A EDUCAÇÃO LIVRE DA MARCA DA BESTA
Por Klauber
Cristofen Pires
25.05.2009
Inspirado no
artigo “A Marca da Besta: A Educação do Futuro”, de Julio Severo.
“[A Besta] obrigou todas as pessoas, importantes e humildes, ricas e pobres,
escravas e livres, a terem um sinal na mão direita ou na testa. Ninguém podia
comprar ou vender, a não ser que tivesse esse sinal, isto é, o nome [da Besta]
ou o número do nome [dela]”. (Apocalipse 13:16-17 BLH)
Sou um dos raros casos de pessoas que alcançam a maioridade antes dos vinte e
um anos, eis que me formei, aos vinte, em curso de nível superior, como oficial
da Marinha Mercante. Logo depois da minha formatura eu já comecei a trabalhar
e, aos vinte e um anos, casei-me com o amor da minha vida, com quem permaneço
até hoje. Este fato ressurge em minhas lembranças como uma espécie de
privilégio após ter lido – e constatado – as palavras certeiras do artigo de
Julio Severo, “A Marca da Besta: A Educação do Futuro”.
Com efeito, no seu texto, o articulista pró-familia
evidencia o drama dos adultos jovens cristãos que, no auge da vitalidade, e
tendo de estudar por anos a fio em busca da independência financeira, vivem o
drama de ter de optar entre a abstinência sexual até o dia do casamento ou
entregar-se antes dele.
A nossa abordagem procura dar um complemento, à luz do liberalismo econômico, a
esta realidade que poucos hoje enxergam, mas que pode estar contribuindo
decisivamente para a decadência de nossa sociedade. Como tenho escrito em
outros artigos anteriores, a educação formal brasileira – na verdade de todo o
mundo atual – acumula disciplinas as mais das vezes absolutamente inócuas para
a formação de um indivíduo.
Quando eu era aluno do nível médio, eu era excelente em Química Orgânica:
causava-me orgulho em declamar a fórmula da gasolina, assim como toda sorte de
ligações covalentes, benzenos e fenóis. Hoje, à beira dos quarenta, constato
que tudo aquilo não de serviu de absolutamente nada! Ora, se nem nas usinas
petrolíferas é necessário saber a fórmula da gasolina para produzi-la, mas sim
o seu processo de produção, será que os então organizadores do currículo
esperavam que eu fosse produzi-la na minha garagem para a
vender?
Do primeiro ano do meu curso de Direito, constatei que, de vinte disciplinas
ministradas naquele período, apenas duas – isto mesmo – apenas duas (!) tinham
alguma serventia. Analisando friamente, gastei um ano de minha vida a estudar
assuntos que em nada me interessavam, assuntos sobre os quais inclusive
mantenho discordâncias, e gastei nisso uma boa quantia em dinheiro, só porque –
e só porque - era o estado quem queria que eu os estudasse.
Há quem venha defender que tais cursos sejam importantes para uma formação
ampla e cidadã de um advogado, neste caso, ou de qualquer outro bacharel.
Bobagem! Certo é que o domínio de conhecimentos gerais seja importante para
qualquer pessoa, e que tanto pode se sair melhor profissionalmente quem os
detenha. Contudo, estes conhecimentos podem ser consolidados no decorrer da
vida e buscados espontaneamente em fontes especializadas; ademais, a presença de tais cursos nos currículos escolares e superiores tem
muito mais a ver com reservas de mercado de trabalho, agregação de valor ao
produto por parte das instituições de ensino e principalmente, ao projeto do
estado, no sentido de doutrinar as pessoas a fazerem o que ele quer que elas
façam, o que, segundo a pertinente interpretação bíblica de Julio Severo,
significa carregarem “a marca da besta”.
As reservas de mercado dizem respeito aos profissionais que obtém vagas de
trabalho por força de lei. Longe de prestarem um serviço voluntariamente
contratado pela população, isto é, de oferecerem algo que as pessoas
naturalmente procuram para satisfazer às suas necessidades mais urgentes,
usaram do estado, por força de lobbies, para obrigar instituições de ensino a
ministrar os cursos em que se formaram. Isto aconteceu recentemente com os
cursos de Filosofia e Sociologia, por exemplo.
No texto de Severo, há uma referência ao fato de o mercado exigir qualificações
cada vez mais complexas como condição de admissão. Embora tenha dito uma
verdade, é preciso aqui fazermos uma análise criteriosa: o mercado não exige
diplomas; o mercado exige competências. O problema é que é o estado quem exige,
por lei, que determinadas empresas contratem determinadas profissões. Assim é
que uma empresa com mais de duzentos empregados precisa
contratar um nutricionista, por exemplo, ou uma empresa de administração de
condomínios precisa contratar um administrador ou uma drogaria, um
farmacêutico. Quando não há uma exigência explícita em lei, as competências
estão insertas dentro de currículos abusivamente inchados.
Dentro de um regime hipoteticamente livre de mercado, naturalmente os melhores
empregos restariam justamente aos mais capacitados. Isto é justo, na medida em
que estas pessoas, ao fazerem as suas escolhas, também se submeteram a sacrifícios pessoais maiores do que a média dos seus
concorrentes. Todavia, sempre haveria condições de emprego para as pessoas
medianas, desde que as proibições de contratar ou a limitação ao exercício
deste direito seriam inexistentes por parte do estado.
Daí concluir que o excesso de profissionais desempregados nunca foi um problema
criado pelo mercado. Com o deságüe anual de dezenas de milhares de novos
profissionais pelos cursos superiores mantidos pelas universidades públicas (e
agora por instituições privadas subvencionadas por dinheiro público) em número
divorciado e muito superior à emergência de empreendimentos econômicos, era
natural que houvesse um contingente de não-empregados. Estes desempregados,
logrados por falsas expectativas criadas pelo estado, provocaram a demanda
política por alocações compulsórias no mercado de trabalho, e é por isto que
pagamos mais caro por cada produto que adquirimos ou serviço que contratamos.
A marca da besta, aqui, também se constata de forma categórica por meio dos
chamados conselhos de classe ou ordens profissionais, instituições sobre as quais
também já escrevi a respeito, e que decidem quem é que
pode ou não trabalhar.
O aumento do valor agregado ocorre por conta da situação de superioridade da
instituição de ensino formal face ao indivíduo, já que esta detém a delegação
de fornecer-lhe um diploma. Antigamente, em um mundo mais livre, uma pessoa
estudava para adquirir conhecimento, para com ele oferecer um serviço mais
eficiente e satisfatório aos seus semelhantes. Isto significava que esta
pessoa, em geral, já se encontrava inserta em um ambiente de trabalho qualquer,
e que procurava estudar objetivamente aquilo que interessava ao seu mister, sem
desperdício de tempo ou de dinheiro. Atualmente, em via contrária, as pessoas
não estudam para adquirir o conhecimento de que sentem necessidade, mas para
tão somente obterem o direito de trabalhar! Trabalhar tornou-se não mais um
direito inerente à pessoa, mas uma concessão do estado, do qual se torna refém
o indivíduo, desde que ele tem de se submeter ao inchamento da grade curricular
convenientemente e lucrativamente estipulada pelas instituições formais de
ensino, se é que quer sair dali um dia com um diploma na mão.
Por fim, e principalmente, vem o interesse estatal, que ocupa a maior parte da
grade curricular para doutrinar o estudante segundo a vontade da sua burocracia
e segundo a ideologia da sua deificação e da anulação do ser humano. O aborto e
a eutanásia entram bem neste esquema, desde que seja demonstrado que fetos e
velhos doentes valham como engrenagens não desejadas ou já gastas, que não têm
serventia à máquina. Controlar a natalidade e a mortalidade é uma necessidade
para o estado, já que é ele quem controla também a produção, o emprego e o
consumo e é ele também quem se encarrega de pagar a previdência e a saúde.
Logo, é necessário evitar que pessoas novas nasçam em um mercado de trabalho
para o qual ele não tenha criado novas vagas, bem como é preciso economizar
recursos com aqueles que já não têm nada a contribuir.
Possivelmente muitas pessoas que tenham lido o que jaz acima procurem, mediante
um esforço sadio e bem-intencionado de raciocínio, criticar as minhas posições.
Contudo, vejam: por acaso, os maiores empresários do país necessitaram de um
diploma de administradores para construírem seus impérios econômicos? E quanto aos
maiores jornalistas, tiveram de obter o canudo previamente? E os maiores
filósofos e inventores que a humanidade já conheceu, também passaram a vida sentados em bancos escolares?
Estas são provas concretas de que uma educação liberal é capaz de fornecer
profissionais mais capazes, com uma notável economia de recursos e alocação dos
profissionais no mercado de trabalho, de modo que se formem onde sejam
necessários, e principalmente, que possam construir a vida privada logo no
início da vida adulta.
Tente, por um minuto, cair em si para perceber o colossal desperdício que é
manter improdutiva toda esta população estudantil que já poderia estar
trabalhando desde os dezoito anos de idade ou até ainda mais cedo. Na melhor
das hipóteses, uma pessoa se forma em um curso de nível superior aos vinte e
três, e às vezes não pega o seu diploma até os vinte e sete ou vinte e oito
anos. Considerado o tempo até que consiga seu primeiro emprego e o que é ainda
mais difícil, consiga alguma estabilidade financeira, teremos um quadro normal
de completa improdutividade que não raro beira os trinta anos de idade.
Ocorre que, nesta idade, a fertilidade das mulheres já começa a experimentar
uma sensível diminuição, e isto explica em boa parte a baixa taxa de natalidade
que hoje assola a Europa e até o Brasil das classes rica e média, com um sério
perigo para o desaparecimento da sociedade, a começar por quem seria a elite
que teria o dever de conduzir o restante da população mediante o exemplo e o
empreendimento.
Em um regime de educação livre, as pessoas poderiam começar a trabalhar desde o
início da adolescência, e ir assim conciliando paulatinamente a prática com a
teoria, e aprofundando seu conhecimento com cursos livres. Dizer que
adolescentes poderiam e mesmo deveriam trabalhar não é nada imoral, antes o
contrário: grandes homens se formaram no aprendizado real que o mercado lhes
apresentava. Aos seus dezoito ou vinte anos, eram pessoas responsáveis,
habilidosas, seguras e confiantes, em muito diferentes dos pseudo-doutores
de hoje que saem das cátedras sem saber como se aperta um parafuso, como se
redige uma petição ou como se faz uma sutura.
Além disso, tais pessoas são mais imunizadas contra as teorias espúrias que o
estado lhes tenta imputar, justamente porque aprenderam a ser pragmáticas e a
confrontar a teoria com a prática. No ensino atual, interessa ao estado que
esta conciliação não se opere, desde que este sabe o quanto são
disfuncionais.
Quer o leitor uma evidência muito clara da dissociação entre o ensino formal e
a função que este exerce para a sociedade? Olhe em torno das faculdades e me
diga o que você vê: por acaso enxerga livrarias, sebos, ou empresas de
tecnologia de ponta? Não, é claro! O que você enxerga são barzinhos, não é?
Dezenas deles! E algumas máquinas reprográficas também! Este é um sintoma muito
decisivo para demonstrar que as pessoas não estão com a cabeça nos estudos; não
almejam os estudos como uma meta; estão ali é à espera do canudo, cumprindo as
formalidades. De certa forma, elas agem de uma forma racional: fingem estudar para um sistema que finge lhes ensinar. Não
raro, professores que bebiam nos bares adjacentes à minha faculdade vinham dar
aula com sintomas de influência alcoólica, e voltavam aos copos após o
cumprimento dos seus horários, junto com os demais alunos cabuladores.
Ao fim de um curso, é mais provável que um acadêmico adquira uma cirrose do que
algum conhecimento sobre a área em que pretende atuar.
Note o leitor como a educação formal faz com que tantas quantas figuras passem
a decidir o que você tem de estudar, exceto o primeiro interessado, que, ora
bolas, era pra ser você mesmo! Não é para menos que seus estudos formais
atendam antes os interesses destas entidades do que os seus próprios.
A esta altura, alguns leitores poderão, atônitos, perguntar se defendo, por exemplo, que alguém sem o diploma de engenharia
se ponha a assinar a planta de um edifício. Daqui afirmo: é isto mesmo o que
digo, desde que seja mantida a condição essencial de que, em um regime de
máxima liberdade, também tenha lugar a máxima responsabilidade. Em um regime de
máxima liberdade e máxima responsabilidade, uma empresa há de contratar alguém
que saiba construir um edifício, e não alguém que apresente um diploma que
afirme ser engenheiro aquele que só aprendeu a construir “uma sociedade mais
justa e solidária segundo Karl Marx” entre um copo e outro no bar ao lado da
faculdade. Ela vai fazer isto porque, caso seu edifício caia, há de pagar por
todo o prejuízo causado. Pois aqui pergunto: as vítimas do edifício Palace III já receberam as suas indenizações? Dos casos de
negligência médica apresentados nos jornais, quantos destes profissionais
tiveram o registro cassado? E quanto aos advogados que passaram trapacearam
seus clientes, quantos?
Tenha-se claro aqui que não defendo a lulice como
exemplo de comportamento. Defendo como ninguém que os jovens se preparem
mediante o estudo sério, objetivo e comprometido. Porém, isto está muito longe
de se alcançar por via do sistema de ensino formal.