COLIFORMES MENTAIS

28.03.2009
Maria Lucia Victor Barbosa

Socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br

Dia 26 deste, durante entrevista coletiva que encerrou o encontro
oficial de Lula da Silva com o primeiro-ministro britânico, Gordon
Brown, o presidente brasileiro mais uma vez contaminou a platéia com
seus coliformes mentais. Deitando falatório pelos cotovelos como se
estivesse num daqueles comícios em que leva a mãe do PAC a tiracolo,
ele sapecou diante da delegação inglesa a seguinte “preciosidade”,
referindo-se à crise mundial: “É uma crise causada por comportamentos
irracionais de gente branca de olhos azuis que antes da crise parecia
que sabia tudo e agora demonstra não saber nada”.


Deixemos de condescendências. Não foi uma gafe, como se costuma dizer
para atenuar os desastrados gracejos do presidente da República. Foi
uma estupidez. Pior. Foi crime de racismo, coroado pela gabação
xenófoba de que aquela gente branca, irracional, de olhos azuis são
uns ignorantes que não sabem nada. Lula da Silva deve achar que só ele
entende das coisas, como seu alter ego, Hugo Chávez, igualmente
populista e chibante.


Questionado por um repórter britânico se sua declaração tinha viés
ideológico, o presidente titubeou, engasgou e se saiu como mais uma
idiotice: disse não conhecer nenhum banqueiro negro ou índio.


Acontece que existem banqueiros negros, como Stan O’Neil,
ex-presidente do Merryll Lynch, um dos bancos norte-americanos que
teve que ser vendido por causa das perdas bilionárias com as hipotecas
subprime. E o negro Frank Raines, ex-presidente da Fannie Mae,
instituição financeira que ajudou a desencadear o colapso de Wall
Street.

Mas Lula da Silva sabe que ao associar raça e classe, como se todos os
brancos de olhos azuis fossem capitalistas exploradores de negros e
índios, joga bonito para platéia brasileira e mesmo latino-americana.
Afinal, não somos todos de esquerda nessas plagas? Se formos temos que
levar adiante a luta de classes como fiéis seguidores de Karl Marx.

Mas nem esse chegou a tanto, pois teorizou sobre burguesia e
proletariado e não sobre brancos de olhos azuis e negros de olhos
escuros.

Vai assim Lula da Silva como porta-voz das garbosas esquerdas
brasileiras fomentando ódio e preconceito. Em nome do PT ele veio para
desagregar e não para agregar a nação. Como um Chacrinha de auditório
propositalmente confunde a mente dos incautos que enxergam nele o
defensor dos pobres e oprimidos, quer dizer, dos índios e negros,
vítimas dos brancos irracionais de olhos azuis.


Diante desse despautério a impressão que se tem é que o presidente da
República quer se portar como um Hitler subdesenvolvido ás avessas.
Ele não gosta de gente branca de olhos azuis, como se existisse pureza
racial. E se quis referir aos países desenvolvidos, especialmente aos
Estados Unidos, esqueceu que no Brasil existe gente branca de olhos
azuis. São descendentes dos europeus que para aqui vindo deram uma
substancial colaboração para o progresso que o país hoje desfruta.


Além do mais, alguém conte para o presidente que brancos de olhos
azuis, aqui, na Europa ou nos Estados Unidos, não são intrinsecamente
maus ou ignorantes e nem sempre são ricos. No Brasil muitos se casaram
com negras, com índias, e seus descendentes compõem nossa sociedade
multirracial. Como resultado dessa miscigenação não temos um tipo
racial específico.


O bestialógico de Lula da Silva deve ter soado no mínimo inusitado aos
ouvidos dos ingleses. Mas o presidente deu mais vexame. Segundo o
Estado de S. Paulo (27/03/2009), ele “se expressou com pouca
familiaridade sobre questões que estarão em debate no encontro de
cúpula do G-20, em Londres, no próximo dia 2”.


Naturalmente, nesse encontro, o presidente da República defenderá os
pobres e oprimidos e clamará contra o protecionismo daquela gente
branca de olhos azuis. Curiosamente, matéria do jornal citado dá conta
de que o Brasil dobrou barreiras em 2008. Yes, nós somos fortemente
protecionistas e nossos principais alvos foram a China, a Europa e os
Estados Unidos.


Outra incoerência que se observa em nossa política externa diz
respeito à generosidade de um presidente que, se por um lado defende
negros e índios, por outro permite que seu governo, do qual é o
principal responsável, se recuse no Conselho de Direitos Humanos da
ONU a aprovar resolução que condena duramente as “graves violações de
direitos humanos na Coréia do Norte. As atrocidades cometidas na
tirania comunista norte-coreana incluem a fome, a tortura e a
perseguição política. Horrores que existem em Cuba, também
vigorosamente apoiada por Lula da Silva e seu governo. O Itamaraty
tampouco condena regimes acusados de violações graves como os do Sudão
e do Congo. Mas endossa fortes críticas contra Israel.


Os coliformes mentais de Lula da Silva foram lançados para inglês ver,
sendo que nesta enorme Sucupira em que vai se transformando o Brasil
são tidos como lampejos de genialidade. Em todo caso, nossos brancos
irracionais de olhos azuis que se cuidem. E se Lula cismar de
mandá-los para aqueles chuveiros de onde não se volta?