A OAB-SP quer preservar seu cartório
Coluna
- Elio Gaspari
O
Globo
30.07.2008
A Seccional paulista da Ordem dos Advogados
do Brasil (filial da sacrossanta OAB) é incorrigível. Em 2007 anexou-se ao
movimento "Cansei", uma pitoresca manifestação de pessoas dispostas
ao sacrifício peripatético das manifestações de rua.
Além disso, enviou ao Tribunal de Justiça uma lista sêxtupla
de candidatos ao lugar de desembargador com um aspecto burlesco: um deles havia
sido reprovado dez vezes em concursos para o cargo de juiz. Agora está em
litígio com a Defensoria Pública porque, desatendida no pleito pecuniário,
contesta o direito do Estado de apontar advogados para ocupar uma função
pública.
A Defensoria é um serviço pelo qual a Viúva
paga assistência jurídica para o andar de baixo. Como se trata de instituição
recente, tem poucos quadros. Em
A OAB paulista não quer perder a
intermediação, coisa de R$270 milhões no ano passado, e anuncia que vai aos
tribunais. Boa idéia. A Defensoria sustenta que, com seus quadros, atendeu 850
mil cidadãos, gastando apenas R$75 milhões e já começou a cadastrar advogados.
Apareceram 1.300 candidatos. Esses números
são contestados, mas o miolo da história continua no mesmo lugar: a OAB quer o
privilégio da manutenção de um serviço público nas funções de uma guilda profissional. Fica o contribuinte na pior das
situações, a de ter que pagar pelo funcionamento de duas estruturas condenadas
à superposição e, pior: ambas insinuam que a outra cobra demais pelo serviço
que faz.
Se ficar o bicho pega, se correr o bicho
come.
A seccional paulista da Ordem é hoje um
empreendimento milionário, com "uma estrutura física e humana
grandiosa". Seu orçamento de 2008 chegou a R$182 milhões. Em
Toda vez que as prerrogativas dos advogados
são ameaçadas, algo de ruim está acontecendo, mas os doutores jogam carga demais
nos ombros dos cidadãos. Pode-se aceitar que seus escritórios sejam
invioláveis, caso eles não estejam sob investigação. É a eterna batalha do
direito do indivíduo ameaçado pela prepotência do Estado. É demais pedir que
uma mesma pessoa defenda também a privatização da Defensoria Pública.
Nesse caso, o que há é outra batalha,
aquela pelo bolso do contribuinte.
Tudo ficaria mais
fácil se as funções fossem simplificadas: advogado é advogado, a Ordem é a
Ordem e o serviço público é do Estado.