A VIOLÊNCIA COMO LOGOMARCA
(ou Agora é a vez do povo ... levar
porrada)
Carlos Nina
Advogado, membro do Instituto dos Advogados
Brasileiros
Longe de mim imaginar que o Governador Jackson Lago seja um homem violento ou
que, pessoalmente, a aprove. Nem as decepções que proporcionou aos que o
admiravam justificariam imaginar tal hipótese. Contudo, é inegável que seu
governo está marcado pela violência, especialmente a policial.
A reincidência, porém, dessa
violência, evidencia a omissão e a incompetência das autoridades responsáveis
pela segurança pública, não podendo, porém, escapar dessa responsabilidade, o
Chefe maior.
O covarde,
bárbaro e cruel assassinato de Gerô, por policiais,
inaugurou o que está
sendo a logomarca do atual Governo: “Agora é a vez do povo ... levar porrada”.
Gerô não foi a
primeira vítima da violência cometida no atual Governo, mas as outras não foram
suficientes para divulgar essa característica. Daí era preciso alguma coisa que
repercutisse, para que não houvesse dúvidas. Gerô
pagou o preço da nefasta publicidade.
Como o povo (exceto os já
alcançados pela sanha policial) não toma conhecimento da tortura, da violência,
dos abusos que são cometidos diariamente nas dependências dos órgãos de
segurança pública e nos domicílios de pessoas humildes, era preciso relembrar a todos que a truculência policial estava de prontidão,
especialmente a serviço dos amigos do poder, claro, porque, para os humildes,
gente do povo, o refrão é o mesmo: “Agora é a vez do povo ... levar porrada”.
Há algum tempo liguei para a
Polícia a fim de informar que havia pessoas suspeitas invadindo uma casa.
Pediram o nome de meu telefone. Informei meu nome e o telefone e expliquei da
urgência. Fui informado de que só poderiam mandar
alguém depois de eu responder a umas perguntas. Comecei a responder mas, ao ver
que eram muitas, pedi que, enquanto eu respondesse, ela mandasse alguém.
- Negativo, primeiro, o
cadastro, depois, o atendimento.
Não disse o que o ímpeto me
sugeriu, mas desliguei o telefone e tomei, eu mesmo, medidas para afugentar os
invasores. E rezei. Já tinha sobrevivido a um seqüestro, Deus, com certeza,
mais uma vez me ajudaria.
Agora, vejo no noticiário a
prisão absurda, arbitrária, ilegal, imoral, de um cidadão – Francisco Escórcio -, com direito ao escândalo necessário para
difundir a logomarca governamental.
O Maranhão seria um paraíso
se a Polícia fosse tão diligente no atendimento de chamadas semelhantes feitas
por outros cidadãos, independentemente de sua condição social ou de suas
ligações com o Poder, morais ou imorais que sejam. Não precisaria nem prender,
especialmente sem flagrante ou sem ordem judicial, como fez com o ex-Senador.
Bastaria cumprir a sua obrigação, atender aos chamados, informar-se, tomar as
medidas cabíveis, sem, jamais, prestar-se à subserviência, à ilegalidade, ao
abuso, ao desrespeito, à truculência, para agradar quem quer que fosse.
O episódio da prisão de
Francisco Escórcio é uma prova inequívoca de que a
Polícia do Maranhão, pela conduta de alguns policiais, está a serviço de
interesses pessoais, se não de escusos e sórdidos propósitos
político-partidários da pior espécie, que se sobrepõem à moralidade, à
decência, à responsabilidade com que deveriam agir os policiais.
Se assim o fazem,
impunemente, têm o apoio implícito, se não explícito, de seus superiores,
inclusive do Chefe maior, cuja omissão é um atestado de que está satisfeito com
a marca da truculência policial como marca preponderante de seu Governo.
Francisco Escórcio,
assim como o jornalista Luís Cardoso, chantageado
para ter proteção, como ele próprio denunciou, é mais uma vítima da
ressurreição do uso imoral da polícia para intimidar
adversários.
Àqueles que aplaudiram essa
ignomínia, um lembrete: quando se aprova esse abuso, ainda que seja com o
silêncio, corre-se o risco de ser, também, sua vítima. O riso de hoje pode ser
o sofrimento, a lamentação e o choro de amanhã, se não reagirmos ao arbítrio e
à violência policial. Essas coisas não acontecem apenas com o vizinho.
Se quisermos uma sociedade
decente, se queremos ser respeitados, devemos respeitar e exigir que os outros
também o sejam, quer se trate de presos, vítimas do abuso
policial, quer sejam humildes cidadãos, vítimas diuturnas do arbítrio
policial.
Da mesma forma são
dignos de respeito o jornalista Luís Cardoso e o ex-senador da República
Francisco Escórcio, com os quais me solidarizo em
face dos abusos e das violências de que foram vítimas.