A LEITURA DEVIA SER
PROIBIDA
Guiomar de Grammon
graduada em História, Licenciatura Plena e
Bacharelado, pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade
Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais. In: PRADO, J. & CONDINI, P.
(Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de
Janeiro: Argus, 1999. pp.71-73.
A pensar fundo na questão, eu diria que ler
devia ser proibido.
Afinal de contas, ler faz muito mal às
pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de
suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura,
desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me
deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler
aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a
crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e
ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para
fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê
pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo,
induzido a crer que tudo
pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder
incontrolável. Liberta o homem excessivamente.. Sem a leitura, ele morreria
feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria
mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem
procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão
do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: O conhecer. Mas
para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas
executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer
com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser
longos. Ler pode gerar a invenção.
Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é
devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a
imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem
enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida
é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há
horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse
pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais,
não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela
aventura e pela descoberta que
fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro
patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer
guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode
estimular um curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a
repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres
humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo
administrado, onde ser livre não passa
de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e
organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se
todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo,
a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez
mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários,
contratos, bulas de remédio,
projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da
civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem
magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o
tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que
lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo
do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se
enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido
apenas a alguns, jamais àqueles
que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no
silêncio da alcova... Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o
poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o
silêncio é a linguagem da submissão.
Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação
de dores, alegrias, tantos outros sentimentos... A leitura é obscena. Expõe o íntimo,
torna coletivo o
individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos,
porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes
de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente
humano.