruto de uma série de fatores. Primeiramente, a candidatura única ao Conselho
Federal não é inédita. Foi o caso do Reginaldo Oscar de Castro e do presidente
(atual) Approbato (Rubens Approbato
Machado). Eu estou com chapa única desde o início do processo. Tivemos uma
disputa muito aguerrida e complicada nos Estados, com um excesso de ações
judiciais tentando reverter o resultado das urnas. Tivemos um outro fenômeno
muito sério, que foi uma campanha muito vistosa, muito agressiva em termos de visual
e despesas. Isso não foi com dinheiro da Ordem. Foi dinheiro externo que acabou
sendo aplicado com algum objetivo, uma vez que todo mandato na ordem, desde o
presidente do Conselho Federal até o último diretor de subseção, é gratuito.
Como o
senhor vê o grande interesse por esses cargos?
Isso nos
preocupa muito, porque alguma força financeira externa está tentando financiar
a instituição pela sua relevância. Nós estaremos aperfeiçoando a legislação
eleitoral da OAB. Vamos convocar os melhores advogados brasileiros,
especialistas na matéria, no sentido de tolher alguns excessos que ocorreram
nessas campanhas.
Que
excessos ocorreram?
Pela
primeira vez o Conselho Federal interveio numa seccional para garantir a posse
de um candidato. Foi no Rio Grande do Norte. O grupo que estava no poder perdeu
as eleições, destituiu a comissão eleitoral, declarou nulos os votos dados à
chapa vencedora e se auto-proclamou vencedor. O presidente Approbato
imediatamente interveio na seccional. Ela (seccional) foi ao Judiciário, que
também não deu guarida à sua propensão. O interventor tomou posse no dia 1º,
deu posse aos vencedores e imediatamente cessou a intervenção. Nós temos
notícias de que, em alguns Estados, várias entidades políticas, como associação
de prefeitos de municípios e universidades particulares, andaram patrocinando
algumas candidaturas. É um assunto que preocupa a instituição.
Quando
começa esse trabalho?
Começa em
fevereiro. Eu pretendo, até a sessão de abril, já ter o projeto para ser
submetido a votação no plenário do Conselho Federal, que é o órgão competente
para expedir esse tipo de legislação.
Então,
há um consenso em torno do seu nome para a presidência da OAB?
Esse
clima, de eleição tumultuada, reforçou a idéia de unidade pelas grandes
lideranças nacionais da ordem. Paralelamente, eu dedico ao fato de que o
presidente Approbato Machado e alguns ex-presidentes
defenderam o meu nome e também, como eu sou vice-presidente, favoreceu a
candidatura. Eu fui escolhido porque notoriamente sou tido como a pessoa que
mais conhece a máquina da OAB dentre as pessoas que estão dentro do comando da
ordem. Eu sou, daí uma coisa inédita, há seis anos diretor do Conselho Federal.
O
Judiciário passa por uma crise, com alguns de seus membros envolvidos em
crimes. Isso repercute na atividade dos advogados, que também são operadores do
Direito. Como o senhor vê isso?
É uma
crise grave, que não está sendo passageira. Nós tínhamos uma crise que envolvia
advogados criminalistas, de repente envolve juízes federais e pode envolver
outras pessoas. A crise do Judiciário tem vários fatores, um dos mais aparentes
é a má formação do profissional que as universidades vêm jogando no mercado. Há
uma quantidade muito maior de bacharéis em Direito em função do excessivo
número de cursos de Direito no País. Nós entendemos também que o Judiciário
está totalmente anacrônico, que precisa de uma reforma urgente. A ordem vem
falando há uma década, pelo menos, do controle externo da magistratura. Foi
esse projeto da Ordem que iniciou todo o procedimento de reforma do Judiciário
e acabou sensibilizando o deputado Hélio Bicudo, que apresentou o projeto que
virou o da reforma. Parece-me fundamental que venha nesse momento, justamente
porque essa crise não está passando. Ele visa exatamente se ter um controle
administrativo do Judiciário e até mesmo garantir a perfeita independência com
relação à prestação jurisdicional.
No
geral, os magistrados são contra o controle externo, defendendo a manutenção da
independência entre os três Poderes. Mas como se pode falar em independência
quando os membros da cúpula do Judiciário são politicamente indicados pelo
Executivo?
Parece um
processo de legitimidade de origem. Os controles existem em todos os poderes, à
exceção do Poder Judiciário. O magistrado não quer às vezes reconhecer isso. O
Legislativo é controlado pelo voto popular e o Executivo é administrativamente
vinculado ao Tribunal de Contas. Existem controles nos vários organismos
judiciários do mundo.
Chegou
a ser proposto pela ONU, ao presidente Lula, uma intervenção internacional no
Judiciário. O senhor concorda com isso?
Não. É uma
interferência descabida. Nós, brasileiros, sabemos quais são as nossas
deficiências. O processo de reforma está na iminência de ser aprovado. As
próprias instituições que representam a magistratura brasileira já começam a
aceitar o controle externo e também já discutem publicamente os problemas e
mazelas da instituição. Isso demonstra a maturidade do País em resolver os seus
próprios problemas.
E quem
deveria fazer o controle externo?
Basicamente,
os operadores do Direito. Ninguém melhor do que os magistrados, membros do
Ministério Público e os advogados. Não alijamos demais entidades que possam
colaborar.
O
projeto da reforma passou mais de dez anos tramitando. Já estava sem tempo de
ser votado ou o senhor acha que ainda é precipitado?
Ela
(reforma) vem tarde. O Judiciário há muito tempo vem apresentando sinais de
fadiga e de agonia, e a população é que paga o preço. Mas antes tarde do que
nunca, porque nós somos um País ainda das meias-medidas. Se a medida for por
inteiro, acho até que valeu a pena esperar. Nós temos hoje um ministro da
Justiça (Márcio Thomaz Bastos) que tem uma tradição de vida, como presidente do
Conselho Federal e como advogado, uma pessoa moderna e sensível ao problema.
Temos hoje uma magistratura com uma faixa etária menor, que talvez compreenda
esse momento histórico. Com esses fatores, acredito que ela vem tarde, mas pode
solucionar em grande parte as mazelas que estão por aí.
Quanto
à preocupação com a qualidade da formação profissional, o senhor acha que o
Exame de Ordem vem conseguindo nivelar por cima os profissionais do Direito?
Acredito
que não veio para nivelar por cima, mas o mínimo possível da capacidade do
profissional que vai prestar um serviço relevante, que é a proteção ao anseio
do cidadão brasileiro em relação aos seus direitos. Acontece que a má formação
que está havendo nos cursos superiores é tão flagrante que acaba parecendo,
pelos índices brutais de reprovação, que se está nivelando pelo alto. O Exame
de Ordem não é complexo, mas prova que muitos bacharéis estão sofrendo um
verdadeiro estelionato por parte de alguns cursos.
Como
está a situação do Pará no ranking nacional?
Aqui,
estamos com aproximadamente 87% de reprovação. Um pouquinho acima da média, que
é de mais ou menos 20% de aprovados e 80% de reprovados em todo o Brasil.
Quando se vai para um concurso público, então, os números são escabrosos.
Milhares se inscrevem e se aprovam dois, três, quatro. Eu pretendo dar uma
relevância muito grande ao Exame de Ordem porque, hoje, estamos colocando hoje
no mercado aproximadamente 50 mil jovens bacharéis em Direito mal preparados.
Isso já é um problema sério e vai ficando mais sério ainda. Estamos indo na
contramão de tudo o que está acontecendo fora (do Brasil), onde está diminuindo
o número de formandos em Direito porque a economia acaba dando oportunidade
para as pessoas terem empregos dignos com cursos técnicos. Nossa ascensão
social no Brasil se dá apenas pelo curso superior e, desses cursos, aquele que
o custo benefício é mais razoável é o de Direito.
O que a
OAB pode fazer para solucionar isso?
O Conselho
Federal tem gasto uma soma imensurável para tentar o controle dos cursos
superiores. O governo tem que admitir que a opinião da Ordem não deveria ser
meramente consultiva, mas normativa. Se a Ordem diz que aquele curso não
interessa porque não tem corpo docente adequado ou porque aquela região está
plenamente atendida por profissionais, não adianta. É preciso
adequar a necessidade dos cursos jurídicos no País. Dos pedidos que chegam à
OAB, menos de 5% são aprovados. Mesmo assim, 98%, 96% são aprovados pelo MEC
(Ministério da Educação). No governo Fernando Henrique Cardoso, chegou ao
absurdo de querer criar curso de Direito de três anos (o normal é de cinco
anos).
Uma das
formas de combate à má qualidade dos cursos é fazer o ranking das faculdades?
Temos um
trabalho, chamado “OAB Recomenda”, que é editado uma vez a cada gestão. Já
temos a segunda edição, que vai ser lançado dia 27 (terça-feira), em Brasília.
O critério básico para definir é o cruzamento do Exame de Ordem com o resultado
do provão. Este ano, teremos a recomendação de 60 cursos dentre 300 analisados.
Isso porque temos aproximadamente 730 cursos no Brasil e 400 e tantos não
formaram ainda nenhum advogado. Ninguém consegue mais precisar quantos cursos
existem, porque a coisa evolui a cada dia. Não somos contra a criação de
cursos; somos contra a má formação. Não é possível mais o Brasil admitir, como
tem em Teresina, uma faculdade que inicia as aulas à meia-noite, num cinema,
logo depois da sessão. Não queremos mais cursos pré-matinais, como existem no
Rio de Janeiro, onde alugam-se grupo escolar estadual e se dá aula das três às
seis horas da manhã. É evidente que ninguém vai lá para ter aula e nem para dar
aula.
Como
trabalhar a ética do advogado que está na ativa? Em 2003, vimos na tevê um
advogado (Clóvis Sahione, do Rio de Janeiro)
orientando o cliente a mudar a letra num exame grafotécnico
e, recentemente, um ex-presidente da OAB (José Roberto Batochio)
foi citado em telefonema gravado pela operação Anaconda.
Esse
advogado (Sahione) foi processado. A Ordem
imediatamente entrou com processo contra ele e ele foi buscar agasalho na
Justiça. Teve recentemente outro advogado (Paulo Roberto Pedrini
Cuzzuol) que estava transportando uma soma grande de
dinheiro, em moeda estrangeira que seria do Fernandinho
Beira-Mar. Isso, para mim, não é deslize profissional, é descaminho, ele já era
um delinqüente. Em relação a esse ex-presidente, é um assunto que veio à baila
agora. A princípio, é um advogado de renome, de conduta ilibada, líder da
classe, mas é um assunto difícil da ordem se posicionar agora. Não podemos
tomar uma atitude sem o devido processo legal. A ordem estará acompanhando com preocupação
o assunto. A OAB tem que olhar com profundo cuidado o aspecto ético, pois sem
ética não há advocacia. Hoje, nas grandes seccionais como São Paulo, Rio Grande
do Sul e Paraná, o Tribunal de Ética já está sendo dividido em turmas no
interior dos Estados, procurando jogar mais rápido e olhando com mais cuidado o
advogado na sua localidade. No momento em que a advocacia não tiver mais ética,
estará falida.
No
Pará, do ano passado para cá, dois advogados foram assassinados (Raimundo
Messias e Raimundo José de Souza, em Itaituba e São Félix do Xingu). Como a OAB
enfrenta isso?
A Ordem vê
com bastante tristeza esse assunto. A advocacia envolve, por vezes,
principalmente quando há questões de terra, interesses econômicos agudos. O
advogado, além de ética, tem que ter coragem. Enquanto eu estiver à frente da
Ordem, a Ordem estará ao lado dos advogados brasileiros em qualquer recanto
deste País, principalmente daqueles que têm a prerrogativa ameaçada. E estará
acompanhando os casos de advogados assassinados no cumprimento do dever.