As razões de Stanislaw e De
Gaulle
Carlos
Nina
Membro do Instituto dos Advogados
Brasileiros
Tenho sido questionado sobre minha posição em relação a José Sarney,
especialmente desde o artigo em que declarei que, no segundo turno das eleições
de 2006, votaria em Roseana. No Portal do Mhário
Lincoln o artigo recebeu mais de uma centena de comentários, na maioria contra
minha posição. Em outros artigos posteriores – e antes também já havia escrito
em favor da Governadora – tratei de fatos que envolviam José Sarney, não para
dizer que não merecesse críticas, mas para demonstrar que nas campanhas que o
elegeram como o culpado de todos os males causados ao Maranhão havia inverdades
e má-fé. E expliquei: ainda que Sarney tivesse culpa, não deveria ser
crucificado sozinho, pois muitos eram os que viviam às custas
do seu prestígio e do poder que ele sempre representou. E muitos usaram esse
poder à revelia do próprio Sarney, que, contudo, assumia pelo silêncio as
maluquices de seus aliados, muitos dos quais o
renegaram ou traíram-no, ao supor que seu poder havia se esvaído. Quiseram dar
uma de Brutus e esqueceram o discurso de Marco Antônio, após a morte de Júlio
César.
Daí, quando tropeçam nos próprios pés e pela mesma voz
da deslealdade com que o teriam afastado do poder no Maranhão esse poder lhe é
devolvido, desesperam-se e atacam o Judiciário com ferocidade, arquitetando e
propalando impunemente um movimento de violência para tentar reverter a decisão
da Justiça que cassou o mandato do Governador do Maranhão.
Isso é parte do enredo do Samba do Crioulo Doido, decantado por Stanislaw Ponte Preta. Coisa desse gênero deve ter insinuado
a frase atribuída a De Gaulle:
“Isto não é um País sério”.
Como se não bastasse ou como se não houvesse fatos mais escabrosos para serem
apurados ou noticiados, envolvendo desafetos do Sarney, a campanha se volta
para Fernando e Roseana Sarney. Não estou, aqui, querendo defender a
impunidade. Fatos denunciados devem ser apurados e punidos, seja contra quem
for a acusação. O que me causa indignação é o destaque
dado a determinada faceta da questão, omitindo-se
circunstâncias que deveriam ser levadas ao conhecimento público.
No caso de Fernando Sarney, atacaram-no pelo fato de que seus advogados usaram
habeas-corpus para ter acesso a informações do Inquérito Policial instaurado
contra ele, como se isso fosse ilicitude. Ilegalidade, na democracia, é negar
esse acesso ao investigado. E aqui volto a lembrar o caso da fraude de meio milhão
praticado por ex e atuais dirigentes da OAB e da própria CAAMA. Ninguém se
escandalizou quando a própria OAB impetrou habeas-corpus para impedir essa
apuração. Não conseguiu, mas, soube esta semana, o Inquérito foi arquivado
porque a fraude não teria constituído crime. Ou seja: fizeram desaparecer um
crédito da CAAMA de meio milhão de reais criando um débito equivalente,
retroativo a exercícios financeiros cujas prestações de contas, já aprovadas
pelos Conselhos Estadual e Federal, não registrava. Nem poderiam, simplesmente
porque não existiam.
Pela lógica da manifestação do Ministério Público Federal e da Justiça Federal,
criminosos somos nós, os advogados que denunciamos a fraude, e os
ex-presidentes da CAAMA, Roque Macatrão e Fernando
Castro, que declararam publicamente que a dívida – que era referente ao período
em que dirigiram a entidade - inventada no Termo de Transação firmado entre os
dirigentes da OAB e da CAAMA nunca existiu.
Como respeitamos decisão judicial e não recorremos, mesmo vendo nessa decisão
um estímulo à impunidade, não vamos incitar ninguém a reagir com violência ou
atacar o Procurador e o Juiz que assim decidiram. Respeito e compreendo os
motivos de seu convencimento. Mas é sintomático que a mídia que cobra de
Fernando Sarney o direito legítimo de ele ter acesso a documentos usados contra
ele em Inquérito Policial não registre o fato de que um Inquérito que deveria
apurar uma fraude de meio milhão de reais ocorrida dentro de uma instituição da
importância da OAB tenha sido arquivado.
Aqui fica o registro, que
pode servir como referência jurisprudencial para
agentes públicos que, em situação semelhante e querendo evaporar verbas
públicas, criem, também, dívidas retroativas para se livrar da obrigação. Para
quem quiser conhecer e usar o caso, o Inquérito é o de número
2004.37.00.002512-0 e tramitou na 2ª Vara da Justiça Federal no Maranhão.
Quanto à Roseana Sarney, entendo que deve ser apurada a acusação de que teria,
irregularmente, usado passagens de sua quota do Senado para beneficiar amigos
seus. O que me pergunto é se dentre essas pessoas que agora atacam Roseana,
Fernando e Sarney não estão pessoas que já os procuraram para pedir passagens e
outros favores. Atendidos, devem ter agradecido humildemente a generosidade e
não visto nenhuma irregularidade.
Pergunto-me, ainda, quantos parlamentares não usam essa quota de passagens para
atender favores.
Repito que não estou aqui defendendo irregularidade nem impunidade para ninguém,
mas, ainda que houvesse irregularidade nessa história das passagens da
Governadora, eu me pergunto: por que seria crime essa generosidade se um grupo
de advogados, num simples documento, faz desaparecer uma dívida de meio milhão
de reais de uma instituição e a Justiça diz que isso não constitui crime?