Conflitos jurídicos
Imagine se cada juiz e promotor
criar lista de inimigos
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por Gustavo Sauaia Romero Fernandes
Embora não tenha a carreira e o brilhantismo dos expoentes
desta batalha verbal que estamos presenciando entre MP-SP e OAB-SP, este pobre
marquês radicado
Meu primeiro ponto é recordar o óbvio: um sistema judiciário
que já sofre com suas limitações — financeiras, estruturais
e legais — não melhorará em nada com seus atores interrompendo a peça para
discutir, em pleno palco, quem interpretou melhor seu papel em produções
anteriores, como se isso desse a algum deles o direito de ser canastrão em
dramas futuros. Até porque o objetivo de um processo não é fazer chorar ou rir,
mas simplesmente deixar a platéia — o povo — satisfeita com uma peça breve,
enxuta e compreensível. Becket não é o autor favorito
de quem chega a passar anos esperando Godot.
Sendo assim, por mais diversos que sejam os nomes dados pela
OAB-SP à sua lista de incômodos aos advogados, o efeito da mesma fala por si.
Ter defendido as pessoas na ditadura militar torna ainda mais insólito que se
repita o mesmo expediente. Nada pode advir deste tipo de lista, a não ser
constrangimento e antipatia antecipada.
Sob tal ângulo, imaginem o que seria se cada juiz decidisse
expor, no cartório de sua Vara, os nomes dos advogados que, por um ou outro
motivo, fossem considerados litigantes de má-fé ou descompensados
na sala de audiência, bem como de promotores supostamente incompatíveis com as
necessidades do cargo. Ou se os promotores fixassem, na porta de suas salas, o
nome de juízes e advogados cuja atuação entendem
prejudicial ao interesse público. Algo de bom aconteceria com este ato?
Estudamos durante cinco anos, fizemos exames de aprovação, praticamos
diariamente nossas funções para descobrir, depois de tudo, que ser revanchista
é o caminho da Justiça?
Uma vez mencionado o revanchismo, chego ao segundo tópico,
que é o autêntico tiroteio escrito ou oral que se incentiva não apenas entre os
representantes maiores, mas entre os representados e aspirantes a
representados. Neste mesmo site, é cansativo e desanimador constatar como, nos
comentários de cada notícia ou artigo, ganha espaço o ataque gratuito a juízes
e promotores. Prevalecem os chavões. Os juízes são onipotentes, preguiçosos e
insensíveis. Promotores se julgam paladinos implacáveis e pisam — ou atiram —
em quem tentar impedi-los. Alguns ainda ressaltam que existem bons juízes e
promotores, mas apenas como entrada para despejar eventuais frustrações ou,
talvez, apenas impressionar alguém.
É claro que, pelo padrão educacional e pela tentação que a
internet traz para a leviandade, não era de se esperar coisa diferente, de modo
que também parece óbvio que muitos advogados estejam cientes da pequenez de
usar um espaço democrático para xingar juízes e
promotores, como se liberdade de expressão incluísse permissão indiscriminada
para ofender. Mas seria salutar que, em vez de incentivar o conflito inútil, a
OAB-SP lembrasse a seus membros que não há maior arrogância que se proclamar
mais humilde que os outros.
Por melhores que sejam os critérios de admissão, sempre
haverá maus juízes, maus promotores e maus advogados. Assim como temos maus
médicos, maus engenheiros, maus jornalistas, etc.. A
Bíblia está aí para registrar que até os apóstolos, escolhidos minuciosamente
pelo filho de Deus, tiveram sua inesquecível exceção. Nem por isso vemos alguém
dizendo que os discípulos mais próximos de Jesus Cristo eram traidores e
mercenários. Muito menos se justificaria se o Vaticano decidisse oficializar,
como cerimônia religiosa, a prática de malhar o Judas. Minha pergunta final
seria essa: se o Vaticano não deve, a OAB-SP deveria?
Revista
Consultor
Jurídico, 22 de fevereiro de 2008