Concursite é doença que ataca os jovens e faz mal ao
Brasil
http://www.conjur.com.br/2007-jul-30/concursite_doenca_ataca_jovens_faz_mal_brasil
Ao lado da doença
infecto-contagiosa chamada "juizite", cujo causador é um vírus
chamado "megalomanus arrogantis", infelizmente existe outra doença,
mais recorrente, chamada "concursite", causada pelo vírus
"ilusioni securitates".
Como sabemos, a juizite
ataca bacharéis em direito que se tornam magistrados, quando eles não possuem verdadeira
vocação para fazer justiça.
Algumas das vítimas do
vírus “megalomanus arrogantis” acabam adquirindo os piores sintomas da doença:
alergia a contatos com advogados, falta de vontade de trabalhar e delírios
alucinantes, que os fazem se imaginar superiores ao resto da espécie humana.
A concursite é uma doença
mais recentemente descoberta, mas muito pior. Ataca não apenas bacharéis em
direito, mas qualquer pessoa que ingressa numa faculdade sem saber bem o que
quer ser quando crescer.
Com o avanço da
tecnologia e das ciências em geral, atualmente temos uma enorme quantidade de
profissões, especializações e cursos supostamente “superiores”, de tal forma
que o pai que pensa em dar uma “profissão” ao seu filho fica perdido, pois não
há mais como orientar a carreira de ninguém.
O jovem também fica
perdido. Mais cômodo, mais simples , mais óbvio, pode ser seguir a profissão
dos pais. Talvez isso explique porque a minha filha mais velha é advogada.
Claro que na genética existe explicação para isso. Tanto que a mais nova é
jornalista (coitadinha!) e a do meio, talvez por conhecer alguns dos meus
clientes, abandonou a contabilidade e está se dedicando à psicologia.
Mas a tal concursite
acaba de certa forma atacando muitos dos jovens que hoje entram na faculdade.
Um dia, em certa
faculdade, perguntei a uma caloura porque ela havia se matriculado e a resposta
veio fácil: para fazer um concurso. Só que ninguém sabia para qual carreira
pública. Vocação, mesmo, a moçoila tinha apenas para um emprego público, onde
segundo ela existe uma tal de “segurança”.
Recentemente uma revista
publicou reportagem sobre os concursos públicos. E o que me chamou a atenção
foi uma pessoa que havia sido aprovada para policial rodoviário e que foi
fotografada com seu uniforme. Segundo a reportagem, esse policial estava se
preparando para os próximos concursos de delegado, procurador, juiz, defensor
público, assessor legislativo, etc. etc. .
Essa terrível doença, que
é infecto-contagiosa, a concursite, faz um mal tremendo não só às suas vítimas,
como ao Brasil.
O doente é prejudicado,
pois só tem duas hipóteses: ou ele é uma pessoa sem sonhos, sem ideais, sem
esperanças, ou está abrindo mão, renunciando ou trocando esperanças, ideais e
sonhos por meras ilusões, suposições ou frustrações futuras.
O discurso desses
desafortunados pacientes é sempre o mesmo: quer ser funcionário público por
causa da segurança, de bons salários, da aposentaria, das férias, ou mesmo da
ridícula idéia de serem “autoridade” ou mesmo tratados de “excelência”. Isso tudo
é muito triste.
Segurança é a mais
ilusória de todas as ilusões humanas. No mundo atual segurança não existe. Que
o digam os moradores dessa fortalezas medonhas chamadas “condomínios fechados”
quando sofrem arrastões praticados pelos moradores da favela vizinha. Ou aquele
sujeito que andava armado e foi baleado com a própria arma. Segurança de
receber salário todo mês? Pode ser. Mas isso será que vale mais que os sonhos?
Paga as esperanças? Compensa o abandono dos ideais?
A aposentadoria mais cedo
ou mais tarde vai mudar para pior. Nenhum país pode suportar aposentadorias
precoces, de pessoas que no dia seguinte já estão trabalhando e muitas vezes no
próprio serviço público. Em qualquer país que pretenda desenvolver-se, em breve
só poderá haver aposentadoria por idade (no mínimo 75 anos) ou por absoluta
invalidez.
Férias, tudo bem. Mas no
limite razoável de 30 dias por ano. Muito embora existam pessoas que não
deveriam ter férias, pois não trabalham, apenas enganam. Chegam sempre tarde,
saem mais cedo. Ainda bem que são raríssimos esses casos.
O pior mesmo no serviço
público é o concursado ter um chefe idiota, o que, aliás, é muito comum.
Quando o idiota é eleito
pelo povo, tudo bem. Afinal, o povo quase sempre merece quem elege.
Mas há funcionários
concursados de bom nível, sérios, dedicados, cujos chefes são meros
apadrinhados políticos, sem competência ou sem apetência para o trabalho.
Conheço uma brilhante
advogada que prestou concurso e tem como chefe uma pessoa que não serve nem
para carregar a pasta de sua subordinada. O único talento do chefe e razão de
sua nomeação é estar filiado ao partido que está no poder e ser um puxa-saco de
carteirinha.
A concursite também causa
muito prejuízo ao governo. Quando aquele policial rodoviário passar no concurso
de delegado, haverá uma vaga de policial a ser preenchida. Novo concurso, novos
treinamentos e talvez quando o substituto estiver treinado, terá que novamente
ser substituído. E assim indefinidamente, até que um policial vocacionado, que
tinha o sonho de ser policial e não apenas ocupar o cargo, venha a ser
admitido. O Brasil perde muito com isso.
Parece razoável supor que
uma pessoa que ingresse na faculdade de engenharia pretenda ser engenheiro. Mas
por causa da concursite isso é só uma suposição. Nos últimos anos muitos
engenheiros se tornaram auditores fiscais. Até aí, nada demais. O engenheiro
tem bom raciocínio lógico e isso facilita a aprovação nos testes de múltipla
escolha.
Mas de repente um
engenheiro eletricista que virou auditor fiscal é promovido a inspetor fiscal,
chefe de repartição aduaneira. E, nessa qualidade, pratica ato ilegal, contra o
qual é concedida liminar em mandado de segurança.
Vai daí que a agora
autoridade, engenheiro eletricista ignorante em questões jurídicas tanto quanto
um advogado face às funções básicas de uma bobina elétrica, arvora-se em
“interpretar” a decisão judicial e atreve-se até a considerá-la “inadequada” !
Mais uma vez é o sapateiro indo além das sandálias. Com isso, queixa-se o fisco
de uma suposta “indústria de liminares”, olvidando-se da indústria de normas
ilegais, muito mais próspera.
Por causa da concursite,
muitos bacharéis em direito que passaram os cinco anos de faculdade no boteco,
ingressam nessas milionárias indústrias de ensino preparatório e ali ficam anos
a fio, até serem aprovados no próximo concurso.
Alguns ingressam no MP e
se dedicam ao preenchimento de dados estatísticos, vangloriando-se de terem
colocado na cadeia um bom número de pessoas, mesmo que estas, depois, sejam
absolvidas. Não são eles, os que erram, que pagam pelos seus erros, mas a
sociedade.
Outros bacharéis se
tornam juizes e, acometidos da juizite, chegam a lamentar (será o pecado da
inveja?) quando algum advogado ganha honorários expressivos. São raríssimos,
todavia, os que se arriscam ao pedido de exoneração para advogar. Preferem
“arriscar-se” na advocacia, logicamente depois de acomodados em boa
aposentadoria. E o que é pior: clientes ignorantes chegam a imaginar que o
servidor público aposentado (é isto que eles são!) é um profissional melhor que
os outros.
Venho fazendo, desde
2004, uma série de palestras sobre o tema “A Fórmula do Sucesso na Advocacia”.
Cerca de 5 mil jovens advogados e estudantes já as assistiram. E a mensagem
mais importante que procuro transmitir é que a única finalidade da criatura
humana é ser feliz. Quem tiver vocação para o serviço público certamente será
feliz. Mas não basta fazer o que se gosta. Mais que isso, é indispensável
gostar do que se faz. Quem conseguir isso não contrairá nenhuma das doenças
aqui mencionadas.
*Raul
Haidar é advogado e jornalista profissional.