Corporativismo,
apadrinhamento e o fim do mérito acadêmico: dilemas da UFPa hoje
Válber Almeida – Sociólogo, Mestre em planejamento, ex-professor da UFPa, pesquisador, professor do
Curso de Direito da Fapan.
“É dever de
todo homem honesto fazer chegar todas as injustiças aos ouvidos de todas as
pessoas” (Voltaire)
Duas tendências
estão destruindo o valor do mérito acadêmico hoje na UFPa: o apadrinhamento político e o corporativismo.
São males clássicos que arrasam a sociedade e o Estado brasileiro, e que têm
como maior crítico, contraditoriamente, a Universidade. Um e outro parecem
convergir para o mesmo fim: manutenção de privilégios, fortalecimento de grupos
político-ideológicos, realização de projetos e interesses particulares; um e
outro parecem levar às mesmas conseqüências: comprometer a qualidade,
diminuindo a eficiência do ensino e dos demais serviços prestados pela
Universidade, lançar questionamentos éticos sobre decisões e posturas de
agentes públicos que dirigem a instituição, atropelar direitos, ignorar a razão
civilizatória e humanizadora
da academia; e, tanto o apadrinhamento quanto o corporativismo parecem estar
levando a instituição para um horizonte de verdadeiro degrado civilizatório, com a ambição, o utilitarismo, o
particularismo de estirpe coronelista, o rancorismo e a esperteza de tipo patrimonialista
sendo elevados ao patamar de valores referenciais ou princípios basilares do
comportamento humano.
O mérito deveria
ser o valor supremo da academia. Max Weber o considerava não somente um
fundamento da racionalidade moderna, mas também um fundamento civilizatório das sociedades modernas, isso porque o mérito
permite eliminar diferenças de ordem material, evitar julgamentos baseados em
critérios pessoais, identificar os melhores para o exercício de uma determinada
função e valorizar o empenho dos indivíduos no refinamento do seu intelecto,
das suas habilidades e do seu caráter. Nisso residia a
esperança weberiana de que o Estado e as instituições
sociais se tornassem, efetivamente, instrumentos civilizatórios
e humanizadores, pois, dirigidas por pessoas de
melhor refinamento intelectual, técnico e moral, haveria maior disposição e
empenho das instituições em fazer cumprir a letra da Lei, os projetos e valores
que orientam os princípios e as condutas, seja dos agentes individuais
seja dos agentes públicos, para a construção de uma sociedade civilizada.
A Universidade,
espaço de onde os grandes pensadores humanistas modernos esperavam brotar os
melhores exemplares de desenvolvimento humano, por ser um espaço reservado ao
refinamento cultural, estético, filosófico, científico, ético e moral das
pessoas, não pode se render à política do apadrinhamento coronelista
e do corporativismo patrimonial. Essa rendição implica no risco da instituição se
degenerar das suas funções humanitárias maiores e se converter numa
monstruosidade civilizatória, com nefastas
implicações sociais e formativas.
Não cito casos
particulares, mesmo porque a situação já está se generalizando na instituição. Está presente em projetos, instituições de pesquisa,
concursos públicos para seleção de professores, concessão de bolsas, seleção de
estagiários, em programas de pós-graduação, entre outros.
Existem editais
para seleção de professores que, escancaradamente, foram elaborados
especificamente para favorecer um determinado programa de pós-graduação. Dentro
desses programas de pós-graduação, existem sempre aquelas pessoas que se
destacam pela sua disposição em, para manter o cavalheirismo, ficar rendendo
honrarias a santos. Gilberto Freyre denunciava isso como um cancro civilizatório no Brasil: a elite brasileira, personalista,
adora que seus subordinados fiquem lhe rendendo glórias, divinizando sua
pessoa, exaltando sua personalidade –por isso personalista. Para que o seu personalismo
impere, essas elites precisam de que, do outro lado, existam pessoas dispostas
a se despersonalizar.
Além de denunciar
uma necessidade infantil exacerbada de auto-afirmação, esse personalismo
denuncia escassez de grandeza e nobreza humana, além de uma propensa
irresponsabilidade, pois expõe uma disposição dessas elites em colocar seus
projetos pessoais ou particulares sempre acima do bem-comum, e de se manter num
patamar de espécie humana única, superior, mais humana e mais importante que as
demais espécies ou indivíduos.
Age assim parte
da elite do conhecimento na UFPa
na atualidade, como perfeito modelo reeditado da personalista elite econômica e
política nacional. Por isso, nos editais para seleção de
professores direcionados para programas específicos de pós-graduação, chegado
ao fim o processo seletivo, muitos postulantes têm ficado boquiabertos quando
sai o resultado e o agraciado com a vaga é nada mais nada menos que um dos
fiéis “devotos”.
Mas não se
restringe a concursos essa realidade. Há muito tempo
grande parte das vagas abertas para bolsistas e contratados em projetos e
programas, dentro da instituição, estão sendo rateadas
para pessoas que são conhecidas daqueles, ou conhecidas de conhecidos daqueles
que possuem poder de decisão sobre a concessão do benefício. É uma verdadeira
elite hagiográfica que está se desenvolvendo dentro da instituição, quando
deveria ser uma elite meritocrática, e essa elite de
hagiógrafos irá perpetuar esse ciclo eticamente vicioso, degradado, de
apadrinhamento e corporativismo.
Um edital justo,
que prezasse pela ética e pelo mérito deveria exigir formação das pessoas num
curso que tenha afinidade com a disciplina que está sendo ofertada, abrir para
os que têm pós-graduação também em áreas de afinidade e experiência comprovada
na área. Onde está o mínimo senso de multidisciplinaridade
e interdisciplinaridade atualmente tão cantado pelos professores e elaboradores
de projeto da UFPa? Nada
impede que um bioquímico dê aula de bioquímica num curso de medicina, mas a
tendência que está se inscrevendo na UFPa,
por exemplo, é de exigir, para professor assistente de bioquímica no curso de
medicina da instituição, formação em medicina, com pós-graduação –mestrado ou
doutorado- em medicina com concentração em bioquímica. É uma verdadeira pérola
do artifício corporativista eticamente vicioso.
Disciplinas que
poderiam ser também ministradas por pessoas formadas na área específica, agora,
para ministra-la, está sendo exigida formação no curso
específico para o qual ela está direcionada, com pós-graduação em nível de
mestrado ou doutorado no programa específico do curso e apenas concentração na
área. Em muitos casos, isso significa que mesmo dentro dos programas de
pós-graduação específicos existem pessoas que não poderão participar do certame
porque, apesar de estarem se formando neste programa, a concentração que
escolheram é diferente daquela que o edital exige.
Não soa
totalmente suspeita e condenável toda essa amarração? A impressão que impera é
de que não somente o concurso está sendo oferecido para um programa específico
de pós-graduação, o que já é totalmente condenável pela ética, mas também para
uma pessoa específica desses programas. Por acaso, os elaboradores de editais e
responsáveis por programas de pós-graduação temem colocar à prova os alunos que
estão formando, submetendo-os a uma competição meritocrática
ampla? Ou são, de fato, os interesses escusos que estão falando mais alto neste
momento?
Se
cabe ao o
edital selecionar, então é desnecessário estabelecer uma banca de seleção, pois
é à banca de seleção que cabe, em última instância, o poder e a capacidade de
deliberar sobre quem se mostrou mais apto para exercer uma determinada função
ou ministrar uma determinada disciplina. E se é para selecionar com base em
critérios totalmente direcionados e tendenciosos, então é preciso acabar com a
denominação “concurso público” para esses eventos.
Muitas pessoas
com conhecimento e mérito na área de saber exigida pela disciplina ficam
totalmente eliminadas do concurso, sequer podem almejar fazê-lo, pois, apesar
de terem graduação, pós-graduação, conhecimento reconhecido e experiência na
área para a qual se destina o concurso, tiveram a trágica sorte de não
participar do programa de pós-graduação oferecido pelos professores que
montaram o edital para o qual o concurso está sendo direcionado.
As graduações,
que licenciam as pessoas para atuar profissionalmente nas áreas de saber
abarcadas pelo seu curso, áreas referentes às quais são ministradas diversas
disciplinas, por vários anos, voltadas à capacitação do profissional em
formação, já estão perdendo seu valor para a docência superior, pois o que
define a habilitação desse profissional é o curso de pós-graduação. Outros
cursos de pós-graduação, mesmo formando e qualificando o profissional na área
de saber exigida pela disciplina, também estão perdendo seu valor, pois as
vagas abertas em concursos na UFPa
também não os admite.
Perde, assim, a
sociedade, porque está investindo em programas de graduação e pós-graduação que
estão sendo subaproveitados e subvalorizados
pela própria Universidade; perde, porque vê as possibilidades e oportunidades
sociais se estreitar, quando deveriam se ampliar, para aquelas pessoas que
possuem o mérito de ter se empenhado no refinamento de suas habilidades, de seu
intelecto e de suas virtudes; perde, ainda, porque, vê ficarem de fora das
dependências universitárias pessoas comprometidas com a instituição e parte de
excelentes quadros acadêmicos; perde, porque a eliminação do critério meritocrático, decorrente do corporativismo e do
apadrinhamento, compromete o desenvolvimento e a elevação da qualidade
educacional e dos demais serviços prestados pela Universidade; por fim, perde
porque os artificialismos corporativos e apadrinhalistas
fragilizam alguns dos valores civilizatórios e éticos
mais elevados da sociedade, valores que deveriam encontrar amparo e respaldo na
Universidade mais do que em qualquer outra instituição moderna.
Acaso, terão as
ditas mentes críticas que habitam a Universidade a capacidade de realizar auto-crítica e mudar serena e sabiamente de postura, ou irão
se comportar como infratores comuns que necessitam da força para serem
civilizados? A UFPa é capaz
de mudar através de suas próprias grandezas, ou teremos de exigir intervenções
externas, num doloroso desgaste jurídico para fazer valer direitos que estão
sendo atropelados por artificialidades corporativas e coronelistas?