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Estimado presidente, assisti na televisão, anteontem, o trecho de seu discurso
criticando o Poder Judiciário e dizendo que V. Exa. e seu amigo Márcio,
ministro da Justiça, há muito tempo são favoráveis ao controle externo do Poder
Judiciário, não para 'meter a mão na decisão do juiz', mas para abrir a
'caixa-preta' do Poder... Vi também V. Exa. falar sobre 'duas
Justiças' e sobre a influência do dinheiro nas decisões da Justiça.
Fiquei
abismado, caro presidente, não com a falta de conhecimento de V.Exa., já que
coisa diversa não poderia esperar (só pelo fato de que o nobre presidente é
leigo), mas com o fato de que o nobre presidente ainda não se tenha dado conta
de que não é mais candidato.
Não precisa mais falar como se em palanque estivesse; não precisa mais fazer
cara de inconformado, alterando o tom da voz para influir no ânimo da platéia.
Afinal,
não é sempre que se faz discurso na porta da Volks.
Não
precisa mais chorar. O eminente presidente precisa apenas mandar, o
que não fez até agora.
Não
existem duas Justiças, como V. Exa. falou. Existe uma só.
Que
é cega, mas não é surda e costuma escutar as besteiras que muitos falam sobre
ela.
Basta
ao presidente mandar seu amigo Márcio tomar medidas concretas e efetivas contra
o crime organizado.
Mandar
seus demais ministros exercer os cargos para os quais foram nomeados.
Mandar
seus líderes partidários fazer menos conchavos e começar a legislar em favor da
sociedade.
Afinal, V. Exa. foi eleito para isso.
Sr. presidente, no mesmo canal de televisão, assisti a uma reportagem dando
conta de que, em Pernambuco (sua terra natal), crianças que haviam abandonado o
lixão, por receberem R$ 25,00 do Bolsa-Escola , tinham voltado para aquela vida
(??) insólita simplesmente porque desde janeiro seu governo não repassou o dinheiro
destinado ao Bolsa-Escola .
E
a Benedita, sr. presidente?
Disse ela que ficou sabendo dos fatos apenas no dia da
reportagem. Como se pode ver, Sr. presidente, vou tentar lembrá-lo
de algumas coisas simples. Nós, do Poder Judiciário, não temos caixa-preta.
Temos leis inconsistentes e brandas (que seu amigo Márcio sempre utilizou para
inocentar pessoas acusadas de crimes do colarinho-branco).
Temos
de conviver com a Fazenda Pública (e o Sr. presidente é responsável por ela,
caso não saiba), sendo nossa maior cliente e litigante, na maioria dos casos,
de má-fé.
Temos os precatórios que não são pagos.
Temos acidentados que não recebem benefícios em dia (o INSS é de sua
responsabilidade, Sr. presidente). Não temos medo algum de qualquer controle
externo, Sr. presidente.
Temos medo, sim, de que pessoas menos avisadas, como V. Exa. mostrou ser,
confundam controle externo com atividade jurisdicional (pergunte ao seu amigo
Márcio, ele explica o que é).
De qualquer forma, não é bom falar de corda em casa de enforcado.
Evidente que V. Exa. usou da expressão 'caixa-preta' não no sentido pejorativo
do termo.
Juízes não tomam vinho de R$ 4 mil a garrafa.
Juízes não são agradados com vinhos portugueses raros quando vão a restaurantes.
Juízes, quando fazem churrasco, não mandam vir churrasqueiro de outro Estado.
Mulheres de juízes não possuem condições financeiras para importar
cabeleireiros de outras unidades da Federação, apenas para fazer uma
'escova'. Cachorros de juízes não andam de carro oficial.
Caixa-preta por caixa-preta (no sentido meramente figurativo), sr. presidente,
a do Poder Executivo é bem maior do que a nossa.
Meus respeitos a V. Exa. e recomendações ao seu amigo Márcio.
P.S.: Dê lembranças a 'Michelle'. (Michelle é cachorrinha do presidente que passeia em carro
oficial)