A verdade que não é dita
Membro da
Academia Brasileira de Letras Jurídicas. Professor Titular da Faculdade de
Direito do Recife - UFPE. Ex- Diretor da Faculdade de Direito do Recife – UFPE.
Advogado e Parecerista.
http://jusvi.com/doutrinas_e_pecas/ver/31290
Não é de hoje que tenho vontade de escrever sobre a
situação da Universidade brasileira. Contudo, preocupações outras sempre me afastaram
da idéia.
Entretanto, nos últimos dias, ouvindo tantas
promessas em relação ao ensino superior, senti que, na condição de PROFESSOR
TITULAR CONCURSADO À MODA ANTIGA, tinha o dever, depois de 36 anos na
Universidade (1972-2008), com todos os escalões conseguidos pela porta larga do
concurso público, e com a experiência de ex-Diretor da Tradicional FACULDADE
DE DIREITO DO DIREITO (1ª criada no Brasil, logo em alguns segundos
veio São Paulo), já não, podia mais silenciar. Fazê-lo, significava permitir
que recaísse sobre meus ombros o pior dos crimes e o que mais combato: o da omissão,
próprio dos covardes.
Na verdade, desde o Gov. COLLOR que a Universidade
desmoronou-se. No clima de ameaças, professores foram se aposentando, outros
morrendo e nada se fazia para substituir. Vieram os outros governos, e a linha
foi a mesma, culminando com a falta de professores para as Faculdades Públicas,
pois diante de seus níveis, surgiram as particulares que levavam para elas o
que havia de bom e melhor.
Surge a febre dos Mestrados e Doutorados (tenho 3,
1 Mestrado, 2 Livre Docência e 2 Concursos de Professor Titular pelas costas,
logo posso falar). A corrida foi geral: abrem-se os cursos com um percentual de
destitulados, desde tenham notório saber (Deus sabe como é este
identificado).
Ao mesmo tempo, surgiram os convênios nos quais as
Universidades que tinham Pós-Graduação iam ajudar quem não tinha
professores, mas tinha dinheiro para pagar coordenadores, professores,
mordomias, etc... Resultado: em pouco tempo, como se diz no popular, em cada
esquina uma pós. Conteúdo: quase nenhum, pois não foram poucos os casos em que
os convênios apontavam nomes sérios e a coordenação enviava outros professores,
muitas vezes sem a titulação exigida para ministrar tais aulas.
Este lado não é o que mais me interessa no momento,
mas sim, o conteúdo da entrevista dada pelo Prof. RENATO JANINE RIBEIRO (Folha
de SP, 27.1.2008, Caderno Especial, p. 4), quando afirma que agora o importante
na avaliação é a produção dos professores.
Ora bolas, a produção é do professor, mas quem
ganha é a instituição? Fazer bonito com a roupa do outro, como tenho dito em
meus últimos livros?
Neste sentido (podem ver como egoísmo) o que
produzo (e está no LATTES) é de minha propriedade, constitucionalmente
assegurado, sobretudo, quando o professor não faz parte do pequeno grupo
dos que têm acesso aos recursos financeiros das chamadas Agências de
Fomento.
Na área do Direito, quando era Diretor da
Faculdade, recebi uma resposta de que as revistas não seriam renovadas porque
estavam na Internet. Realmente, tinha revista de todos os assuntos, menos
jurídicos.
Há, pelo que já notou o leitor, um golpe que vem
sendo dado no ensino superior: a) – um grande número de professores é
substituto (6 ou 12 meses não sei hoje): b) – os alunos das Pós, em certos
casos, são obrigados a estágio docente, o que significa que a Universidade tem
professor que não lhe dá despesa, mas é estagiário. Há aqui uma grave
realidade: como quase sempre o estagiário vem porque não tem professor suficiente
na Graduação, ele é estagiário dele mesmo. Não há professor supervisor, salvo
quando poucos que têm o dom da onipresença, estão em várias classes ao mesmo
tempo, supervisionando o estagiário.
É hora de dizer a verdade, hora esta que já está
atrasada e muito.
Veja como define o Dr; RENATO JANINE RIBEIRO a
“produção intelectual: publicações qualificadas do programa por docente
permanente”.
Pergunto: Sabe o leitor o que significa produzir um
artigo ou um livro? Horas de pesquisa, fins de semana perdidos, pois com o
salário do professor universitário ele é obrigado a ter outra profissão, que
lhe garanta o sustento, e o que ganha na Universidade sustentará os extras.
Quero que qualquer um apresente o holerite de que
ganha 10 mil reais por mês como professor, como tem sido dito por ai. De quem
mais a categoria esperava, o sr. FERNANDO HENRIQUE, nada foi feito, a não ser o
demagógico aumento de vagas para a graduação, sem aumentar o número de
professores. Aliás, o sr. PAULO RENATO no mesmo jornal vem se empolando de ter
feito muitas coisas, esquecendo-se que prometer é uma coisa, FAZER É OUTRA.
Ai eu falo de Cátedra, pois quando assumi a
Faculdade de Direito, o acordo do ex-Diretor com o Reitor era duplicar as vagas
e os professores. As vagas foram duplicadas, professores nada. Foi quando se
descobriu (este que escreve, o próprio Reitor,o Des. Federal Francisco
Cavalcanti e o ex-Vice-Diretor) que o prédio do antigo MEC estava desocupado.
Ocupava a Presidência o Vice-Presidente MARCO
MACIEL (professor da mais ampla extensão da palavra) e quando lá chegou o
Reitor MOZART NEVES, havia um Ato para ser assinado, levado pela Min. CLÁUDIA
COSTIM levando o prédio para a hasta pública (era o único caso no Brasil.; As
demais tinham ido para a as Universidades).
Acontece que descobrimos que o prédio era da
Universidade, não do Ministério, a quem sido cedido. E foi a salvação. Hoje é
da Faculdade de Direito do Direito onde funciona a Graduação, e onde os alunos
têm grátis, um belo banho de sauna, pois os aparelhos de ar condicionado quase
nunca funcionam.
Enquanto isto, depois de promessas e mais
promessas, o velho e tradicional prédio da Faculdade está em reformas, pois um
pedaço do seu teto caiu quase atingindo a professora que dava aula.
Tem mais coisa para ser dita. Quem quiser saber,
estou às ordens.