A grande fraude

Cristovam Buarque

Senador e professor da Universidade de Brasília (UnB).

25.11.2009


Há décadas, indicadores denunciam o trágico quadro da educação de base. Mas foi preciso o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ser usado no lugar vestibular e ser vítima de uma fraude para que a situação do ensino médio aparecesse. Enquanto o Enem não estava ligado à universidade, seus resultados mereciam pouco destaque, ainda que indicassem uma tragédia.


Quando se pergunta como explicar essa vergonha educacional em uma das grandes potências econômicas do mundo, a resposta está na preferência brasileira pelo topo da sociedade, não pela base. Cuidamos mais das universidades do que da educação de base.


Um exemplo é que a quase totalidade dos que defendem cotas raciais para ingresso na universidade não lutam pela abolição do analfabetismo, nem pelo aumento no número dos jovens negros que terminam o ensino médio. Outro exemplo é o Brasil se preocupar com o fato de termos apenas 13% dos jovens de 18 a 24 anos -chamada idade universitária -cursando a universidade, sem considerar que apenas um terço dos alunos que se matriculam no ensino médio consegue concluí-lo. Hoje, o número de vagas para ingresso na universidade é de 2,8 milhões, maior do que o número dos que terminam o ensino médio, 1,8 milhão. Mas as mobilizações são pelo aumento de vagas na universidade, e não pela conclusão do ensino médio.


O resultado é uma universidade sem base: os alunos entram sem condições de seguir plenamente o curso que escolheram e sem base complementar ao conhecimento específico de seu curso.
As universidades sofrem um dilema: ficar com vagas ociosas ou ter vergonha dos alunos.


Mesmo os que terminam o Ensino Médio recebem uma formação deficiente. De acordo com o PISA - que avalia o resultado da educação no mundo -, em 2006, 55,5% dos alunos brasileiros foram reprovados com nota abaixo do nível 2, na escala até 5. E 27,8% deles ficaram abaixo do nível 1. A educação de base do Brasil está em 39.º posição entre 56 participantes. Atrás de países como Jordânia e Indonésia, cujas rendas per capita são R$ 8.160 e R$ 5.950, respectivamente, bem menores do que a brasileira, que é de R$ 16.490.


A grande fraude não está no vazamento de informações nas provas para o Enem -vestibular para ingresso na universidadee, mas nos resultados do Enem -avaliação da qualidade do ensino básico no Brasil. Termos notas tão baixas no Enem é uma fraude maior do que o crime de se apossar dos resultados das provas do Enem. E essas notas medem apenas o desempenho dos alunos que concluem o ensino médio, sem considerar os que ficaram para trás. A fraude das fraudes é apenas um terço dos nossos jovens concluírem o ensino médio, e de pouca qualidade. Quase universalizamos as matrículas nas primeiras séries do ensino fundamental, mas desprezamos a assistência, a permanência e o aprendizado.


A verdadeira e grande fraude do Enem está escondida: é a exclusão e o baixo desempenho dos alunos do ensino médio. A fraude é o ensino, e não o Enem.


Mas a grande fraude - a exclusão dos jovens e as baixas notas do Enem - não importava para a opinião pública, até que ela ameaçou a lisura da seleção para entrar na universidade. A grande fraude era invisível. A maior fraude não está na ilegalidade de quebrar o sigilo das provas, mas no péssimo e imoral desempenho dos que nelas passaram.


Se a solução para a fraude menor está em melhorar o sistema de preparação das provas, incluindo o sigilo, a fraude maior só será superada por uma revolução na educação de base. Entre as ações estão a criação de uma carreira nacional do magistério e um programa federal que assegure a todas as escolas horário integral, com professores bem formados, bem dedicados, bem remunerados e com acesso aos mais modernos equipamentos.


Felizmente, a sociedade começa a despertar: o movimento “Todos pela Educação” reúne empresários; o “Pacto pela Educação”, promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) reúne cientistas; o “Movimento Nacional pela Educação” reúne os maçons; o “Movimento Educacionista” reúne sobretudo os jovens.