Coisas da Política - O áspero diálogo e a opinião das ruas
Mauro Santayana
24.04.2009
O
diálogo entre o presidente do STF, Gilmar Mendes, e o ministro Joaquim Barbosa,
tal como divulgado pelos jornais, não deixa dúvida. Quem tomou a iniciativa da
agressão, ao afirmar que o outro não tinha "condições de dar lição a
ninguém", foi o presidente da Corte. O ministro Joaquim Barbosa, tocado em
sua dignidade, replicou à altura e, ao fazê-lo, disse o que provavelmente a
maioria dos brasileiros gostaria de dizer: o ministro Gilmar Mendes tem
contribuído para desacreditar o Poder Judiciário no Brasil.
O presidente do STF, interrompida a
reunião, deveria ter deixado seus pares à vontade para examinar o incidente,
como fez Joaquim Barbosa, ao ir para casa. Gilmar, ao reunir os colegas em seu
próprio gabinete, constrangeu-os com a sua presença. E se não fosse, conforme o
noticiário de ontem, a posição da ministra Cármem
Lúcia e dos ministros Ricardo Lewandowski e Ayres
Britto, Gilmar deles teria obtido manifestação de repúdio a Joaquim Barbosa.
O incidente de quarta-feira reabre a
necessária discussão sobre o processo de escolha dos juízes do STF. Selecionado
por ato presidencial, o candidato é aprovado ou reprovado pelo Senado – mas não
há notícia, no Brasil, de que alguém tenha sido rejeitado. Um juiz do STF
dispõe de tal poder que seria necessária outra legitimidade, além da escolha
presidencial e da aprovação do Senado, para a sua nomeação.
O Senado norte-americano é mais
cuidadoso na aprovação dos candidatos à Suprema Corte, e a imprensa, consciente
de sua responsabilidade, os submete ao escrutínio da opinião pública. Um grande
jurista conservador, Robert Bork, indicado por
Reagan, em 1987, foi rejeitado (58 votos a 42), depois de ampla discussão
pública, em que intervieram contra seu nome a União Americana pelas Liberdades
Civis (ACLU) e personalidades destacadas, como o ator Gregory
Peck. Defensor declarado dos trustes, Bork foi contestado também pelas outras posições
conservadoras. Edward Kennedy o arrasou em discurso no Senado. A América de Bork – disse Kennedy – será aquela em que a polícia arrombará
as portas dos cidadãos à meia-noite, os escritores e artistas serão censurados,
os negros atendidos em balcões separados e a teoria da evolução proscrita das
escolas.
A discussão sobre Bork
– que havia sido cúmplice de Nixon no caso Watergate
– levou o senador Joe Biden,
hoje vice-presidente de Obama e então presidente do
Comitê Judiciário daquela casa, a recomendar a rejeição de seu nome. O Biden Report foi aceito pelo
Plenário, e Bork não foi aprovado. O caso foi tão
emblemático que to bork passou a ser verbo.
Mais tarde, em outubro de 1991, o juiz Clarence Thomas por pouco não foi rejeitado, por sua
conduta pessoal. Aos 43 anos, ele foi acusado de assédio sexual – mas os
senadores, embora com pequena margem a favor (52 votos a 48), o aprovaram, sob
o argumento de que seu comportamento não o impedia de julgar com equidade. Na
forte campanha contra sua indicação as associações femininas se destacaram. E o
verbo "borquear" foi usado por Florynce Kennedy, com a sua palavra de ordem "we're going to bork him".
A indicação do ministro Gilmar Mendes,
como se recorda, foi contestada por juristas e alguns jornalistas. O jurista
Dalmo Dallari foi incisivo: "Se essa indicação vier a ser aprovada pelo
Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção
dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade
constitucional". E lembrou que Gilmar recomendara ao Poder Executivo
desrespeitar decisões judiciais.
Os fatos estão demonstrando que Dallari
tinha razão. A normalidade constitucional está ameaçada pelos atos autoritários
do presidente do STF, que, com arrogância, dita normas aos outros dois poderes
da República e não tem sido devidamente contido por eles, que aceitaram firmar
um Pacto republicano proposto pelo juiz. Pacto republicano é o da Constituição.
Gilmar foi membro do gabinete de
Fernando Collor. Advogado-geral da União no governo de Fernando Henrique
Cardoso, criticou o STF e se comprometeu na redação de medidas provisórias
discutíveis. Sua aprovação tampouco foi fácil: teve 15 votos contrários, a
maior rejeição registrada em indicações semelhantes.
Enquanto não houver critérios mais
democráticos para a aprovação de indicados ao STF, o Senado deverá, pelo menos,
ouvir a opinião da sociedade em audiências públicas, como faz antes de outras
decisões.