A Previdência paulista
O Estado de S. Paulo – SP
02.04.2007
Para não os identificar, o
secretário da Fazenda de São Paulo, Mauro Ricardo Costa, usa a expressão “forças ocultas” para se
referir aos grupos que criam obstáculos à votação, pela Assembléia Legislativa,
dos projetos de emenda constitucional que enquadram o regime previdenciário do
governo paulista às normas da reforma proposta pelo governo Lula e aprovada em
2003. São conhecidos, porém, os principais focos de resistência aos projetos:
as corporações que representam os interesses de diferentes carreiras do
funcionalismo, especialmente as ligadas aos servidores da Assembléia, ao
Judiciário e ao Ministério Público Estadual. O atraso na votação é ruim para as
finanças do Estado por vários motivos. No entanto, um deles, pelo menos,
deveria servir de alerta para os deputados estaduais e fazê-los enfrentar as
resistências corporativas: sem o estabelecimento de novas regras para o regime
previdenciário estadual, compatíveis com as definidas pela reforma de 2003, o
governo paulista não terá renovado o Certificado de Regularidade Previdenciária
(CRP), cuja validade expira em 27 de maio.
O CRP, documento que atesta a regularidade do regime de previdência dos
servidores estaduais e municipais, é emitido pela Secretaria de Previdência
Social do Ministério da Previdência, desde que o interessado (governo estadual
ou prefeitura) comprove que cumpre a lei. Os critérios e exigências para a
emissão do CRP são aqueles determinados pela reforma de 2003, como: estabelecimento
de regime de contribuição definida, com alíquotas fixadas em lei; cobertura exclusiva para servidores concursados
e titulares de cargos efetivos;
utilização dos recursos exclusivamente para o pagamento de benefícios
previdenciários; e garantia de informações claras aos participantes sobre a
gestão dos recursos.
Não se trata de um fato meramente burocrático. Sem o CRP, o governo paulista
não poderá obter transferências voluntárias de recursos da União; não poderá
celebrar acordos, contratos, convênios ou ajustes com o governo federal; ficará
impedido de obter financiamentos de instituições financeiras federais, como o
BNDES e a Caixa Econômica Federal, e de outros órgãos da União; e não terá
direito a repasses de compensações previdenciárias.
Até agora, o governo paulista tem conseguido renovar o CRP
graças a liminares judiciais. Até
quando conseguirá se valer desse recurso?
Se esse risco imediato não os sensibiliza, os deputados paulistas deveriam
levar em conta os graves problemas estruturais do sistema previdenciário do
Estado de São Paulo e o custo que ele impõe à
sociedade, para compreender a
urgência do problema e assim acelerar sua decisão sobre os projetos em
tramitação na Assembléia.
Como mostrou reportagem de Carlos Marchi publicada em
25 de março pelo Estado, a Previdência paulista tem rombo
mensal de R$ 833 milhões, dinheiro
que daria para construir mensalmente 46 mil casas populares. Por ano, o Estado
arrecada R$ 2,5 bilhões de contribuições previdenciárias, mas os benefícios
pagos totalizam R$ 12,5 bilhões.
O sistema estadual é confuso, disperso e tem regras diferentes para cada caso.
O Instituto de Previdência do Estado de São Paulo (Ipesp),
o órgão previdenciário estadual, administra carteiras de aposentadoria de
advogados, economistas e servidores cartorários, mas sem critérios atuariais.
Como resíduo de velhos privilégios, a Polícia Militar paga pensão para 17 mil
filhas de ex-oficiais. A Secretaria da Fazenda é responsável pelos aposentados
do Poder Executivo, mas os funcionários da Justiça, do Ministério Público, da
Assembléia Legislativa, do Tribunal de Contas, das três universidades estaduais
e de muitos órgãos da administração indireta contam com regimes próprios.
Os projetos em tramitação na Assembléia criam a São Paulo Previdência (SP-Prev) e estabelecem as novas regras para os servidores
estaduais. Eles foram apresentados há um ano e meio pelo então governador
Geraldo Alckmin. É compreensível que, neste início de legislatura, os novos
deputados estaduais necessitem de certo tempo para examinar o assunto. Mas eles
precisam fazer isso com a presteza que o problema exige e tendo em vista os
interesses de São Paulo, sem se render às pressões
corporativas.