A D e s o b e d i ê n c i a C i v i l
Henry David Thoreau
Obra atualíssima, embora publicada em
1848
A Desobediência Civil é o texto
mais conhecido de Thoreau. Escrito em 1848
influenciou profundamente pessoas como Mahatma
Gandhi, Leon Tolstoi, Martin Luther King e tantos outros.
Muito à frente de seu tempo,
sua defesa do Direito à Rebeldia esteve, desde sempre, a serviço da luta contra
todas as formas de discriminação. Lutou contra a escravidão nos EUA, pelos
direitos das mulheres, em defesa do meio-ambiente, contra a discriminação
étnica e sexual. Como pacifista Radical (indo à Raiz do mal que combate)
recusou-se a pagar impostos a um governo autoritário
que fazia mais uma guerra predatória na qual roubou mais da metade do
território mexicano – este ato Radical de Desobediência Civil lhe custou um
tempo na cadeia que lhe foi útil a escrever e deixar para a posteridade seus
pensamentos – muitas vezes, diria mesmo que na maior parte delas, o lutador
pelo que é VERDADEIRAMENTE Justo e Perfeito só é reconhecido postumamente após
uma vida eivada de dissabores. Questão de escolha. Há aqueles que não
compactuam com a injustiça, a prepotência, a arrogância ou o roubo. Há os que
se acomodam. Quem se acomoda, em geral, vive melhor mas, como dizia Leonardo Da Vinci, não passam de meros condutores de comida, não
deixando rastro algum de sua passagem pelo mundo exceto latrinas cheias...
Acerca de um Homem do Quilate de Henry David Thoreau ( 1817 – 1862 ) muito já
se disse. Dele mesmo, guardo comigo algumas pérolas aforismáticas:
"Quando o súdito nega obediência e quando o funcionário se recusa a
aplicar as leis injustas ou simplesmente se demite, está consumada a
Revolução"
"A tirania da Lei não é abrandada por sua origem majoritária"
"Só cada pessoa pode ser juiz de sua própria vida"
"Não é suficiente ser deixado em paz por um governo que pratica a
corrupção sistemática e cobra impostos para fazer mal a seu próprio povo!"
Vamos ao texto!
Aceito com entusiasmo o lema "O melhor
governo é o que menos governa"; e
gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente. Levado às
últimas conseqüências, este lema significa o seguinte, no que também creio:
"O melhor governo é o que não governa de modo algum"; e, quando os
homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão. O governo,
no melhor dos casos, nada mais é do que um artifício conveniente; mas a maioria
dos governos é por vezes uma inconveniência, e todo o governo algum dia acaba
por ser inconveniente. As objeções que têm sido levantadas contra a existência
de um exército permanente, numerosas e substantivas, e que merecem prevalecer,
podem também, no fim das contas, servir para protestar contra um governo
permanente. O exército permanente é apenas um braço do governo permanente. O
próprio governo, que é simplesmente uma forma que o povo escolheu para executar
a sua vontade, está igualmente sujeito a abusos e perversões antes mesmo que o
povo possa agir através dele. Prova disso é a atual guerra contra o México, obra
de um número relativamente pequeno de indivíduos que usam o governo permanente
como um instrumento particular; isso porque o povo não teria consentido, de
início, uma iniciativa dessas.
Esse governo norte-americano - que vem a ser ele senão
uma tradição, ainda que recente, tentando-se transmitir inteira à posteridade,
mas que a cada instante vai perdendo porções da sua integridade? Ele não tem a
força nem a vitalidade de um único homem vivo, pois um único homem pode fazê-lo
dobrar-se à sua vontade. O governo é uma espécie de revólver brinquedo para o
próprio povo; e ele certamente vai quebrar se por acaso os norte-americanos o
usarem seriamente uns contra os outros, como uma arma de verdade. Mas nem por
isso ele é menos necessário; pois o povo precisa dispor de uma ou outra máquina
complicada e barulhenta para preencher a sua concepção de governo. Desta forma,
os governos são a prova de como os homens podem ter sucesso no ato de oprimir
em proveito próprio, não importando se a opressão se volta também contra eles.
Devemos admitir que ele é excelente; no entanto, este governo em si mesmo nunca
estimulou qualquer iniciativa a não ser pela rapidez com que se dispôs a não
atrapalhar. Ele não mantém o país livre. Ele não povoa as terras
do oeste. Ele não educa. O caráter inerente do povo norte-americano é o
responsável por tudo o que temos conseguido fazer; e ele teria conseguido fazer
consideravelmente mais se o governo não tivesse sido por vezes um obstáculo.
Pois o governo é um artifício através do qual os homens conseguiriam de bom
grado deixar em paz uns aos outros; e, como já foi dito, a sua conveniência
máxima só ocorre quando os governados são minimamente molestados pelos seus
governantes. Se não fossem feitos de borracha da Índia, os negócios e o comércio
nunca conseguiriam ultrapassar os obstáculos que os legisladores teimam em
plantar no seu caminho; e se fôssemos julgar estes senhores levando em conta
exclusivamente os efeitos dos seus atos - esquecendo as suas intenções -, eles
mereceriam a classificação dada e as punições impostas a essas pessoas nocivas
que gostam de obstruir as ferrovias.
No entanto, quero me pronunciar em termos práticos como
cidadão, distintamente daqueles que se chamam antigovernistas: o que desejo imediatamente
é um governo melhor, e não o fim do governo. Se cada homem expressar o tipo
de governo capaz de ganhar o seu respeito, estaremos mais próximos de conseguir
formá-lo.
No final das contas, o motivo prático pelo qual se
permite o governo da maioria e a sua continuidade - uma vez passado o poder
para as mãos do povo - não é a sua maior tendência a emitir bons juízos, nem
porque possa parecer o mais justo aos olhos da minoria, mas sim porque ela (a
maioria) é fisicamente a mais forte. Mas um governo no qual prevalece o mando da
maioria em todas as questões não pode ser baseado na justiça, mesmo nos limites
da avaliação dos homens. Não será possível um governo em que a maioria não
decida virtualmente o que é certo ou errado? No qual a maioria decida apenas
aquelas questões às quais seja aplicável a norma da conveniência? Deve o
cidadão desistir da sua consciência, mesmo por um único instante ou em última
instância, e se dobrar ao legislador? Por que então estará cada homem dotado de
uma consciência? Na minha opinião devemos ser em primeiro lugar homens, e só
então súditos. Não é desejável cultivar o respeito às leis no mesmo nível do
respeito aos direitos. A única obrigação que tenho direito de assumir é fazer a
qualquer momento aquilo que julgo certo. Costuma-se dizer, e com toda a razão,
que uma corporação não tem consciência; mas uma corporação de homens
conscienciosos é uma corporação com consciência. A lei nunca fez os
homens sequer um pouco mais justos; e o respeito reverente pela lei tem levado
até mesmo os bem-intencionados a agir quotidianamente como mensageiros da
injustiça. Um resultado comum e natural de um respeito indevido pela lei é a
visão de uma coluna de soldados - coronel, capitão, cabos, combatentes e outros
- marchando para a guerra numa ordem impeccável, cruzando morros e vales, contra
a sua vontade, e como sempre contra o seu senso comum e a sua consciência; por
isso essa marcha é muito pesada e faz o coração bater forte. Eles sabem
perfeitamente que estão envolvidos numa iniciativa maldita; eles têm tendências
pacíficas. O que são eles, então? Chegarão a ser homens? Ou pequenos fortes e
paióis móveis, a serviço de algum inescrupuloso detentor do poder? É só visitar
o Estaleiro Naval e contemplar um fuzileiro: eis aí o tipo de homem que um
governo norte-americano é capaz de fabricar - ou transformar com a sua magia
negra -, uma sombra pálida, uma vaga recordação da condição humana, um cadáver
de pé e vivo que, no entanto, se poderia considerar enterrado sob armas com
acompanhamento fúnebre, embora possa acontecer que
"Não se ouviu um rufar nem sequer um toque de
silêncio enquanto à muralha o seu corpo levamos nenhum soldado disparou uma
salva de adeus sobre o túmulo onde jaze o herói que enterramos".
Desta forma, a
massa de homens serve ao Estado não na sua qualidade de homens, mas sim como
máquinas, entregando os seus corpos. Eles são o exército permanente, a milícia,
os carcereiros, os polícias, posse comitatus, e assim por diante. Na
maior parte dos casos não há qualquer livre exercício de escolha ou de
avaliação moral; ao contrário, estes homens nivelam-se à madeira, à terra e às
pedras; e é bem possível que se consigam fabricar bonecos de madeira com o
mesmo valor de homens desse tipo. Não são mais respeitáveis do que um
espantalho ou um monte de terra. Valem tanto quanto cavalos e cachorros. No
entanto, é comum que homens assim sejam apreciados como bons cidadãos. Há
outros, como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, funcionários e
dirigentes, que servem ao Estado principalmente com a cabeça, e é bem provável
que eles sirvam tanto ao Diabo quanto a Deus - sem intenção -, pois raramente
se dispõem a fazer distinções morais. Há um número bastante reduzido que serve
ao Estado também com a sua consciência; são os heróis, patriotas, mártires, reformadores
e homens, que acabam por isso necessariamente resistindo, mais do que
servindo; e o Estado trata-os geralmente como inimigos. Um homem sábio só será
de fato útil como homem, e não se sujeitará à condição de "barro" a
ser moldado para "tapar um buraco e cortar o vento"; ele preferirá
deixar esse papel, na pior das hipóteses, para as suas cinzas:
"A minha origem é nobre demais para que eu seja
propriedade de alguém. Para que eu seja o segundo no comando ou um útil
serviçal ou instrumento de qualquer Estado soberano deste mundo"
Os que se entregam completamente aos seus semelhantes são
por eles considerados inúteis e egoístas; mas aqueles que se dão parcialmente
são entronizados como benfeitores e filantropos.
Que
comportamento digno deve ter um homem perante o atual governo vigente nos
Estados Unidos? A minha resposta é que ele inevitavelmente se degrada pelo fato
de estar associado a ele. Nem por um minuto posso considerar o meu governo
uma organização política que é também o governo do escravo.
Todos reconhecem o direito à revolução, ou seja, o
direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se
tornem grandes e insuportáveis a sua tirania e ineficiência. No entanto, quase
todos dizem que tal não acontece agora. Consideram, porém, que isso aconteceu
em 1775. Se alguém me dissesse que o nosso governo é mão porque estabeleceu
certas taxas sobre bens estrangeiros que chegam aos seus portos, o mais
provável é que eu não criasse qualquer caso, pois posso muito bem passar sem
eles: todas as máquinas têm atrito e talvez isso faça com que o bom e o mau se
compensem. De qualquer forma, fazer um rebuliço por causa disso é um grande
mal. Mas quando o próprio atrito chega a construir a máquina e vemos a
organização da tirania e do roubo, afirmo que devemos repudiar essa máquina. Em
outras palavras, quando um sexto da população de um país que se elegeu como o
refúgio da liberdade é composto de escravos, e quando todo um país é
injustamente assaltado e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à
lei marcial, devo dizer que não é cedo demais para a rebelião e a revolução dos
homens honestos. E esse dever é tão mais urgente pelo fato de que o país assaltado não é o nosso, e
pior ainda, que o exército invasor é o nosso.
William Paley, uma autoridade em assuntos morais, tem um
capítulo intitulado Duty of submission to civil government (O dever de
submissão ao governo civil), no qual soluciona toda a questão das obrigações
políticas pela fórmula da conveniência; e diz: "Enquanto o exigir o
interesse de toda a sociedade, ou seja, enquanto não se possa resistir ao
governo estabelecido ou mudá-lo sem inconveniência pública, é a vontade de
Deus que tal governo seja obedecido - e nem um dia além disso. Admitindo-se
este princípio, a justiça de cada ato particular de resistência reduz-se à
computação do volume de perigo e protestos, de um lado, e da probabilidade e
custos da reparação, de outro". Diz ele que cada um julgará esta questão
por si mesmo. Mas parece que Paley nunca levou em conta os casos em que a regra
da conveniência não se aplica, nos quais um povo ou um indivíduo tem que fazer
justiça a qualquer custo. Se arranquei injustamente a tábua que é a salvação de
um homem que se afoga, sou obrigado a devolvê-la, ainda que eu mesmo me afogue.
De acordo com Paley, esta é uma circunstância inconveniente. Mas quem quiser se
salvar desta forma acabará perdendo a vida. O povo norte-americano tem que pôr
fim à escravidão e tem que parar de guerrear com o México, mesmo que isso lhe
custe a existência enquanto povo.
As nações, na sua prática, concordam com Paley, mas
haverá quem considere que Massachusetts esteja agir corretamente na crise
atual?
"Uma rameira de alta linhagem, um trapo de pano
prateado atirado à lama,
Levanta a cauda do vestido, e arrasta no chão a sua
alma"
Em termos práticos, os que se opõem à abolição em
Massachusetts não são uns cem mil políticos do sul, mas uns cem mil
comerciantes e fazendeiros daqui, que se interessam mais pelos negócios e pela
agricultura do que pela humanidade e que não estão dispostos a fazer justiça ao
escravo e ao México, custe o que custar. Não discuto com inimigos
distantes, mas com aqueles que, bem perto de mim, cooperam com a posição de
homens que estão longe daqui e defendem-na; estes últimos homens seriam
inofensivos se não fosse por aqueles. Estamos acostumados a afirmar que os
homens em geral são despreparados; mas as melhorias são lentas, porque os
poucos não são substantivamente mais sábios ou melhores do que os muitos. Não é
tão importante que muitos sejam tão bons quanto você, e sim que haja em algum
lugar alguma porção absoluta de virtude; isso bastará para fermentar toda a
massa. Há milhares de pessoas cuja opinião é contrária à escravidão e à
guerra; apesar disso, nada fazem de eletivo para pôr fim a ambas; dizem-se
filhos de Washington e Franklin, mas ficam sentados com as mãos nos bolsos,
dizendo não saber o que pode ser feito e nada fazendo; chegam a colocar a
questão do livre comércio à frente da questão da liberdade, e ficam quietos
lendo as cotações do dia junto com os últimos boletins militares sobre a
campanha do México; é possível até que acabem por adormecer durante a leitura.
Qual é hoje a cotação do dia de um homem honesto e patriota? Eles hesitam,
arrependem-se e às vezes assinam petições, mas nada fazem de sério ou de
eletivo. Com muito boa disposição, preferem esperar que outros remedeiem o mal,
de forma que nada reste para motivar o seu arrependimento. No melhor dos casos,
nada mais farão do que depositar na urna um voto insignificante, cumprimentar
timidamente a atitude certa e, de passagem, desejar-lhe boa sorte. Há
novecentos e noventa e nove patronos da virtude e apenas um homem virtuoso; mas
é mais fácil lidar com o verdadeiro dono de algo do que com seu guardião
temporário.
Toda a votação é um tipo de jogo, tal como damas ou
gamão, com uma leve coloração moral, onde se brinca com o certo e o errado
sobre questões morais; e é claro que há apostas neste jogo. O caráter dos
eleitores não entra nas avaliações. Proclamo o meu voto - talvez - de acordo
com meu critério moral; mas não tenho um interesse vital de que o certo saia
vitorioso. Estou disposto a deixar essa decisão para a maioria. O compromisso
de votar, desta forma, nunca vai mais longe do que as conveniências. Nem mesmo
o ato de votar pelo que é certo implica fazer algo pelo que é
certo. É apenas uma forma de expressar publicamente o meu anêmico desejo de que
o certo venha a prevalecer. Um homem sábio não deixará o que é certo nas mãos
incertas do acaso e nem esperará que a sua vitória se dê através da força da
maioria. Há escassa virtude nas ações de massa dos homens. Quando finalmente a
maioria votar a favor da abolição da escravatura, das duas uma: ou ela será
indiferente à escravidão ou então restará muito pouca escravidão a ser abolida
pelo o seu voto. A essa altura, os únicos escravos serão eles, os
integrantes da maioria. O único voto que pode apressar a abolição da
escravatura é o daquele homem que afirma a própria liberdade através do seu voto.
Estou informado de que haverá em Baltimore, ou em outro
lugar qualquer, uma convenção para escolher um candidato à presidência; essa
convenção é composta principalmente por editores de jornais e políticos
profissionais; mas que importância terá a possível decisão desta reunião para
um homem independente, inteligente e respeitável? No fim das contas, ainda
poderemos contar com as vantagens da sua sabedoria e da sua honestidade, não é
mesmo? Será que não poderemos prever alguns votos independentes? Não haverá
muitas pessoas neste país que não freqüentam convenções? Mas não é isso o que
ocorre: percebo que o homem considerado respeitável logo abandona a sua posição
e passa a não ter mais esperanças no seu país, quando o mais certo seria que
seu país desesperasse dele. A partir disso ele adere a um dos candidatos assim
selecionados por ser o único disponível, apenas para provar que ele
mesmo está disponível para todos os planos do demagogo. O voto de um
homem desses não vale mais do que o voto eventualmente comprado de um
estrangeiro inescrupuloso ou do nativo venal. Oh! É preciso um homem que seja
um homem e que tenha, como diz um vizinho meu, uma coluna dorsal que não
se dobre aos poderosos! As nossas estatísticas estão erradas: contou-se gente
demais. Quantos homens existem em cada mil milhas quadradas deste país?
Dificilmente se contará um. A América oferece ou não incentivos para a
imigração de homens? Os homens norte-americanos foram rareando até à dimensão
de uma irmandade secreta como a dos Odd Fellows, cujo integrante típico pode
ser identificado pelo seu descomunal caráter gregário, pela manifesta falta de
inteligência e de jovial autoconfiança; a sua preocupação primeira e maior ao
dar entrada neste mundo é a de verificar se os asilos estão em boas condições
de funcionamento; antes mesmo de ter direito a envergar roupas de adulto ele
organiza uma coleta de fundos para as viúvas e órfãos que porventura existam;
em poucas palavras, é um homem que só ousa viver com a ajuda da Companhia de
Seguros Mútuos, que lhe prometeu um enterro decente.
De fato, nenhum homem tem o dever de se dedicar à
erradicação de qualquer mal, mesmo o maior dos males; ele pode muito bem ter
outras preocupações que o mobilizem. Mas ele tem no mínimo a obrigação de lavar
as mãos frente à questão e, no caso de não mais se ocupar dela, de não dar
qualquer apoio prático à injustiça. Se me dedico a outras metas e
considerações, preciso ao menos verificar se não estou fazendo isso à custa de
alguém em cujos ombros esteja sentado. É preciso que eu saia de cima dele para
que ele também possa estar livre para fazer as suas considerações. Vejam como
se tolera uma inconsistência das mais grosseiras. Já ouvi alguns dos meus
conterrâneos dizerem: "Queria que eles me convocassem para ir combater um
levante de escravos ou para atacar o México - pois eu não iria"; no
entanto, cada um destes homens possibilitou o envio de um substituto, fazendo
isso diretamente pela sua fidelidade ao governo, ou pelo menos indiretamente
através do seu dinheiro. O soldado que se recusa a participar de uma guerra
injusta é aplaudido por aqueles que não recusam apoio ao governo injusto que
faz a guerra; é aplaudido por aqueles cuja ação e autoridade ele despreza e
desvaloriza; tudo funciona como se o Estado estivesse suficientemente
arrependido para contratar um crítico dos seus pecados, mas insuficientemente
arrependido para interromper por um instante sequer os seus atos pecaminosos.
Estamos todos, desta forma, de conformidade com a ordem e o governo civil,
reunidos para homenagear e dar apoio à nossa própria crueldade. Se ruborizamos
ante o nosso primeiro pecado, logo depois se instala a indiferença. Passamos do
imoral ao não-moral, e isso não é tão desnecessário assim para o tipo de vida
que construímos.
O mais amplo e comum dos erros exige a virtude mais
generosa para se manter. São os nobres os mais passíveis de proferir os
moderados ataques a que comumente está sujeita a virtude do patriotismo. Sem
dúvida, os maiores baluartes conscienciosos do governo, e muito freqüentemente
os maiores opositores das reformas, são aqueles que desaprovam o caráter e as
medidas de um governo, sem no entanto lhe retirar a sua lealdade e apoio. Há
gente coletando assinaturas para fazer petições ao Estado de Massachusetts no
sentido de dissolver a União e de desprezar as recomendações do presidente.
Ora, por que eles mesmos não dissolvem essa união entre eles e o Estado e se
recusam a pagar a sua cota de impostos? Não estão eles na mesma relação com o
Estado que a que este mantém com a União? E não são as mesmas as razões que
evitaram a resistência do Estado à União e a resistência deles ao Estado?
Como pode um homem se satisfazer com a mera posse de uma
opinião e de fato usufruí-la? Pode haver algum usufruto da opinião
quando o dono dela a vê ofendida? Se o seu vizinho o vigariza e lhe subtrai um
mero dólar, você não se satisfaz com a descoberta da vigarice, com a
proclamação de que foi vigarizado e nem mesmo com as suas gestões no sentido de
ser devidamente reembolsado; o que você faz é tomar medidas efetivas e
imediatas para ter o seu dinheiro de volta e cuidar de nunca mais ser enganado.
Ações baseadas em princípios - a percepção e a execução do que é certo -
modificam coisas e relações; a ação deste gênero é essencialmente revolucionária
e não se reduz integralmente a qualquer coisa preexistente. Ela cinde não
apenas Estados e Igrejas; divide famílias; e também divide o indivíduo» separando
nele o diabólico do divino.
Existem leis injustas; devemos submeter-nos a elas e
cumpri-las, ou devemos tentar emendá-las e obedecer a elas até à sua reforma,
ou devemos transgredi-las imediatamente? Numa sociedade com um governo como o
nosso, os homens em geral pensam que devem esperar até que tenham convencido a
maioria a alterar essas leis. A sua opinião é de que a hipótese da resistência
pode vir a ser um remédio pior do que o mal a ser combatido. Mas é precisamente
o governo o culpado pela circunstância de o remédio ser de fato pior do
que o mal. É o governo que faz tudo ficar pior. Por que o governo não é
mais capaz e se antecipa para lutar pela reforma? Por que ele não sabe
valorizar a sua sábia minoria? Por que ele chora e resiste antes de ser
atacado? Por que ele não estimula a participação altiva dos cidadãos para que
eles lhe mostrem as suas falhas e para conseguir um desempenho melhor do
que eles lhe exigem? Por que eles lhe exigem? Por que ele sempre crucifica
Jesus Cristo, e excomunga Copérnico e Lutero e qualifica Washington e
Franklin de rebeldes?
Não é absurdo pensar que o único tipo de transgressão que
o governo nunca previu foi a negação deliberada e prática de sua autoridade; se
não fosse assim, por que então não teria ele estabelecido a penalidade clara,
cabível e proporcional? Se um homem sem propriedade se recusa pela primeira vez
a recolher nove xelins aos cofres do Estado, é preso por prazo cujo limite não
é estabelecido por qualquer lei que eu conheça; esse prazo é determinado
exclusivamente pelo arbítrio dos que o enviam à prisão. Mas se ele resolver
roubar noventa vezes nove xelins do Estado, em breve estará novamente em
liberdade.
Se a injustiça é parte do inevitável atrito no
funcionamento da máquina governamental, que seja assim: talvez ela acabe
suavizando-se com o desgaste - certamente a máquina ficará desajustada. Se a
injustiça for uma peça dotada de uma mola exclusiva - ou roldana, ou corda, ou
manivela -, aí então talvez seja válido julgar se o remédio não será pior do
que o mal; mas se ela for de tal natureza que exija que você seja o agente de
uma injustiça para outros, digo, então, que se transgrida a lei. Faça da sua
vida um contra-atrito que pare a máquina. O que preciso fazer é cuidar para que
de modo algum eu participe das misérias que condeno.
No que diz respeito às vias pelas quais o Estado espera
que os males sejam remediados, devo dizer que não as conheço. Elas são muito
demoradas, e a vida de um homem pode chegar ao fim antes que elas produzam
algum efeito. Tenho outras coisas para fazer. Não vim a este mundo com o
objetivo principal de fazer dele um bom lugar para morar, mas apenas para morar
nele, seja bom ou mão. Um homem não carrega a obrigação de fazer tudo, mas
apenas alguma coisa; e só porque não pode fazer tudo não é necessário
que faça alguma coisa errada. Não está dentro das minhas incumbências apresentar
petições ao governador e à Assembléia Legislativa, da mesma forma que eles nada
precisam fazer de semelhante em relação a mim. Suponhamos que eles não dêem
atenção a um pedido meu; que devo fazer então? Mas nesse caso o Estado não
forneceu outra via: o mal está na sua própria Constituição. Isto pode parecer
grosseria, teimosia e intransigência, mas só quem merece ou pode apreciar a
mais fina bondade e consideração deve receber este tipo de tratamento. Todas as
mudanças para melhor são assim, tais como o nascimento e a morte, que produzem
convulsões nos corpos.
Não hesito em afirmar que todos os que se intitulam
abolicionistas devem imediata e efetivamente retirar o seu apoio - em termos
pessoais e de propriedade - ao governo do Estado de Massachusetts, e não ficar
esperando até que consigam formar a mais estreita das maiorias para só então
alcançar o sofrido direito de vencer através dela. Creio que basta saber que
Deus está do seu lado, o que vale mais do que o último votante a fazer
majoritárias as suas fileiras. E, além de tudo, qualquer homem mais correto do
que os seus vizinhos já constitui uma maioria apertada.
É apenas uma vez por ano, e não mais do que isso, que me
encontro cara a cara com este governo norte-americano, ou com o governo estadual
que o representa: é quando sou procurado pelo coletor de impostos; essa é a
única instância em que um homem na minha situação não pode deixar de se
encontrar com esse governo; e ele aproveita a oportunidade e diz claramente:
"Reconheça-me". E não há outra forma mais simples, mais efetiva e, na
conjuntura atual, mais indispensável de lidar com o governo neste particular,
de expressar a sua pouca satisfação ou seu pouco amor em relação a ele: é
preciso negá-lo, naquele local e momento. O coletor de impostos é meu vizinho e
concidadão, e é com ele que tenho de lidar porque afinal de contas estou
lutando contra homens, e não contra o pergaminho das leis, e sei que ele
voluntariamente optou por ser um agente governamental. Haverá outro modo de ele
ficar sabendo claramente o que é e o que fiz enquanto agente do governo, ou
enquanto homem, a não ser quando forçado a decidir que tratamento vai dar a
mim, o vizinho que ele respeita como tal e como homem de boa índole, ou que ele
considera um maníaco e desordeiro? Será ele capaz de superar esse obstáculo à
sua sociabilidade sem um pensamento ou uma palavra mais rudes ou mais
impetuosos a acompanhar a sua ação? Disso estou certo: se mil, ou cem, se dez
homens que conheço - apenas dez homens honestos ou até um único homem honesto
do Estado de Massachusetts, não mais sendo dono de escravos, decidisse
pôr fim ao seu vínculo com o Estado, para logo em seguida ser trancado na
cadeia municipal, estaria ocorrendo nada menos do que a abolição da escravatura
nos Estados Unidos da América. Pois não importa que os primeiros passos pareçam
pequenos: o que se faz bem feito faz-se para sempre. Mas preferimos debater o
assunto: essa é nossa missão, dizemos. Há dezenas de jornais nas fileiras do
abolicionismo, mas não há um único homem. O meu querido vizinho, que
desempenhou o papel de embaixador de Massachusetts e que sempre se dedica à
resolução das questões dos direitos humanos na Câmara do Conselho, esteve
ameaçado de amargar uma prisão na Carolina do Sul; no entanto, se tivesse sido
prisioneiro do Estado de Massachusetts, esse Estado que ansiosamente lança à
Carolina do Sul a acusação de pecar com a escravidão (embora atualmente não
encontre nada além de uma atitude pouco hospitaleira como motivo para brigar
com ela), o nosso Legislativo não seria capaz de adiar liminarmente o assunto
da escravidão até ao próximo inverno.
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Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o
único lugar digno para um homem justo é também a prisão. Hoje em dia, o lugar
próprio, o único lugar que Massachusetts reserva para os seus habitantes mais
livres e menos desalentados são as suas prisões, nas quais serão confinados e
trancados longe do Estado, por um ato do próprio Estado pois os que vão para a
prisão já antes tinham se confinado nos seus princípios. E aí que devem ser
encontrados quando forem procurados pelos escravos fugidos, pelo prisioneiro
mexicano em liberdade condicional e pelos indígenas, para ouvir as denúncias
sobre as humilhações impostas aos seus povos; é aí, nesse chão discriminado,
mas tão mais livre e honroso , onde o Estado planta os que não estão com
ele mas sim contra ele - a única casa num Estado-senzala na qual um
homem livre pode perseverar com honra. Se há alguém que pense ser a prisão um
lugar de onde não mais se pode influir, no qual a sua voz deixa de atormentar
os ouvidos do Estado, no qual não conseguiria ser tão hostil a ele, esse alguém
ignora o quanto a verdade é mais forte que o erro e também não sabe como a
injustiça pode ser combatida com muito mais eloqüência e efetividade por
aqueles que já sofreram na carne um pouco dela. Manifeste integralmente o seu
voto e exerça toda a sua influência; não se deixe confinar por um pedaço de
papel. Uma minoria é indefesa quando se conforma à maioria; não chega nem a ser
uma minoria numa situação dessas; mas ela é irresistível quando intervém com
todo o seu peso. Se a alternativa ficar entre manter todos os homens justos na
prisão ou desistir da guerra e da escravidão, o Estado não hesitará na escolha.
Se no ano corrente mil homens não pagassem os seus impostos, isso não seria
uma iniciativa tão violenta e sanguinária quanto o próprio pagamento, pois
neste caso o Estado fica capacitado para cometer violências e para derramar o
sangue dos inocentes. Esta é, na verdade, a definição de uma revolução
pacífica, se é que é possível uma coisa dessas. Se, como já ouvi um deles me
perguntar, o coletor de impostos ou outro funcionário público qualquer indagar:
"Mas o que devo fazer agora?", a minha resposta é: "Se de fato
quiser fazer alguma coisa, então renuncie ao seu cargo". Quando o súdito
negou a lealdade e o funcionário renunciou ao seu cargo, então a revolução
completou-se. Mas vamos supor que há violência. Não poderíamos considerar que
uma agressão à consciência também provoca um tipo de ferimento grave? Um
ferimento desses provoca a perda da autêntica humanidade e da imortalidade de
um homem, e ele sangra até uma morte eterna. Posso ver esse sangue a correr,
agora.
Especulei sobre a prisão do infrator, e não sobre o
confisco dos seus bens - embora ambas as medidas sirvam ao mesmo fim -, porque
os que afirmam o certo e que, por isso, são os seres mais perigosos para um
Estado corrupto, em geral não gastam muito do seu tempo na acumulação de
propriedades. Para homens assim o Estado presta serviços relativamente pequenos
e um imposto bem leve tende a ser considerado exorbitante, particularmente
quando são obrigados a realizar um trabalho especial para conseguir a quantia
cobrada. Se houvesse quem vivesse inteiramente sem usar o dinheiro, o próprio
Estado hesitaria em exigir que ele lhe entregasse uma quantia. O homem rico, no
entanto - e não pretendo estabelecer uma comparação invejosa -, é sempre um ser
vendido à instituição que o enriquece. Falando em termos absolutos, quanto mais
dinheiro, menos virtude; pois o dinheiro interpõe-se entre um homem e os seus
objetivos e permite que ele os compre; obter alguma coisa dessa forma não é uma
grande virtude. O dinheiro acalma muitas perguntas que de outra forma ele se
veria pressionado a fazer; de outro lado, a única pergunta nova que o dinheiro
suscita é difícil, embora supérflua: "Como gasta-lo?" Um homem assim
fica, portanto, sem base para uma moralidade. As oportunidades de viver
diminuem proporcionalmente ao acúmulo daquilo que se chama de
"meios". A melhor coisa a ser feita em prol da cultura do seu tempo
por um homem rico é realizar os planos que tinha quando ainda era pobre. Cristo
respondeu aos seguidores de Herodes de acordo com a situação deles.
"Mostrem-me o dinheiro dos tributos", disse ele; e um deles tirou do
bolso uma moeda. Disse então Jesus Cristo: "Se vocês usam o dinheiro com a
imagem de César, dinheiro que ele colocou em circulação e ao qual ele deu
valor, ou seja, se vocês são homens do Estado e estão felizes de se aproveitar
das vantagens do governo de César, então paguem-no por isso quando ele o
exigir. Portanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de
Deus"; Cristo não lhes disse nada sobre como distinguir um do outro; eles
não queriam saber isso.
Quando converso com os mais livres dentre os meus
vizinhos, percebo que, independentemente do que digam a respeito da grandeza e
da seriedade do problema e de sua preocupação com a tranqüilidade pública, no
fim das contas tudo se reduz ao seguinte: eles não podem abrir mão da proteção
do governo atual e temem as conseqüências que a sua rebeldia provocaria nas
suas propriedades e famílias. Da minha parte, não gosto de imaginar que possa
vir algum dia a depender da proteção do Estado. Mas se eu negar a autoridade do
Estado quando ele apresenta a minha conta de impostos, ele logo confiscará e
dissipará a minha propriedade e tratará de me hostilizar e à minha família para
sempre. Essa é uma perspectiva muito dura. Isso torna impossível uma vida que
seja simultaneamente honesta e confortável em aspectos exteriores. Não valeria
a pena acumular propriedade; ela certamente se perderia de novo. O que se tem a
fazer é arrendar alguns alqueires ou ocupar uma terra devoluta, cultivar em
pequena escala e consumir logo toda a sua produção. Você tem que viver dentro
de si mesmo e depender de si mesmo, sempre de mala feita e pronto para
recomeçar; você não deve desenvolver muitos vínculos. Até mesmo na Turquia você
pode ficar rico, se em tudo for um bom súdito do governo turco. Confúcio disse:
«Se um Estado é governado pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria são
fatos acabrunhantes; se um Estado não é governado pelos princípios da razão, a
riqueza e as honrarias são os fatos acabrunhantes". Não! Até que eu
solicite um remoto porto sulino, que a proteção do Estado de Massachusetts me
seja estendida com o fim de preservar a minha liberdade, ou até que eu me
dedique apenas a construir pacificamente um patrimônio aqui no meu Estado,
posso negar a minha lealdade ao governo local e negar o seu direito à minha
propriedade e à minha vida. Sai mais barato, em todos os sentidos, sofrer a
penalidade pela desobediência do que obedecer. Obedecer faria com que eu me
sentisse diminuído.
Há alguns anos o Estado procurou-me em nome de uma organização
religiosa e intimou-me a pagar uma certa quantia destinada a sustentar um
pregador que o meu pai costumava freqüentar; eu nunca o tinha visto.
"Pague ou será trancado na cadeia", disse o Estado. Eu recusei-me a
pagar. Infelizmente, no entanto, outro homem achou melhor fazer o pagamento em
meu nome. Não consegui descobrir por que o mestre-escola deveria pagar imposto
para sustentar o clérigo e não o clérigo contribuir para o sustento do
mestre-escola; pois eu não era mestre-escola do Estado, e sustentava-me com
subscrições voluntárias. Não vi o motivo pelo qual o liceu não devesse
apresentar a sua conta de impostos e fazer com que o Estado apoiasse, junto com
a organização religiosa, essa sua pretensão. No entanto, os conselheiros
municipais pediram-me e eu concordei em fazer uma declaração por escrito cuja
redação ficou mais ou menos assim: "Saibam todos quantos esta declaração
lerem que eu, Henry Thoreau, não desejo ser considerado integrante de qualquer
sociedade organizada à qual não tenha aderido". Entreguei o texto ao
secretário da municipalidade. Deve estar com ele até hoje. Sabendo portanto que
eu não queria ser considerado membro daquela organização religiosa, o Estado
nunca mais me fez uma exigência parecida; ele considerava, no entanto, que
estava certo e que deveria continuar a operar a partir dos pressupostos
originais com que me abordou. Se fosse possível saber os seus nomes, eu teria
desligado-me minuciosamente, na mesma ocasião, de todas as organizações das
quais não era membro; mas não soube onde encontrar uma lista completa delas.
Há seis anos que não pago o imposto per capita. Fui
encarcerado certa vez por causa disso, e passei uma noite preso; enquanto o
tempo passava, fui observando as paredes de pedra sólida com dois ou três pés
de espessura, a porta de madeira e ferro com um pé de espessura e as grades de
ferro que dificultam a entrada da luz, e não pude deixar de perceber a idiotice
de uma instituição que me tratava como se eu fosse apenas carne e sangue e
ossos a serem trancafiados. Fiquei especulando que ela devia ter concluído,
finalmente, que aquela era a melhor forma de me usar e, também, que ela jamais
cogitara de se aproveitar dos meus serviços de alguma outra maneira. Vi que
apesar da grossa parede de pedra entre mim e os meus concidadãos, eles tinham
uma muralha muito mais difícil de vencer antes de conseguirem ser tão livres
quanto eu. Nem por um momento me senti confinado, e as paredes pareceram-me um
desperdício descomunal de pedras e argamassa. O meu sentimento era de que eu
tinha sido o único dos meus concidadãos a pagar o imposto. Estava claro que
eles não sabiam como lidar comigo e que se comportavam como pessoas pouco
educadas. Havia um erro crasso em cada ameaça e em cada saudação, pois eles
pensavam que o meu maior desejo era o de estar do outro lado daquela parede de
pedra. Não pude deixar de sorrir perante os cuidados com que fecharam a porta e
trancaram as minhas reflexões - que os acompanhavam porta afora sem delongas ou
dificuldade; e o perigo estava de fato contido nelas. Como eu estava
fora do seu alcance, resolveram punir o meu corpo; agiram como meninos
incapazes de enfrentar uma pessoa de quem sentem raiva e que então dão um chuto
no cachorro do seu desafeto. Percebi que o Estado era um idiota, tímido como
uma solteirona às voltas com a sua prataria, incapaz de distinguir os seus
amigos dos inimigos; perdi todo o respeito que ainda tinha por ele e passei a
considerá-lo apenas lamentável.
Portanto, o Estado nunca confronta intencionalmente o
sentimento intelectual ou moral de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus
sentidos. Ele não é dotado de gênio superior ou de honestidade, apenas de mais
força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu
mesmo escolher. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Os
únicos que podem me coagir são os que obedecem a uma lei mais alta do que a
minha. Eles obrigam-me a ser como eles. Nunca ouvi falar de homens que
tenham sido obrigados por multidões a viver desta ou daquela forma. Que
tipo de vida seria essa? Quando defronto um governo que me diz "A bolsa ou
a vida!", por que deveria apressar-me em lhe entregar o meu dinheiro? Ele
talvez esteja passando por um grande aperto, sem saber o que fazer. Não posso
ajudá-lo. Ele deve cuidar de si mesmo; deve agir como eu ajo. Não vale a pena
choramingar sobre o assunto. Não sou individualmente responsável pelo bom
funcionamento da máquina da sociedade. Não sou o filho do maquinista. No meu
modo de ver quando sementes de carvalho e de castanheira caem lado a lado, uma
delas não se retrai para dar vez à outra; pelo contrário, cada uma segue as
suas próprias leis, e brotam, crescem e florescem da melhor maneira possível,
até que uma por acaso acaba superando e destruindo a outra. Se uma planta não
pode viver de acordo com a sua natureza, então ela morre; o mesmo acontece com
um homem.
A noite que passei na prisão, além de uma novidade, foi
também bem interessante. Os prisioneiros, em mangas de camisa, distraíam-se
conversando na entrada, aproveitando o vento fresco da noite; assim estavam
quando me viram chegar. Mas o carcereiro disse-lhes: "Venham, rapazes, já
é hora de trancar as portas"; ouvi o barulho dos seus passos enquanto
caminhavam para os seus compartimentos vazios. O carcereiro apresentou-me o meu
companheiro de cela, qualificando-o como "um sujeito de primeira e um
homem esperto". Trancada a porta, ele mostrou-me o cabide onde deveria
pendurar o meu chapéu e explicou-me como administrava as coisas por ali. As
celas eram caiadas uma vez por mês; a nossa cela, pelo menos, era o apartamento
mais branco, de mobiliário mais simples e provavelmente o mais limpo de toda a
cidade. Naturalmente ele quis saber de onde eu vinha e por que eu tinha ido
parar ali; quando lhe contei a minha história, foi minha a vez de lhe perguntar
a sua, na suposição evidente de que ele era um homem honesto; e, da maneira que
as coisas estão, acredito que ele de fato era um homem honesto. Ele disse:
«Ora, acusam-me de ter incendiado um celeiro; mas não fui eu". Pelo que
pude perceber, ele provavelmente fora deitar-se, bêbado, para dormir num
celeiro, não sem antes fumar o seu cachimbo; e assim perdeu-se no fogo um
celeiro. Ele tinha a fama de ser um homem esperto, e ali aguardava havia três
meses o seu julgamento; tinha outros três meses a esperar ainda; mas estava bem
cordato e contente, já que não pagava pela casa e comida e se considerava bem
tratado.
Ele ficava ao lado de uma janela, e eu junto à outra;
percebi que se alguém ficasse por ali por muito tempo acabaria tendo por
atividade principal olhar pela janela. Em pouco tempo eu tinha lido os folhetos
que encontrara, e fiquei observando os locais por onde antigos prisioneiros
tinham fugido, vi onde uma grade tinha sido serrada e ouvi a história de vários
hóspedes anteriores daquele aposento; pois acabei descobrindo que até mesmo ali
circulavam histórias e tagarelices que não conseguem atravessar as paredes da
cadeia. Essa é provavelmente a única casa na cidade onde se escrevem poesias
que são publicadas em forma de circular, mas que não chegam a virar livros.
Mostraram-me uma grande quantidade de poesias feitas por alguns jovens cuja
tentativa de fuga tinha sido frustrada; eles vingavam-se declamando os seus
versos.
Tirei tudo o que pude do meu companheiro de cela, pois
temia nunca mais tornar a encontrá-lo; mas finalmente ele indicou-me a minha
cama e deixou para mim a tarefa de apagar a lamparina. Ficar ali deitado por
uma única noite foi como viajar a um país distante, um país que eu nunca teria
imaginado visitar. Pareceu-me que nunca antes ouvira o relógio da cidade dar as
horas ou os ruídos noturnos da aldeia; isso porque dormíamos com as janelas
abertas, janelas estas instaladas por dentro das grades. Era como contemplar a
minha aldeia natal à luz da Idade Média, e o nosso familiar rio Concord
transformou-se na torrente de um Reno; à minha frente desfilaram visões de
cavaleiros e castelos. As vozes que ouvia nas ruas eram dos antigos burgueses.
Fui espectador e testemunha involuntária de tudo o que se fazia e dizia na
cozinha da vizinha hospedaria local - uma experiência inteiramente nova e rara
para mim. Tive uma visão bem mais íntima da minha cidade natal. Eu estava
razoavelmente perto da sua alma. Nunca antes vira as suas instituições. Essa
cadeia é uma das suas instituições peculiares, pois Concord é a sede do
condado. Comecei a compreender o que preocupa os seus habitantes.
Quando chegou a manhã, o nosso desjejum foi empurrado
para dentro da cela através de um buraco na porta; era servido numa vasilha de
estanho ajustada ao tamanho do buraco e consistia numa porção de chocolate com
pão preto; junto vinha uma colher de ferro. Quando do lado de fora pediram a
devolução das vasilhas, a minha inexperiência foi tanta que coloquei de volta
o pão que não comera; mas o meu companheiro pegou o pão e aconselhou-me a
guardá-lo para o almoço ou para o jantar. Pouco depois, deixaram que ele saísse
para trabalhar num campo de feno das vizinhanças, para onde se deslocava todos
os dias; não voltaria antes do meio-dia; ele então deu-me bom-dia e disse que
duvidava que nos víssemos de novo.
Quando saí da prisão - pois alguém interferiu e pagou o
meu imposto -, percebi diferenças, não as grandes mudanças no dia-a-dia notadas
por aqueles aprisionados ainda jovens e devolvidos já trôpegos e grisalhos.
Ainda assim uma nova perspectiva tinha-se instalado no meu modo de ver a
cidade, o Estado e o país, representando uma mudança maior do que se fosse
causada pela mera passagem do tempo. Vi com clareza ainda maior o Estado que habitava.
Vi até que ponto podia confiar nos meus conterrâneos como bons vizinhos e
amigos; e percebi que a sua amizade era apenas para os momentos de
tranqüilidade; senti que eles não têm grandes intenções de proceder
corretamente; descobri que, tal como os chineses e malaios, eles formam uma
raça diferente da minha, por causa dos seus preconceitos e superstições;
constatei que eles não arriscam a si mesmos ou a sua propriedade nos seus atos
de sacrifício pela humanidade; vi que, no fim das contas, eles não são tão
nobres a ponto de conseguir tratar o ladrão de forma diferente do que este os
trata; e que só querem salvar as suas almas, através de ações de efeito, de
algumas orações e da eventual observação dos limites particularmente estreitos
e inúteis de um caminho de retidão. É possível que esteja proferindo um julgamento
duro sobre os meus vizinhos, pois acredito que a maioria deles não sabe que
existe na sua cidade uma instituição tal como a cadeia.
Antigamente, na nossa aldeia, havia o costume de saudar
os pobres endividados que saíam da cadeia olhando-os através dos dedos
dispostos em forma das barras de uma janela de prisão; e perguntava-se ao
recém-liberto: "Como vai?" Não recebi essa saudação dos meus
conhecidos, que primeiro me encaravam e depois entreolhavam-se, como se eu
acabasse de voltar de uma longa viagem. Eu tinha sido preso quando me dirigia
ao sapateiro para buscar uma bota consertada. Quando fui solto na manhã
seguinte, resolvi retomar o que estava fazendo e, depois de calçar a tal bota,
juntei-me a um grupo que pretendia colher frutas silvestres e me queria como
guia. E em pouco mais de meia hora - pois logo recebi um cavalo arreado -
chegamos ao topo de um dos nossos mais altos morros, onde abundavam frutas
silvestres, a três quilômetros da cidade; e dali não se podia ver o Estado em
lugar nenhum.
Esta é a história completa das "Minhas
prisões''.
Nunca me recusei a pagar o imposto referente às estradas,
pois a minha vontade de ser um bom vizinho é tão grande quanto a de ser um
péssimo súdito; no que toca à sustentação das escolas, atualmente faço a minha
parte na tarefa de educar os meus conterrâneos. Não é um item particular dos
impostos que me faz recusar o pagamento. Quero apenas negar lealdade ao Estado,
quero me retirar e me manter efetivamente indiferente a ele. Não me importo em
seguir a trajetória do dólar que paguei - mesmo se isso fosse possível -, até o
ponto em que ele contrata um homem ou compra uma arma para matar um homem; o
dólar é inocente. O que me importa é seguir os efeitos da minha lealdade. Na
verdade, eu silenciosamente declaro guerra ao Estado, à minha moda, embora
continue a usá-lo e a tirar vantagem dele enquanto puder, como costuma
acontecer nestas situações.
Se outros resolvem pagar o imposto que o Estado me exige,
nada mais fazem além do que já fizeram quando pagaram o seu imposto, ou melhor,
estimulam a injustiça além do limite que o Estado lhes pediu. Se eles pagam o
imposto alheio a partir de um equivocado interesse pela sorte daquele que não
paga, para salvar a sua propriedade ou para evitar o seu encarceramento, isso
só ocorre porque não meditaram seriamente no quanto estão permitindo que os
seus sentimentos particulares interfiram no bem geral.
Esta, portanto, é minha posição atual. Mas não se pode
ficar exageradamente de sobreaviso numa circunstância dessas, pelo risco de que
tal atitude seja desviada pela obstinação ou pela preocupação indevida para
com a opinião do próximo. Que cada um cuide de fazer apenas o que lhe cabe, e
só no momento certo.
Por vezes penso assim: ora, esse povo tem boas intenções,
mas é ignorante; ele faria melhor se soubesse como agir; por que incomodar os
meus vizinhos e forçá-los a tratar-me de uma forma contrária às suas
inclinações? Mas depois penso: não há motivo para proceder como eles ou para
permitir que mais pessoas sofram outros tipos de dor. E digo ainda a mim mesmo:
quando muitos milhões de homens, sem paixão, sem hostilidade, sem sentimentos
pessoais de qualquer tipo, lhe pedem apenas uns poucos xelins, sem que a sua
natureza lhes possibilite retirar ou alterar a sua exigência atual e sem a
possibilidade de você, por seu lado, fazer um apelo a outros milhões de homens,
por que você deveria se expor a tal força bruta avassaladora? Você não
resistirá ao frio e à fome, aos ventos e às ondas com tanta obstinação; você
submete-se pacificamente a mil imposições similares. Você não coloca a cabeça
na fogueira. Mas exatamente na medida em que não considero esta força
inteiramente bruta - e sim uma força parcialmente humana - e em que avalio que
mantenho relações com esses milhões e com outros muitos milhões de homens - que
não são apenas coisas brutas ou sem vida -, vejo também que é possível a
apelação: em primeira instância e de pronto, eles podem apelar ao Criador; em
segunda instância, podem apelar uns aos outros. Mas se ponho a minha cabeça no
fogo de propósito não há apelo possível a ser feito ao fogo ou ao Criador do
fogo, e sou o único culpado pelas conseqüências. Se eu conseguisse convencer-me
de que tenho algum direito a me sentir satisfeito com os homens tal como eles
são, e a tratá-los de acordo com isso e não parcialmente de acordo com as
minhas exigências e expectativas de como eles e eu mesmo deveríamos ser, então,
como bom muçulmano e fatalista, eu teria que me esforçar para ser feliz com as
coisas como elas são e proclamar que tudo se passa segundo a vontade de Deus.
E, acima de tudo, há uma diferença entre resistir a essa força e a uma outra
puramente bruta ou natural: a diferença é que posso resistir a ela com alguma
efetividade. Não posso esperar mudar a natureza das pedras, das árvores e dos
animais, tal como Orfeu.
Não quero polemizar com qualquer homem ou nação. Não
quero fazer filigranas, estabelecer distinções elaboradas ou colocar-me numa
situação superior à dos meus vizinhos. Estou a buscar, posso admitir, até mesmo
uma desculpa para aceitar as leis do país. Estou preparado até demais para
obedecer a elas. Neste particular tenho motivos para suspeitar de mim mesmo; e
a cada ano, quando se aproxima a época da visita do coletor de impostos,
surpreendo-me disposto a revisar os atos e as posições do governo central e do
governo estadual, a rever o espírito do povo, para descobrir um pretexto para a
obediência. Acredito que logo o Estado será capaz de aliviar-me de todos os
encargos deste tipo e então não serei mais patriota do que o resto dos meus
conterrâneos. Encarada de um ponto de vista menos elevado, a Constituição, com
todos os seus defeitos, é muito boa; a lei e os tribunais são muito
respeitáveis; mesmo o Estado de Massachusetts e o governo dos Estados Unidos
da América são, em muitos aspectos, coisas admiráveis e bastante raras, pelas
quais devemos ser gratos, tal como nos disseram muitos estudiosos das nossas
instituições. Mas se elevarmos um pouco o nosso ponto de vista, elas mostram-se
tais como as descrevi; e indo mais além, até chegarmos ao mais alto, quem será
capaz de dizer o que são elas, ou quem poderá dizer que sequer vale a pena
observa-las ou refletir sobre elas?
Entretanto, não me preocupo muito com o governo, e quero
dedicar a ele o menor número possível de reflexões. Mesmo no mundo tal como é
agora, não passo muitos momentos sujeito a um governo. Se um homem é livre de
pensamento, livre para fantasiar, livre de imaginação, de modo que aquilo que nunca
é lhe parece ser na maior parte do tempo, governantes ou
reformadores insensatos não são capazes de lhe criar impedimentos fatais. Sei
que a maioria dos homens pensa de maneira diferente de mim; mas não estou nem
um pouco mais satisfeito com os homens que se dedicam profissionalmente a
estudar estas questões e outras parecidas. Pelo fato de se colocarem tão
integralmente dentro da instituição, os homens de Estado e os legisladores
nunca conseguem encará-la nua e cruamente. Eles gostam de falar sobre mudanças
na sociedade, mas não têm um ponto de apoio situado fora dela. Pode ser que
haja entre eles homens de certa experiência e critério e evidentemente capazes
de criar sistemas engenhosos e até úteis, pelos quais lhes devemos gratidão; mas
todo o seu gênio e toda a sua utilidade não ultrapassam certos limites
relativamente estreitos. Eles tendem a esquecer que o mundo não é governado
através de decisões e conveniências. Webster nunca chega aos bastidores do
governo e, por isso, não pode ser uma autoridade no assunto. As suas palavras
são sábias apenas para os legisladores que não cogitam de qualquer reforma
essencial no governo existente; para as exigências dos pensadores e dos que
fazem leis duradouras, ele nem chega a visualizar o assunto. Conheço algumas
pessoas cujas especulações serenas e sábias logo revelariam os limites do
alcance e da hospitalidade da imaginação de Webster. Mesmo assim, quando comparadas
com as paupérrimas declarações da maioria dos reformadores e com a mentalidade
e a eloqüência ainda piores dos políticos em geral, as suas palavras são
praticamente as únicas que têm valor e revelam sensibilidade; devemos por isso
agradecer ao céu por contarmos com Webster. Em termos comparativos, ele é
sempre impetuoso, original e, acima de tudo, prático. Mas a sua virtude não é a
sabedoria, e sim a prudência. A verdade de um jurista não é a Verdade, mas a
consistência, ou uma conveniência consistente. A verdade está sempre em
harmonia consigo mesma, e a sua importância principal não é a de revelar a
justiça que porventura possa conviver com o mal. Webster bem merece o título
pelo qual é conhecido: "Defensor da Constituição". De fato, ele não
precisa atacar, mas apenas armar a defesa contra os golpes alheios. Ele não é
um líder, e sim um seguidor. Os seus líderes são os constitucionalistas de
1787. Eis as suas próprias palavras: "Nunca tomei e nunca pretendo tomar
uma iniciativa; nunca apoiei ou pretendo apoiar uma iniciativa - que vise
desmanchar o acordo original pelo qual os diversos Estados formaram a
União". Ao comentar a cobertura que a Constituição dá à escravidão, diz
ele: "Já que é parte do pacto original, que continue a escravidão".
Apesar da sua agudeza e habilidade especiais, ele não consegue isolar um fato
das suas relações meramente políticas para contemplá-lo nos termos absolutos
exigidos para o seu aproveitamento pelo intelecto - por exemplo, o que se impõe
moralmente hoje em dia nos Estados Unidos no tocante a agir frente à
escravidão; no entanto, ele arrisca-se ou é levado a formular uma resposta
desesperada tal como a que se segue, e insiste que fala em termos absolutos,
como um homem particular: "A forma pela qual os governos dos Estados onde
existe escravidão decidem regulamentá-la é matéria da sua própria deliberação,
pela qual são responsáveis perante os seus cidadãos, perante as leis gerais da
propriedade, da humanidade e da justiça, e perante Deus. Quaisquer associações
formadas em outro lugar, mesmo oriundas de um sentimento de compaixão humana,
ou com qualquer outra origem, nada têm a ver com o assunto. Nunca lhes dei
qualquer apoio, e nunca darei". Que novo e original código de obrigações
sociais pode ser inferido de palavras como estas? (1)
Para os que não conhecem as fontes mais puras da verdade,
que não querem subir mais pela sua correnteza, a opção - sábia - é interromper
a sua busca na Bíblia e na Constituição; será aí que eles a sorverão, com
reverência e humildade; mas para aqueles que conseguem perceber que a verdade
vem mais de cima e alimenta esse lago ou aquele remanso, é preciso preparar de
novo o corpo para continuar a peregrinação, até chegar à nascente.
Ainda não surgiu um homem dotado de gênio para legislar
no nosso país. Homens assim são raros na história mundial. Oradores, políticos
e homens eloqüentes existem aos milhares; mas ainda estamos por ouvir a voz do
orador capaz de solucionar as complexas questões do dia-a-dia. Amamos a
eloqüência pelos seus méritos próprios, e não pela sua capacidade de pronunciar
uma verdade qualquer, nem pela possibilidade de inspirar algum heroísmo. Os
nossos legisladores ainda não aprenderam a distinguir o valor relativo do
livre-comércio frente à liberdade, à união e à retidão. Eles não têm gênio ou
talento nem para as questões relativamente simplórias dos impostos, das
finanças, do comércio e da indústria, da agricultura. A América do Norte não
conseguiria manter por muito tempo a sua posição entre as nações se fôssemos
abandonados à esperteza palavrosa dos congressistas; felizmente contamos com a
experiência madura e com os protestos efetivos do nosso povo. Talvez não tenha
o direito de afirmar isto, mas o Novo Testamento foi escrito há mil e
oitocentos anos; no entanto onde encontrar o legislador suficientemente sábio e
prático para se aproveitar de tudo o que esse texto ensina sobre a ciência da
legislação?
A autoridade do governo, mesmo do governo ao qual estou
disposto a me submeter - pois obedecerei com satisfação aos que saibam e façam
melhor do que eu e, sob certos aspectos, obedecerei até aos que não saibam nem
façam as coisas tão bem -, é ainda impura; para ser inteiramente justa, ela
precisa contar com a sanção e com o consentimento dos governados. Ele não pode
ter sobre a minha pessoa e meus bens qualquer direito puro além do que eu lhe
concedo. O progresso de uma monarquia absoluta para uma monarquia
constitucional, e desta para uma democracia, é um progresso no sentido do
verdadeiro respeito pelo indivíduo. Será que a democracia tal como a conhecemos
é o último aperfeiçoamento possível em termos de construir governos? Não será
possível dar um passo a mais no sentido de reconhecer e organizar os direitos
do homem? Nunca haverá um Estado realmente livre e esclarecido até que ele
venha a reconhecer no indivíduo um poder maior e independente - do qual a
organização política deriva o seu próprio poder e a sua própria autoridade - e
até que o indivíduo venha a receber um tratamento correspondente. Fico
imaginando, e com prazer, um Estado que possa enfim se dar ao luxo de ser justo
com todos os homens e de tratar o indivíduo respeitosamente, como um vizinho;
imagino um Estado que sequer consideraria um perigo à sua tranqüilidade a
existência de alguns poucos homens que vivessem à parte dele, sem nele se
intrometerem nem serem por ele abrangidos, e que desempenhassem todos os
deveres de vizinhos e de seres humanos. Um Estado que produzisse esta espécie
de fruto, e que estivesse disposto a deixá-lo cair logo que amadurecesse,
abriria caminho para um Estado ainda mais perfeito e glorioso; já fiquei a
imaginar um Estado desses, mas nunca o encontrei em qualquer lugar.