DE
HIPOCRISIA E DE ESPERANÇA
Carlos
Nina
(Membro
do Instituto dos Advogados Brasileiros)
31.01.2009
O Maranhão tem sido prolífico em exemplos paradigmáticos de miséria moral e
atraso político. O último deles foi a mobilização
comandada e articulada pelo Governador para reagir à eventual decisão que lhe
cassasse o mandato. Foi uma espécie de senha para que a baderna se instalasse e
o Judiciário fosse emparedado, desmoralizado, para melhor atiçamento da
população contra os magistrados.
Como houve uma reação lúcida e responsável contra a tese da violência defendida
pelo Governador, era preciso desviar o foco que iluminava a escuridão de onde
vinha a propagação dessa barbárie. Um membro do Tribunal de Justiça deu essa ajuda.
Levantou a suspeição e atacou a dignidade de todos os magistrados, ao afirmar
que era fato público e notório que juízes estavam vendendo decisões eleitorais
e outras não especializadas. Com essa acusação genérica, todos os magistrados
foram arrostados à vala da corrupção, como se no Judiciário não houvesse
pessoas honradas, magistrados dignos.
O Governador agradeceu. Deixaram-no de lado e a mídia, desde então, tem-se
deliciado com escândalos que emergem do Judiciário.
Em tudo isso domina a hipocrisia. Ainda assim alimento a esperança.
É impossível extinguir a corrupção, vício próprio da imperfeição humana.
Deve-se, porém, combatê-la, para que não prevaleça sobre a ética, a honradez, a
dignidade. Dessa luta depende o tipo de sociedade que cada geração tem e
merece. Combater a corrupção não é mero discurso demagógico, é coragem para ser
honesto, esforço para reagir às tentações, determinação para ser um exemplo
para os filhos e para a comunidade.
Apontar para os vícios do vizinho com o dedo sujo é hipocrisia. Um Tribunal ou
qualquer de seus membros que ataque a conduta de juízes de primeira instância
deve, antes, fazer sua própria autocrítica, mesmo que, para a sociedade, possa
parecer, também, fato público e notório que dentre seus membros haja quem
negocie decisões, mantenha prósperos escritórios através de advogados-laranja,
fraude o pagamento de diárias, contrate servidores fantasmas, desvie verbas
públicas e pratique toda sorte de indignidades que desonram o exercício da
magistratura.
Por isso é hipocrisia, também, quando dirigentes da OAB, indiciados e fichados
na Polícia Federal por fraude contra o patrimônio de sua própria instituição,
têm a ousadia de vir a público exigir que o Tribunal afaste os magistrados
sujos. Isso torna inevitável o questionamento da moralidade dessa cobrança, uma
vez que se trata de advogados que usam a OAB para tentar impedir que o
Judiciário apure aquela fraude e outras contra colegas flagrados na corrupção.
Já que não têm referencial para envergonhar-se, deveriam recolher-se no fundo
de sua torpeza, em vez de afrontar a sociedade com o acinte de cobrança de
condutas que eles mesmos não têm.
O que é salutar é que essas situações têm sido denunciadas e combatidas. Mas é
preciso que cada cidadão saiba separar o joio do trigo. Que não condene todos
os advogados apenas porque alguns desses profissionais se prestam a intermediar
a corrupção e dela fazer parceria com magistrados, de primeira instância ou de
tribunais. Que não condene todo o Poder Judiciário apenas porque a conduta de
alguns magistrados exala o cheiro podre da corrupção. A maioria desses
profissionais é de pessoas honradas, corretas, decentes, mas é silenciosa.
Nesse silêncio envergonhado, é essa maioria que sustenta as instituições. Por
isso é preciso confiar nesses advogados, nesses magistrados que, nesse
ambiente, mantêm-se firmes, conscientes de que, mais do que de seus discursos,
é de suas condutas, de seus exemplos que virá a força para alimentar a esperança.
Portanto,
quando faço essa avaliação, convenço-me de que não se deve perder a esperança.
O Ministro Gilson Dipp, que agora a mídia noticia no
comando do combate à corrupção no Judiciário, é exemplo desse estímulo. Foi
ele, também, que, quando a OAB quis impedir a instauração do inquérito na
Polícia Federal para apurar a fraude que seus dirigentes e ex-dirigentes
cometeram contra a própria Instituição, votou contra por entender que “a obstaculização prematura da tramitação do inquérito, antes
de se saber sobre a existência, ou não, de indícios do cometimento de crimes
poderia resultar em prejuízo à coletividade, maior interessada no deslinde da
questão.” O Inquérito foi instaurado e todos os envolvidos
indiciados criminalmente. O TRF1 já havia decidido no mesmo sentido. Mas
a OAB, que prega o afastamento dos “sujos” do Judiciário, tem sido usada para
manter intocáveis os seus "imundos". Para eles, a OAB não
cobra agilidade do Judiciário. Aposta na morosidade para alcançar
a prescrição.
Outro exemplo digno de destaque é o do Presidente da Associação dos Magistrados
do Maranhão, Gervásio Protásio
dos Santos, não só por sua conduta como magistrado responsável e comprometido
com a dignidade de sua função, mas pela atuação firme, determinada e
equilibrada com que vem dirigindo a AMMA, pagando o preço da incompreensão dos
ignorantes e da maldade de quem só vê seus próprios e espúrios interesses. E
assumindo o risco da retaliação advinda de sua opção por fazer a coisa certa,
cobrando transparência, moralidade e eficácia do Judiciário.
Sua defesa de magistrados acusados não é a defesa da impunidade, mas a da
justiça, para que os valores democráticos sejam preservados. Dentre eles a
presunção da inocência, o direito ao contraditório, à ampla defesa, ao devido
processo legal.
Sem isso, valerá a pregação do Governador do Maranhão: a violência contra
decisões judiciais.
É preciso, portanto, que saibamos o que queremos: a democracia ou a barbárie. E
ajamos de acordo com essa opção. É assim que construiremos a sociedade que
queremos para nós, nossos filhos e as gerações que virão.